Resumo objetivo:
A vacina de dose única contra dengue do Instituto Butantan manteve, após cinco anos de acompanhamento, 80,5% de eficácia contra casos graves e sinais de alerta, além de prevenir totalmente as hospitalizações registradas no estudo. Sua eficácia geral foi de 65% contra infecções sintomáticas, superando o mínimo de 50% exigido pela OMS. A proteção mostrou-se mais alta em pessoas com exposição prévia ao vírus e variou conforme o sorotipo, com 73% para o tipo 1 e 55,7% para o tipo 2.
Principais tópicos abordados:
1. Eficácia da vacina: resultados de proteção contra casos graves, hospitalizações e infecções sintomáticas após cinco anos.
2. Dados do estudo: fase 3, com 16.235 participantes, e desafios de acompanhamento durante a pandemia.
3. Desempenho por perfil: diferença na eficácia conforme exposição prévia ao vírus e por sorotipos circulantes.
4. Contexto da dengue: importância do imunizante diante do cenário epidemiológico brasileiro.
A vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan manteve a eficácia de 80,5% contra casos graves de dengue e quando a doença mostra sinais de alerta (como sangramento nas mucosas e dor abdominal intensa) após cinco anos de acompanhamento dos estudos.
Na pesquisa, foram registradas oito hospitalizações por dengue, nenhuma no grupo que recebeu o imunizante, isto é, a proteção da vacina é também elevada para evitar internações e complicações da doença.
O imunizante, o primeiro em dose única produzido contra a arbovirose em todo o mundo, teve uma eficácia geral contra casos positivos (para qualquer sorotipo) de 65%, considerado já acima do esperado para a aprovação de uma vacina pela OMS (Organização Mundial da Saúde), de ao menos 50%.
Os resultados foram divulgados na última quarta-feira (4) no perÃodo cientÃfico Nature Medicine (do grupo Nature), em um artigo assinado por pesquisadores do Instituto Butantan, do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (RO), da Fiocruz de Recife, entre outros.
Para Esper Kallás, diretor do Butantan e primeiro autor do estudo, o maior desafio nesta etapa do acompanhamento de cinco anos foi que esse perÃodo se deu bem no meio da pandemia da Covid. "Estudos longos, em geral, sofrem com um problema de retenção, isto é, muitos dos participantes desistem no meio. E foi um desafio gigante manter essa análise no meio da pandemia, quando as pessoas não estavam saindo de casa para se proteger do Sars-CoV-2", afirma.
Houve, também, uma diminuição dos casos de dengue no perÃodo, resultado da frequência de outros vÃrus âcomo o próprio Sars-CoV-2â e pela diminuição da circulação, uma vez que a aglomeração de pessoas em locais de alta transmissão é um fator para a explosão de dengue.
A dengue é uma doença viral em sua maioria dos casos leves, mas a ocorrência de uma segunda infecção por outro sorotipo pode levar a casos graves. Existem quatro sorotipos do vÃrus (1, 2, 3 e 4), e a pessoa infectada por um tipo pode ainda contrair uma nova infecção pelos outros três.
Este ano, até o dia 21 de fevereiro, foram registrados 95.809 casos prováveis, com 18 óbitos confirmados e outros 115 em investigação.
O estudo clÃnico de fase 3 teve 16.235 participantes de 2 a 59 anos e foi conduzido entre 2016 e 2019. A análise de acompanhamento de cinco anos foi completada em 2024 e revela que a proteção contra casos confirmados de dengue após 28 dias de aplicação da vacina se manteve alta ao decorrer desse tempo.
Os pesquisadores também conduziram análises secundárias do imunizante para avaliar a eficácia por sorotipo e por exposição prévia ao vÃrus. Como resultado, a vacina apresentou uma eficácia de 77,1% para pessoas que tiveram dengue no passado e 58,9% para indivÃduos sem exposição prévia ao vÃrus.
Quanto ao sorotipo, a vacina do Butantan teve uma proteção de 73% para o tipo 1 (independente de exposição prévia ao vÃrus) e 55,7% para o tipo 2. Durante o perÃodo do estudo, não houve circulação dos sorotipos 3 e 4, por isso não houve uma proteção estatisticamente significativa para essas formas do vÃrus.
As proteções se mantiveram maiores para pessoas que tiveram dengue no passado, sendo de 77,1%, para o sorotipo 1, em pessoas com infecção prévia contra 58,9% para aqueles que nunca contraÃram a infecção, e 79,4%, para o sorotipo 2 em pessoas com histórico da doença contra 36,7% para os chamados soronegativos. Essa diferença, porém, não deve comprometer a eficácia do imunizante, explica o infectologista.
"Devido à construção da vacina, que incluiu o genoma completo dos sorotipos 1, 3 e 4, mas uma forma quimérica [construção a partir de mais de uma forma] do tipo 2, com proteÃnas da membrana e do envelope do DENV-2, mas não estruturantes, a nossa maior preocupação era que não tivesse uma eficácia alta contra esse sorotipo. E não foi o que a gente observou, mesmo nos indivÃduos soronegativos, temos uma proteção alta contra dengue grave e dengue com sinais de alerta", diz Kallás.
Quanto aos tipos 3 e 4, um estudo experimental de infecção de voluntários com esses sorotipos conduzido nos Estados Unidos mostrou que a taxa de soroconversão (isto é, produção de anticorpos especÃficos) após seis meses foi de 100%, indicando que, na presença dos vÃrus em circulação, a vacina pode garantir uma boa proteção, diz Kallás.
"Uma outra coisa muito importante é que não identificamos [nesse tempo] nenhum sinal de doença com agravamento, mostrando que vacina protege a longo prazo, e também nenhum sinal de agravamento dependente de anticorpos [ADE, na sigla em inglês], que é aquele fenômeno onde a própria vacina leva a um quadro que é similar ao da doença."
Além da eficácia, o acompanhamento por um perÃodo mais longo confirmou a segurança do imunizante em todas as faixas etárias, com uma incidência de efeitos adversos similar entre os participantes que receberam a vacina e os que tiveram a injeção de placebo. A maioria dos efeitos colaterais foram moderados e esperados, como dor de cabeça, fadiga e dor no corpo, e não houve nenhum evento adverso grave no grupo de estudo.
A vacina recebeu a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em novembro do ano passado para uso em pessoas com 12 a 59 anos e teve inÃcio a aplicação em janeiro deste ano. Até o momento, o Butantan enviou 1,3 milhão de doses para o PNI (Programa Nacional de Imunizações) para vacinação no SUS (Sistema Ãnico de Saúde).
A expectativa, diz Kallás, é agora iniciar os testes em participantes com mais de 60 anos para, após a análise do imunizante neste grupo, solicitar uma alteração em bula para a Anvisa. "Tivemos, na mesma data da publicação deste artigo com os resultados de acompanhamento de cinco anos, a inclusão do primeiro voluntário no estudo de mais de 60 anos. A expectativa é analisar 700 participantes e, como é um estudo para alteração de bula, a conclusão até o final deste ano", afirma.