Resumo objetivo:
Ataques coordenados dos EUA e de Israel resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei e de outras lideranças iranianas, desencadeando uma grave escalada de conflito no Oriente Médio. O analista entrevistado argumenta que os EUA foram arrastados para a guerra por uma aliança interna com o primeiro-ministro israelense Netanyahu, rompendo com a doutrina militar anterior e ampliando o risco de um conflito global. As consequências já afetam a economia mundial, com interrupções no fornecimento de energia e pressões inflacionárias, enquanto o enfraquecimento das instituições multilaterais reduz a capacidade de mediação internacional.
Principais tópicos abordados:
1. A escalada do conflito no Oriente Médio após os ataques que mataram lideranças iranianas.
2. A análise geopolítica sobre a mudança na política externa dos EUA e o papel de Israel no gatilho do conflito.
3. As motivações econômicas e estratégicas relacionadas ao petróleo e ao gás.
4. Os impactos econômicos globais e o risco de expansão do conflito.
5. A crise do multilateralismo e o enfraquecimento de instituições como a ONU.
Os ataques coordenados por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultaram na morte do líder supremo aiatolá Ali Khamenei e de dezenas de outras lideranças, mergulharam o Oriente Médio em uma escalada de proporções ainda incertas. Enquanto bombardeios se espalham pelo Líbano e mísseis iranianos atingem Israel, a comunidade internacional assiste atônita a um conflito que, para muitos analistas, pode sair completamente do controle.
“Donald Trump retorna ao poder de certa forma enfraquecido e controlado pela ala do Partido Republicano que ele confrontava originalmente. A extrema direita estadunidense sempre foi partidária do isolacionismo, mas hoje Trump está sob controle desses setores não conservadores, sendo arrastado para guerras que transformaram a perspectiva de um conflito permanente num mecanismo de governo”, aponta Hugo Albuquerque, analista geopolítico, ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Ele aponta que Israel não tem capacidade de confrontar o Irã por um mês ou dois sem o auxílio de Washington. “A doutrina militar estadunidense e israelense no Oriente Médio era: os Estados Unidos interviriam no Irã caso o Irã desse o primeiro tiro. Nas duas últimas ocasiões, a gente viu que na verdade Israel deu o primeiro tiro.”
O analista sugere que Netanyahu usou seu poder dentro da política estadunidense, incluindo conexões reveladas nos arquivos Epstein, para arrastar os EUA para o conflito. “O Trump perdeu o controle do governo e fez algo que ele não poderia fazer: uma guerra sem planejamento no Oriente Médio, para a qual ele não tinha consenso na cúpula do governo dele. A cúpula imediata não queria, mas eles foram arrastados pelos não conservadores numa aliança com Netanyahu.”
Albuquerque explica por que o Oriente Médio é o lugar mais perigoso do planeta para um conflito dessa magnitude. “O petróleo, além de ser a matriz energética do mundo, é também a base econômica. O dólar é o dólar porque ele compra petróleo. Entender como um país funciona hoje no planeta Terra é saber quanto petróleo ele consome por dia. É um cálculo diabólico, porque todo governante tem uma arma apontada para a cabeça: a necessidade de abastecer seu próprio país.”
“É o último lugar do planeta onde poderia haver um confronto dessa monta. E Israel basicamente está arrastando os Estados Unidos para algo do seu interesse. Os americanos acabaram fazendo porque acreditaram que teriam um benefício colateral: retirar as contas de petróleo da China, que é um grande comprador — um sexto do petróleo chinês vem do Irã”, destaca.
Sobre os ataques que atingiram a Assembleia dos 88 aiatolás que escolheriam o sucessor de Khamenei, Albuquerque vê um cenário gravíssimo. “Parece que o interesse é jogar o Irã no caos. Talvez o Trump ache que isso vai neutralizar o Irã, mas quem conhece o Oriente Médio sabe que, confirmadas essas mortes, isso vai jogar mais querosene na fogueira. A gente não sabe onde isso pode parar.”
Ele alerta que as potências mundiais podem ser arrastadas de um jeito fatal. “Não vejo como a China pode se manter neutra e pacífica. É um momento muito preocupante, muito aterrador. Acredito que podemos ter uma escalada na universalização desse conflito.”
Os efeitos econômicos já começam a aparecer. “A Europa foi atingida porque substituiu o gás da Rússia pelo gás do Catar, e isso está interrompido agora. Os efeitos vão ser sentidos na vida cotidiana de todos os seres humanos do planeta. Os brasileiros serão afetados com mais inflação. O Japão vai ficar sem reserva de petróleo até o final do ano.”
A falência do multilateralismo e o papel do Brasil
“As organizações que foram criadas no pós-guerra funcionaram quando serviram ao interesse dos EUA. Depois que os países do antigo terceiro mundo passaram a pressionar para que a ONU realmente funcionasse como uma assembleia mundial, ela vem sendo enfraquecida”, analisa.
Ele lembra que os Estados Unidos também enfraqueceram sua própria estrutura constitucional para promover guerras. “Desde o final da Segunda Guerra, as guerras americanas têm sido decididas unilateralmente pelo presidente. O Congresso americano passou leis esvaziando os modelos que a Constituição lhe obrigava a ter. Os EUA promovem ações militares fora do seu território como se fossem uma polícia internacional.”
Sobre o Brasil, Albuquerque é pessimista quanto à eficácia da diplomacia. “A diplomacia do Brasil já tentou dialogar em relação à Ucrânia, já tentou dialogar em relação à Palestina. Mas acho que não vai nos levar muito longe no fim dessa loucura.”
Para o analista, a única coisa que pode conter esse tipo de ação não é a diplomacia, mas uma ameaça clara de resposta militar. “Eu não acho que a humanidade tenha a capacidade de elaborar mecanismos pacíficos e diplomáticos por conta própria. Só um contra-balance militar, com todos os riscos que isso implica, pode evitar o pior.”
Albuquerque conclui com uma reflexão sobre a decadência política do Ocidente. “Os EUA saíram do nível de presidentes como Truman, Eisenhower, Kennedy para um nível que é abaixo do século 19. É uma piora da política estadunidense, uma piora da qualidade dos seus presidentes, uma piora da qualidade dos seus partidos. E isso é usado por um ator oportunista que é Israel, dominado hoje por uma extrema direita que projeta para fora o caos que está dentro da própria sociedade israelense.”
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