Resumo objetivo: O artigo questiona a substituição de juízes por algoritmos de IA, um debate inflamado pela atual crise de credibilidade do Judiciário brasileiro. Ele reconhece as vantagens teóricas da IA, como menor custo e imunidade à corrupção, mas propõe analisar a questão além do contexto brasileiro. Citando o livro "Ruído", o texto argumenta que, embora não sejam brilhantes, os algoritmos superam a inconsistência inerente ao julgamento humano, levando o autor a preferir ser julgado por uma IA caso fosse inocente.
Principais tópicos abordados:
1. A crise de credibilidade no Judiciário brasileiro como pano de fundo para o debate.
2. As vantagens potenciais da IA (custos, imparcialidade, consistência) versus os erros e vícios humanos.
3. A análise da questão em um contexto universal, além das disfuncionalidades locais.
4. A defesa da superioridade consistente dos algoritmos sobre a inconsistência do julgamento humano, com base na obra "Ruído".
E se trocássemos os juÃzes por um algoritmo de IA (inteligência artificial)? Admito que há algo de capcioso na pergunta. Não tanto pelo conteúdo, mas pelo "timing". O Judiciário brasileiro vive um mau momento, com ministros do STF enrolados no escândalo do Master, o problema dos penduricalhos sob os holofotes da imprensa e o caso da venda de sentenças no STJ, entre outras histórias pouco edificantes.
Essa conjunção de crises tende a inflar as preferências pela IA. A mesma pergunta feita alguns meses atrás, quando se louvava a firmeza do Supremo na defesa da democracia, talvez gerasse outras respostas.
O mundo é de fato complicado. As mesmas pessoas e instituições que acertam num caso podem errar em outros. No mais, o menor custo das IAs quando comparado ao de salários magistocráticos e a invulnerabilidade dos computadores à corrupção e a paixões como ganância, relações de amizade e até ao amor são itens que devem mesmo ser incluÃdos na coluna de vantagens do algoritmo.
Em nome da universalidade, porém, podemos tentar responder à pergunta ignorando disfuncionalidades muito caracterÃsticas do Brasil. Em paÃses em que os custos do Judiciário são mais contidos e nos quais magistrados não frequentam com tanta assiduidade o noticiário polÃtico ou policial também valeria substituir juÃzes de carne e osso por programas de computador?
Já comentei aqui o livro "RuÃdo", em que Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein fazem uma defesa enfática da superioridade das IAs. Não porque os algoritmos sejam particularmente bons na tarefa, mas porque humanos somos péssimos nela. Na visão dos autores, a mente humana é arquiteturalmente incapaz de fazer julgamentos que sejam ao mesmo tempo objetivos e consistentes. Qualquer algoritmo, mesmo os mais simples, se saem melhor do que pessoas.
Não consigo discordar. Se me fosse dada a escolha entre ser julgado por um juiz de verdade e uma IA, não pestanejaria: sendo inocente, correria para o algoritmo; se culpado, tentaria a sorte com um humano.