Resumo objetivo:
O presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu publicamente os ataques ao Irã como uma "guerra", contradizendo o esforço de republicanos no Congresso para caracterizar a ação como uma "operação" ou "missão" limitada. Essa divergência de narrativas reflete tanto a impopularidade política de um conflito aberto quanto questões legais sobre a autoridade para iniciar hostilidades, já que a Constituição atribui ao Congresso o poder de declarar guerra. Enquanto republicanos adotam definições restritas para evitar a necessidade de autorização legislativa, democratas alertam que as declarações belicosas do governo indicam uma escalada real do conflito.
Principais tópicos abordados:
1. A contradição entre a retórica belicosa do governo Trump e a tentativa de republicanos no Congresso de evitar o termo "guerra".
2. O debate constitucional sobre a autoridade para iniciar hostilidades (presidente versus Congresso).
3. A impopularidade política de guerras prolongadas e os esforços para minimizar a percepção do conflito.
4. A divergência entre democratas e republicanos quanto à natureza e escalada das operações militares.
Ao dar uma breve atualização a jornalistas sobre a intensificação dos ataques contra o Irã nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse: "Estamos indo muito bem na frente de batalha da guerra".
A declaração complicou as coisas para os republicanos no Congresso, que passaram os últimos dias se esforçando para descrever o conflito como uma "grande operação de combate", uma "missão", "hostilidades" ou qualquer coisa que não fosse "guerra".
"Eles declararam guerra contra nós", disse o presidente da Câmara, Mike Johnson, ao repetir a justificativa do governo para a ofensiva. Ainda assim, acrescentou rapidamente, não havia, de fato, nenhuma guerra. "Não estamos em guerra agora", afirmou na quarta-feira (4). "Estamos há quatro dias em uma missão muito especÃfica e clara âuma operação."
As manobras verbais refletem a polÃtica complexa de uma guerra impopular, especialmente para um partido que há muito condena as "guerras intermináveis" em solo estrangeiro. Eles também ressaltam as questões legais e constitucionais levantadas pela decisão de Trump de iniciar uma ofensiva contra o Irã sem a aprovação do Congresso.
De acordo com a Constituição, somente o Congresso pode declarar guerra. Mas a maioria dos republicanos adotou a posição de que cabe somente ao presidente âe não ao Poder Legislativoâ decidir se deve ou não enviar forças americanas para uma missão militar cujos objetivos, alcance e duração permanecem uma grande incógnita.
"Não é uma guerra", disparou o deputado republicano Randy Fine ao se dirigir ao plenário da Câmara na quarta. "A guerra só é declarada oficialmente pelo Congresso, e nós não a declaramos."
Enquanto o Senado se preparava para votar se Trump precisava da aprovação do Congresso para a missão, muitos republicanos adotaram uma definição extremamente restrita do que constituiria uma guerra. Argumentaram que, pelo menos até o momento, o que estava acontecendo no Oriente Médio não se enquadrava nessa definição.
"Escutem", disse o senador republicano Josh Hawley, "se eu for enviar tropas terrestres para o combate, isso constitui guerra no sentido constitucional e exigirá algum tipo de autorização." Ele votou contra a medida que concedia poderes de guerra, garantindo que o Congresso não teria poder de decisão por enquanto.
O deputado republicano Ken Calvert disse que não se tratava tanto de uma questão de tropas em campo, mas sim de prazos. "Já se passaram cerca de 72 horas", disse ele. "Eu diria que já é uma operação."
"Isto é guerra, e estamos eliminando a ameaça", disse o senador republicano Markwayne Mullin, na terça (3), ecoando a linguagem belicosa de funcionários de alto escalão do governo nos últimos dias. Mas ele rapidamente recuou ao ser questionado por jornalistas no subsolo do Capitólio.
"Não declaramos guerra", disse. "Eles chamaram de guerra. Eu estava dizendo que eles declararam guerra contra nós, mas guerra é algo terrÃvel." Ao ser lembrado de que havia usado a palavra, Mullin respondeu: "Foi um lapso de linguagem".
Trump, por sua vez, descreveu a operação militar como uma guerra diversas vezes. Em seus primeiros comentários após lançar um ataque ao Irã, o presidente disse em um vÃdeo gravado que a missão poderia resultar em baixas americanas, como "frequentemente acontece em guerras".
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, prometeu na quarta uma escalada que soou como guerra para todos os democratas que o ouviam, ao afirmar que os EUA estavam "apenas começando" e prometer lançar "morte e destruição do céu, o dia todo".
O senador democrata Chuck Schumer, lÃder da minoria, chamou a atenção de seus colegas republicanos para as declarações de Hegseth. "Para quem acha que não estamos em guerra, ouça a entrevista coletiva de Hegseth", disse ele no plenário do Senado. "O que ele está dizendo em alto e bom som é o seguinte: estamos em guerra, e este governo está sinalizando uma escalada ainda maior pela frente."
Mas, para os parlamentares republicanos chamarem isso de guerra, teriam que admitir que o presidente a iniciou sem autorização do Congresso.
O conflito já resultou na morte de pelo menos seis militares americanos. E o governo continua oferecendo explicações variadas e contraditórias para o ataque ao Irã, levantando questões sobre a legalidade que são mais fáceis de serem resolvidas pelos parlamentares se eles não reconhecerem que se trata de uma guerra.
A ação militar é profundamente impopular, com cerca de três quintos dos americanos desaprovando-a, segundo pesquisas recentes.
Sem mencionar o fato de que Trump se candidatou e foi eleito com um discurso contrário ao envolvimento em guerras, e muitos de seus apoiadores âos eleitores de seus aliados republicanos no Congressoâ estão descontentes com esse rumo dos acontecimentos. Minimizar a dimensão do ataque por meio da linguagem utilizada pode ajudar a atenuar parte dessa reação negativa.