O ministro de Energia do Qatar alertou que a guerra no Oriente Médio pode levar todos os exportadores do Golfo a declararem force majeure, interrompendo a produção de energia e causando uma disparada nos preços do petróleo para até US$ 150 o barril. Ele destacou que mesmo com o fim imediato do conflito, a retomada das operações normais de exportação de GNL levaria semanas ou meses, impactando severamente a economia global. Os principais tópicos abordados são: o risco de uma paralisia generalizada na produção energética da região, os fortes impactos nos preços globais do petróleo e do gás, e as consequências em cadeia para o crescimento econômico mundial e as cadeias de suprimentos industriais.
O ministro de Energia do Qatar alertou que a guerra no Oriente Médio poderá "derrubar as economias do mundo", prevendo que todos os exportadores de energia do golfo Pérsico podem interromper a produção em questão de dias, o que pode levar o petróleo a US$ 150 (R$ 793,59) o barril.
Saad al-Kaabi disse ao FT que, mesmo que a guerra terminasse imediatamente, levaria "semanas a meses" para o Qatar retornar a um ciclo normal de entregas após um ataque de drone iraniano à sua maior usina de GNL (gás natural liquefeito).
O Qatar, segundo maior produtor mundial de GNL, foi forçado a declarar força maior esta semana após o ataque à sua usina de Ras Laffan.
Embora o Qatar exporte apenas uma pequena proporção de seu gás para a Europa, o ministro de Energia afirmou que o continente seria impactado de forma significativa, já que compradores da Ãsia ofereceriam lances mais altos que os europeus por qualquer gás disponÃvel no mercado, e outros paÃses do golfo Pérsico se veriam incapazes de cumprir suas obrigações contratuais.
"Esperamos que todos que não declararam força maior o façam nos próximos dias enquanto isso continuar. Todos os exportadores da região do golfo terão que declarar força maior", comentou Kaabi. "Se não o fizerem, em algum momento terão que pagar a responsabilidade legal por isso, e essa é a escolha deles".
Os comentários de Kaabi refletem a crescente preocupação no golfo Pérsico sobre as repercussões econômicas da guerra dos EUA e de Israel com o Irã, que causou estragos em toda a região rica em petróleo.
O petróleo Brent subiu mais de 6% nesta sexta-feira e superou a casa dos US$ 91 (R$ 481,44) o barril nesta sexta-feira (6), o nÃvel mais alto desde julho de 2024. Os preços do gás europeu subiram 5%, mas ainda estavam abaixo do pico desta semana, quando chegaram a subir quase 90% em dois dias.
"Isso vai derrubar as economias do mundo", avaliou Kaabi.
Se esta guerra continuar por algumas semanas, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em todo o mundo será impactado. O preço da energia de todos vai subir. Haverá escassez de alguns produtos e haverá uma reação em cadeia de fábricas que não conseguem fornecer
Ele declarou que, embora não tenha havido danos às operações offshore do Qatar, as consequências em terra ainda estavam sendo avaliadas.
"Ainda não sabemos a extensão dos danos, pois atualmente ainda está sendo avaliada. Ainda não está claro quanto tempo levará para reparar", comentou.
O investimento de US$ 30 bilhões do Qatar para aumentar a capacidade de produção em seu vasto campo de gás North Field de 77 milhões para 126 milhões de toneladas por ano até 2027 também deve ser adiado, indicou o ministro. A primeira produção deveria começar no terceiro trimestre deste ano.
"Isso vai atrasar todos os nossos planos de expansão com certeza", apontou Kaabi. "Se voltarmos em uma semana, talvez o efeito seja mÃnimo; se for um mês ou dois, é diferente."
A Arábia Saudita e os Emirados Ãrabes Unidos têm oleodutos que podem redirecionar uma parte de suas exportações de petróleo para serem carregadas em portos fora do estreito de Hormuz, mas volumes significativos de produção permanecerão presos.
Ele prevê que os preços do petróleo poderiam disparar para US$ 150 o barril em duas a três semanas se os navios-tanque e outras embarcações mercantes não conseguirem passar pelo estreito de Hormuz, uma importante rota comercial marÃtima por onde passa um quinto do petróleo e gás do mundo.
Kaabi estima que os preços do gás subirão para US$ 40 por milhão de unidades térmicas britânicas (117 euros/megawatt-hora) âquase quatro vezes o nÃvel em que estavam antes do inÃcio da guerra.
Ele acrescentou que o impacto da interrupção do comércio marÃtimo através do estreito repercutiria muito além dos mercados de energia e atingiria inúmeras indústrias de outros setores, já que a região produz grande parte dos petroquÃmicos e matérias-primas de fertilizantes do mundo.
O tráfego através da via navegável diminuiu desde sábado (28) até parar desde que os EUA e Israel lançaram seu ataque ao Irã. Pelo menos 10 navios foram atingidos, os valores dos seguros dispararam e os armadores não estão dispostos a arriscar suas embarcações e tripulações.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e autoridades israelenses alertaram que a guerra pode durar semanas enquanto buscam destruir o regime islâmico. Trump disse esta semana que a Marinha dos EUA escoltará navios através do estreito e se ofereceu para fornecer seguro adicional às empresas de navegação.
Mas Kaabi afirmou que ainda seria inseguro para as embarcações passarem pelo estreito, que tem apenas 39 quilômetros de largura em seu ponto mais delicado e segue a costa iraniana, enquanto a guerra estiver em andamento.
"Da forma como estamos vendo os ataques, trazer navios para o estreito... é muito perigoso. à muito perto da costa para trazer navios. Será difÃcil convencer os navios a entrar", avaliou. "A maioria dos armadores verá que se tornam um alvo maior porque eles [Irã] estão mirando nos navios militares."
"Além da energia, haverá uma paralisação em todo o outro comércio entre o [Golfo] e o mundo, o que terá um efeito significativo nas economias do [Golfo] e em todos os parceiros comerciais ao redor do mundo", comentou o ministro de Energia.
O Qatar, que abriga a maior base militar americana na região, tradicionalmente teve boas relações com o Irã. Mas a república islâmica disparou múltiplas barragens de mÃsseis e drones contra ele e outros paÃses no golfo Pérsico, enquanto Teerã buscava aumentar as apostas para os EUA mirando instalações de energia, aeroportos, bases americanas e embaixadas.
Kaabi, que também é CEO da QatarEnergy, disse que a empresa não teve escolha senão declarar força maior depois que Ras Laffan foi atingida em um ataque de drone iraniano na segunda-feira. Ele citou razões de segurança, acrescentando que as instalações offshore da empresa também estavam enfrentando a ameaça de ataque, embora não tenham sido danificadas.
"Na verdade, fomos informados por nossos militares de que há uma ameaça iminente à s instalações offshore. Então, encerramos as operações com segurança, da forma mais segura possÃvel, e mobilizamos cerca de 9.000 pessoas em 24 horas e as trouxemos de volta", relatou.
Quando temos nosso pessoal em perigo e estamos realmente sendo atingidos em uma zona militar e não podemos mais trabalhar, e não podemos colocar nosso pessoal em risco, temos que declarar força maior.
A produção no Qatar não será reiniciada até que haja uma cessação completa das hostilidades, disse ele. "Então o sinal é quando nossos militares dizem que há uma parada completa das hostilidades e não estamos mais sendo atacados", disse Kaabi. "Não vamos colocar nosso pessoal em risco."
Após o reinÃcio, ele adiantou que haverá enormes problemas logÃsticos, além da restauração do maquinário que resfria e comprime o gás em lÃquido que pode ser transportado.
"Nossos navios estão espalhados por toda parte", afirmou Kaabi, acrescentando que apenas seis ou sete dos 128 navios-tanque da frota do Qatar estavam disponÃveis. "Cada navio leva um ou dois dias e você pode carregar seis ou sete de cada vez", informou o ministro, explicando o tempo que levaria para restaurar a normalidade.
Ele rejeitou a ideia de que a decisão do Qatar de invocar força maior e perder embarques prejudicaria a reputação há muito estimada do paÃs como o fornecedor mais confiável de GNL. "Não achamos que alguém ousaria vir até nós e dizer que não somos confiáveis porque vocês estavam sendo bombardeados e não entregaram", disse.
Mesmo que quisesse, o Qatar não conseguiu encontrar gás no mercado para compensar as entregas perdidas aos seus clientes, relatou. "Vamos supor que você queira comprar 77 milhões e entregar aos clientes, não há 77 milhões de toneladas disponÃveis para você comprar."