Resumo objetivo:
A Rússia retornará com um pavilhão nacional na Bienal de Veneza deste ano, após sua ausência desde a invasão da Ucrânia em 2022. As autoridades russas apresentam a participação como um sinal de que a cultura do país não está isolada, enquanto a curadoria ucraniana na bienal vê o ato como um uso da arte como "arma na guerra de informação". O retorno cultural ocorre em um contexto mais amplo de esforços da Rússia para reintegração em eventos globais, incluindo o esporte.
Principais tópicos abordados:
1. O retorno da Rússia à Bienal de Veneza após anos de ausência.
2. A interpretação contrastante do fato: como fim do isolamento cultural (visão russa) e como instrumento de guerra de informação (visão ucraniana).
3. O contexto mais amplo da reinserção progressiva da Rússia em eventos culturais e esportivos internacionais.
A Rússia terá um pavilhão na Bienal de Veneza deste ano, o evento de arte mais importante do mundo âo mais recente sinal da vontade do paÃs de acabar com seu status de pária na vida cultural e esportiva global em meio à guerra na Ucrânia.
Um comunicado de imprensa divulgado pelos organizadores da bienal nesta quarta-feira incluiu a Rússia entre os paÃses participantes do evento deste ano. O paÃs apresentará uma exposição chamada "A Ãrvore Está Enraizada no Céu", envolvendo pelo menos 38 artistas e músicos, de acordo com o comunicado.
A equipe russa da bienal não respondeu a um pedido de entrevista, mas Mikhail Shvydkoy, representante especial do presidente Vladimir Putin para cooperação cultural internacional, disse à ArtNews, na terça-feira, que a participação do paÃs na bienal era "mais uma prova de que a cultura russa não está isolada e que as tentativas de 'cancelá-la', empreendidas nos últimos quatro anos pelas elites polÃticas ocidentais, não tiveram sucesso".
Embora os organizadores da bienal nunca tenham banido a Rússia, o paÃs não participava desde sua invasão da Ucrânia em 2022. Pouco depois do inÃcio da guerra, os dois artistas russos que estavam programados para representar o paÃs naquela edição se retiraram, dizendo que "não há lugar para a arte quando civis estão morrendo sob fogo de mÃsseis, quando cidadãos da Ucrânia estão se escondendo em abrigos, quando manifestantes russos estão sendo silenciados".
A Rússia também não participou da bienal de 2024. Em vez disso, emprestou seu grande pavilhão, em uma localização privilegiada nos Jardins da Bienal, à BolÃvia. Durante o evento, que este ano acontece de 9 de maio a 22 de novembro, os paÃses realizam exposições em pavilhões nacionais ao lado de uma grande mostra coletiva com obras de arte escolhidas por um curador independente.
Um porta-voz da bienal recusou um pedido de entrevista. Mas o comunicado de imprensa disse que o evento "rejeita qualquer forma de exclusão ou censura da cultura e da arte".
O Ministério da Cultura da Ucrânia não respondeu imediatamente a um pedido de comentário na quinta-feira, mas Ksenia Malykh, uma das curadoras do pavilhão da Ucrânia na bienal deste ano, disse em uma mensagem de WhatsApp que o retorno da Rússia a Veneza era o mais recente exemplo de seu uso da arte "como arma na guerra de informação".
Malykh disse que a própria exposição da Ucrânia na bienal incluirá uma escultura de cervo que foi removida de um parque público no leste da Ucrânia para evitar danos causados pelos combates. A exposição é intitulada "Garantias de Segurança", acrescentou ela, em parte em referência aos apelos da Ucrânia por mais ajuda de outras nações na guerra.
A recente ausência da Rússia em Veneza havia contribuÃdo para uma sensação de isolamento cultural internacional do paÃs. Em 2022, o Eurovision Song Contest expulsou a Rússia, e museus europeus suspenderam a cooperação com parceiros em Moscou e São Petersburgo. Mas isso começou a mudar no último ano, com estrelas russas aparecendo no Oscar e cantando em grandes casas de ópera.
No ano passado, a Rússia também agiu para restaurar seu alcance internacional, revivendo um concurso de música da era da Guerra Fria para atuar como rival do Eurovision, com competidores representando paÃses como China, Ãndia e Ãfrica do Sul.
Entidades esportivas internacionais também começaram a abrir caminho para o retorno da Rússia. Atletas estão competindo sob a bandeira russa nas ParalimpÃadas de Inverno na Itália neste mês, e o Comitê OlÃmpico Internacional planeja realizar reuniões nos próximos meses que podem anunciar o retorno da Rússia à s OlimpÃadas após uma proibição de anos devido a doping sancionado pelo Estado.
Vários altos funcionários do Comitê OlÃmpico falaram abertamente sobre querer a Rússia de volta ao grupo, e Paulo Zampolli, representante especial do presidente Donald Trump para parcerias globais, disse ao The New York Times no mês passado: "Acho que o esporte é para todos".
A Fifa, entidade que governa o futebol mundial, também está pressionando pelo retorno da Rússia a eventos incluindo a Copa do Mundo, da qual o paÃs foi banido por causa da guerra na Ucrânia. Em fevereiro, Gianni Infantino, presidente da organização, disse a repórteres que era "contra proibições", que, segundo ele, "criam mais ódio".
A presença da Rússia na Bienal de Veneza â em uma exposição que Shvydkoy disse que contará com músicos, poetas e filósofos da Rússia e de outros paÃses, incluindo Argentina e Mali â provavelmente gerará controvérsia.
O Pussy Riot, coletivo de arte dissidente russo, disse em um comunicado de imprensa que Moscou deve "esperar resistência" em Veneza.
Este texto foi publicado originalmente aqui.