Resumo objetivo:
O Rio Grande do Sul registra números alarmantes de violência de gênero em 2025, com 80 mulheres assassinadas e 20 feminicídios, refletindo uma tendência nacional de crescimento desse crime. Em resposta, a Trensurb realizou um seminário para debater o problema e reforçou sua campanha de conscientização "Fim da Linha para a Violência contra a Mulher". O evento também destacou as falhas na rede de proteção, como a escassez de delegacias especializadas e de policiais na Patrulha Maria da Penha no estado.
Principais tópicos abordados:
1. Estatísticas da violência de gênero no Rio Grande do Sul e no Brasil.
2. Ações de conscientização e enfrentamento promovidas pela Trensurb (campanhas, seminários, parcerias).
3. Deficiências na rede de proteção (poucas DEAMs e efetivo insuficiente da Patrulha Maria da Penha).
4. Mobilização de instituições e autoridades para combater o feminicídio e ampliar o apoio às mulheres.
O Rio Grande do Sul registrou 80 mulheres assassinadas em 2025 e, desde o início deste ano, 20 casos de feminicídio, evidenciando o avanço da violência de gênero no estado. Diante do cenário, a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb) promoveu, nesta quinta-feira (5), o seminário “A luta das mulheres e o combate ao feminicídio”, que reuniu trabalhadores da empresa.
Ao caminhar pelas estações da Trensurb, é possível ver grafites, placas e avisos que alertam sobre a violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul. O material integra a campanha “Fim da Linha para a Violência contra a Mulher”, lançada pela empresa no ano passado.
A atividade desta quinta-feira foi organizada pelo Núcleo de Apoio à Diversidade da Trensurb e discutiu o avanço da violência contra as mulheres e os desafios para fortalecer a rede de proteção. Participaram do debate a vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e presidente da Associação de Promotoras Legais Populares do Rio Grande do Sul, Fabiane Lara; a coordenadora executiva do Comitê Gaúcho em Apoio ao HeForShe, Karen Lose; e a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS).
Falhas na rede de proteção
O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo a nota técnica “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime de feminicídio, em 2015, mais de 13,7 mil mulheres foram assassinadas em razão do gênero no país. Nos últimos cinco anos, o crescimento acumulado é de 14,5%.
Segundo o estudo, entre 2021 e 2025, o Rio Grande do Sul foi o estado com o maior número de feminicídios da região Sul, respondendo por 38,8% das mortes. Foram 444 casos no estado, contra 429 ocorrências no Paraná e 272 em Santa Catarina. No ano passado, além dos casos de feminicídio, foram registradas 264 tentativas e mais de 52 mil ocorrências enquadradas na Lei Maria da Penha.
Previstas nas políticas nacionais de prevenção e enfrentamento à violência, as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) ainda são escassas no estado. Atualmente, apenas 22 dos 497 municípios gaúchos contam com delegacias especializadas, cerca de 4% das cidades.
Outro ponto crítico é o contingente da Patrulha Maria da Penha. Segundo dados apresentados durante o evento, apenas 160 policiais atuam no acompanhamento de medidas protetivas em todo o estado. Os números integram o relatório final da Comissão Externa da Câmara dos Deputados que investigou os feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul e abordados durante o seminário.
Espaço de conscientização
O presidente da Trensurb, Nazur Garcia, afirmou que o momento exige mobilização diante do crescimento da violência de gênero. Segundo ele, a realidade atual impede qualquer celebração de avanços. “Gostaríamos de estar comemorando ganhos para as mulheres, mas hoje estamos realizando mais uma ação de alerta diante dessa realidade”, afirmou.
Garcia lembrou que o estado passou uma década sem uma Secretaria das Mulheres ativa, estrutura que foi retomada recentemente. Segundo ele, os casos de feminicídio registrados no estado, muitos deles dentro de casa, revelam uma situação dramática.
O presidente destacou que a Trensurb tem buscado atuar na conscientização tanto do público interno quanto dos usuários do sistema. Entre as iniciativas estão parcerias com organizações como a Themis – Assessoria Jurídica Feminista e o movimento HeForShe, além da instalação de bancas de orientação jurídica e dos chamados “bancos vermelhos”, símbolo internacional de denúncia da violência contra as mulheres.
As estruturas já foram instaladas em cidades da região Metropolitana, como São Leopoldo e Canoas, e também devem chegar a Novo Hamburgo. Um novo banco foi inaugurado no prédio administrativo da empresa durante o seminário.
Garcia também citou ações internas de orientação e acolhimento para trabalhadoras em casos de assédio moral ou sexual. Segundo ele, cerca de 60% das pessoas que utilizam o sistema ferroviário são mulheres, em sua maioria trabalhadoras que dependem do transporte diariamente. “Esse é um espaço privilegiado para levar informação e orientar.”
Feminicídio como expressão da violência estrutural
Durante o seminário, a deputada federal Maria do Rosário destacou que o enfrentamento ao feminicídio exige compreender a dimensão estrutural da violência contra as mulheres. Segundo a parlamentar, a legislação brasileira define o feminicídio como o assassinato de mulheres motivado pelo menosprezo ou pela condição de gênero, podendo ocorrer tanto em relações íntimas e familiares quanto em outras situações em que esse desprezo esteja presente.
Rosário lembrou que o Brasil registra cerca de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Desde 2015, quando o crime passou a ser tipificado em lei, mais de 13 mil mulheres foram mortas nessas circunstâncias no país.
No Rio Grande do Sul, ela citou episódios recentes que evidenciam a gravidade do problema, como os 11 feminicídios registrados em apenas três dias durante o feriado de Páscoa do ano passado, além dos casos ocorridos desde o início deste ano. “Estamos falando de mães, avós e filhas, pessoas com sonhos e projetos”, afirmou.
A deputada explicou que a Comissão Externa da Câmara sobre feminicídios foi criada após parlamentares identificarem o crescimento dos casos no estado. Seis deputadas federais de diferentes partidos percorreram cidades do interior gaúcho para investigar como funciona o acesso das mulheres aos mecanismos de denúncia e proteção. “Nós já sabemos que a mãe, a irmã, a tia, a filha estão em risco. O que quisemos saber é o que acontece quando uma mulher decide denunciar.”
Segundo Rosário, o feminicídio é o resultado extremo de um ciclo prolongado de violência que pode durar anos, marcado por agressões psicológicas, físicas e sexuais. A parlamentar também lembrou que muitos desses crimes deixam crianças órfãs. Apenas em janeiro deste ano, 15 crianças perderam as mães para o feminicídio.
Ao citar relatos de sobreviventes, como o caso de Carol Santos, que ficou sem o movimento das pernas após sofrer uma tentativa de feminicídio, Rosário destacou que os crimes raramente ocorrem de forma isolada. “Essas mulheres dizem que a violência vinha de muito tempo. O feminicídio não acontece na primeira cena desse crime, ele é a continuidade e a perversidade de uma violência que já estava presente”, concluiu.
Cultura machista e desafios para prevenir a violência
A coordenadora executiva do Comitê Gaúcho em Apoio ao HeForShe, Karen Lose, apresentou o histórico do movimento, que atua desde 2014 no estado com ações voltadas à sensibilização de homens e meninos sobre igualdade de gênero. Segundo ela, o comitê articula iniciativas educativas envolvendo diferentes instituições, entre elas a Trensurb, que integra o grupo desde 2017.
Lose ressaltou que, embora o Brasil possua uma das legislações mais avançadas de proteção às mulheres, a Lei Maria da Penha, os índices de violência seguem elevados. Segundo a ativista, o Rio Grande do Sul lidera os casos de feminicídio na região Sul, situação que atribui à ausência de políticas públicas voltadas às mulheres nos últimos anos.
Ela também alertou para o crescimento de movimentos misóginos na internet, como os chamados red pill, que difundem discursos de ódio contra mulheres e chegam a questionar a própria história de Maria da Penha.
Ela avalia que o machismo está profundamente enraizado no cotidiano e citou experiências pessoais para ilustrar como práticas aparentemente comuns, como a adoção do sobrenome do marido após o casamento, refletem uma cultura de posse sobre as mulheres. Para ela o processo de desconstrução da misoginia precisa envolver homens e mulheres e exige vigilância constante para evitar a reprodução de comportamentos machistas, inclusive entre as próprias mulheres. Para acabar com o feminicídio, é preciso transformar a cultura e garantir a proteção do Estado às mulheres”
“Sonho de liberdade”
A vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e presidente da Associação das Promotoras Legais Populares do Rio Grande do Sul, Fabiane Lara, destacou que o feminicídio deve ser compreendido como resultado de falhas estruturais da sociedade. “Quando a sociedade falha, o feminicídio é inevitável”, afirmou.
Para ela, é necessário questionar as bases sociais que permitem que mulheres sejam mortas sem provocar uma reação coletiva. A ativista também criticou a presença de misoginia em instituições e decisões que definem políticas públicas. “Os mecanismos muitas vezes excluem e escolhem qual mulher merece proteção e qual não merece.”
Ela também destacou a importância da participação das mulheres na política, lembrando que a violência política de gênero ainda representa um obstáculo à presença feminina nos espaços de poder. Ao final, Lara defendeu que o enfrentamento à violência de gênero exige ações articuladas entre educação, cultura, assistência social, segurança pública, sistema de justiça e políticas de trabalho. “Tenho um sonho de liberdade. Como mulher preta periférica, sonho com uma liberdade real para todas nós, do centro à periferia.”