Resumo objetivo:
O artigo descreve como crianças negras e pobres no Brasil têm sua infância roubada pela necessidade precoce de sobrevivência, agravada pela violência, pobreza e jornadas exaustivas de trabalho de seus pais. Ele critica projetos conservadores, como o "Escola Sem Partido", por fragilizar a proteção infantojuvenil ao impedir debates sobre gênero e sexualidade, que são essenciais para prevenir abusos. Como solução, defende políticas públicas intersetoriais com recortes de raça e gênero para criar novos paradigmas de proteção.
Principais tópicos abordados:
1. O impacto do racismo, da pobreza e da violência na infância de crianças negras.
2. A precarização do cuidado infantil devido às longas jornadas de trabalho dos pais.
3. A crítica a projetos conservadores que restringem debates sobre gênero e sexualidade nas escolas.
4. A defesa de políticas públicas baseadas em dados e com perspectiva interseccional para proteger crianças e adolescentes.
As mazelas oriundas da formação social e cultural brasileira percorrem, recorrentemente, os anos iniciais de vida de uma criança negra pobre. Ter uma memória de infância marcada pela violência doméstica e pelas condições precárias de moradia e privação alimentar são lembranças dilacerantes que atormentam a vida adulta.
No mundo da infância de uma criança negra nascida no contexto sociocultural e político marcado pelas mazelas oriundas do racismo, patriarcado e pela exploração de classe, só existe uma única tarefa: sobreviver.
Essa tarefa carrega consigo uma responsabilidade que impõem romper com a infância cedo demais e isso impacta severamente na vida adulta. A sobrevivência é um aprendizado árduo para crianças negras porque tudo ao seu redor gira em torno de pessoas que vivem no limite da existência cotidiana.
No Brasil, 14 crianças se acidentam a cada uma hora
Um exemplo vivenciado por filhas e filhos de empregadas domésticas negras, nascidos nos anos 1980 e 1990, provém da maneira abrupta que inúmeras delas lidavam, no cotidiano, com as descobertas e proposições do universo infantil dos próprios filhos.
A preocupação dessas mulheres era providenciar o alimento (essa é a materialidade do amor em várias famílias negras) para casa, de tal forma que, além da obrigação em executar o trabalho doméstico, por vezes, também o salário estava condicionado em atender os caprichos e mimos, bem como dar o colo e o afago para os filhos dos patrões. Depois de uma jornada exaustiva de serviço, era impossível a dedicação, com o mesmo afinco, na lida com os próprios filhos.
No Brasil, 14 crianças se acidentam a cada uma hora. Diante de jornadas exaustivas de trabalho dos pais em várias famílias da classe trabalhadora, o cuidado é feito pelas próprias crianças e adolescentes com ausência completa da supervisão do adulto, além do Estado não oferecer de forma eficiente e ampla bens e serviços de cuidados com o mundo de meninas e meninos deste país.
Fim da escala 6 x 1
Em 2026, além das eleições, o que tem movimentado a luta de classes no Brasil é o fim da jornada de trabalho 6X1 que também ataca e rouba a infância de crianças e adolescentes porque retira da família o tempo do brincar, do lazer, da alegria, do diálogo. E em geral, insere as telas, sem nenhum tipo de controle, gerando danos irreversíveis ao desenvolvimento infanto-juvenil.
Não há proteção para crianças e adolescentes no caos que é essa sociedade, sobretudo das inúmeras violências que são produzidas e reproduzidas cotidianamente nas relações humanas e sociais vigentes, seja no âmbito privado ou público.
Políticas públicas
Nesse sentido, projetos da extrema direita como Escola Sem Partido, militarização das escolas, difusão das fake news sobre uso de material didático e pedagógico referente à educação sexual, tendem a colaborar para fragilizar a proteção de crianças e adolescentes. É horripilante pensar na coragem que legisladores têm de fazer projetos de lei e aprovar tais aberrações a partir da infame falácia de defesa da pauta dos costumes e da família.
Esses projetos mascaram e invisibilizam as vulnerabilidades de milhares de crianças e adolescentes ao deslegitimar o debate sobre gênero, sexualidade e diversidade.
A educação sexual, quando conduzida com responsabilidade e base técnica, não corrompe valores; ao contrário, fornece instrumentos para o reconhecimento de situações de abuso, para o respeito às diferenças e para a construção de relações mais saudáveis. Impedir esse debate não protege a família — apenas silencia vítimas e reforça desigualdades.
Portanto, o fomento a políticas públicas baseadas em dados, com a valorização de multiprofissionais e a integração de várias áreas tais como a saúde e educação com recorte para as relações de gênero e raciais e também o fortalecimento de mecanismos institucionais de proteção podem contribuir com a transformação dessa realidade escrevendo novos paradigmas para a infância e adolescência brasileira.
Makota Kinanjenu (Andréia Roseno) integra a Articulação de Mulheres Negras de Minas Gerais (Nzo Jindanji Kuna Nkos’i).
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente corresponde a linha editorial do jornal.