A Osesp abriu sua temporada 2026 com um concerto inovador, executando a complexa obra "Gruppen", de Karlheinz Stockhausen, que exigiu a divisão da orquestra em três grupos com maestros distintos em palcos separados da Sala São Paulo. O programa também incluiu uma transcrição de Villa-Lobos para Bach e a "Nona Sinfonia" de Beethoven, formando uma abertura de temporada ousada e sem paralelos recentes nas principais orquestras do hemisfério norte. Os principais tópicos abordados são a execução desafiadora e espacializada de "Gruppen", a programação inovadora do concerto e a performance das obras subsequentes.
Ao abrir sua temporada 2026 com "Gruppen", composição escrita entre 1955 e 1957 por Karlheinz Stockhausen, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, desafiou a si mesma, estimulou seu público, provocou adaptações na Sala São Paulo e rompeu com o desenho tradicional de um concerto sinfônico.
A combinação da obra de Stockhausen com a transcrição de Heitor Villa-Lobos para a "Fantasia e Fuga" em dó menor, BWV 537, de Johann Sebastian Bach âoriginal para órgãoâ, seguida pela "Nona Sinfonia" de Beethoven, não inova apenas dentro do contexto brasileiro. De fato, se tomarmos como referência os anos mais recentes, é difÃcil encontrar qualquer paralelo nas aberturas de temporadas das orquestras mais conhecidas do hemisfério norte.
Poucas obras orquestrais têm o grau de dificuldade de realização de "Gruppen". Herdeira do chamado serialismo integral, técnica de composição desenvolvida após a Segunda Guerra Mundial, na qual o desdobrar dos parâmetros sonoros é regulado por estruturas previamente definidas, as "séries", ela ainda adiciona múltiplas camadas: grupos instrumentais homogêneos e heterogêneos, sintetizados acusticamente de forma coesa.
Para tanto, Stockhausen concebe a interação simultânea programada entre três grupos orquestrais distintos e independentes. Por isso, na primeira parte do concerto, a equipe da Sala São Paulo teve de criar dois palcos laterais, especialmente para acomodar as outras duas orquestras extraÃdas da "grande Osesp".
Cada uma dessas orquestras tinha o seu regente. Se na estreia mundial, em Colônia, em 1958, atuaram lado a lado o próprio Stockhausen, Bruno Maderna e Pierre Boulez, na estreia brasileira desta quinta-feira (5), o titular da Osesp, Thierry Fischer âna orquestra dois, centralizadaâ, atuou com Wagner Polistchuk âna orquestra um, à esquerda do públicoâ e Ricardo Bologna âna orquestra três, à direita de quem olha para o palco.
Os maestros têm de se olhar durante toda a peça âque de fato inaugura um novo modo de pensar o tempo musicalâ, já que, durante o percurso, há continuidade, relação, complementação, superposição e embate entre os agrupamentos instrumentais distribuÃdos nos três palcos.
Stockhausen cria blocos que se expandem e retraem, que se movem no espaço. Não se trata apenas de uma ideia criativa, mas de uma realização artesanal impecável, que beira a mágica, a prestidigitação, o ilusionismo.
A individualidade dos blocos sintetiza sons percussivos extremamente atraentes; silêncios também se fazem sentir; há uma guitarra elétrica na orquestra central e, a partir da segunda metade da composição, um piano passa a agrupar em si as ideias, levando adiante essa história sem narrativa.
No momento mais comovente da noite, ao final de "Gruppen", uma nota sustentada deu inÃcio ao arranjo de Villa-Lobos âcujo aniversário se comemorava no diaâ para a "Fantasia e Fuga" de Bach: sem medo de correr riscos, a versão foi apresentada com a orquestra ainda dividida em três, e com os três maestros buscando um único som, na transparência da textura barroca. Foi uma aula de despojamento, descentralização e riqueza.
Foram necessários 40 minutos de intervalo para que os palcos extras fossem desmontados, e a Sala São Paulo voltasse ao seu formato usual para a performance da "Nona Sinfonia".
No primeiro movimento, entretanto, parecia ainda haver muita adrenalina. Foi demasiadamente rápido, com sopros fortes âespecialmente os trompetesâ e sem muitas sutilezas fraseológicas: nem parecia ser a Osesp de Thierry Fischer.
Mas as coisas foram, aos poucos, se aquietando. No terceiro movimento tudo já estava plenamente ajustado, e o "Finale" foi exemplar na dificÃlima equalização entre a orquestra, os coros âCoro da Osesp e Coro Acadêmico da Osespâ, e os quatro cantores solistas âa soprano Camila Provenzale, a mezzo Ana Lucia Benedetti, o tenor Issachah Savage, e o baixo Sávio Sperandio.
Beethoven tematiza, através da "Ode à Alegria" de Schiller âo texto cantado por coro e solistasâ, o ideal Iluminista de fraternidade humana; já Stockhausen cata os cacos do mundo destruÃdo pelas grandes guerras para apostar numa nova consciência, de modo a "expandir nossos sentidos, nossa percepção, nossa inteligência, nossa sensibilidade". Entre ambos ouviu-se o Bach "bachiano brasileiro" de Heitor Villa-Lobos.