Resumo objetivo:
No último sábado (28), ataques coordenados por Israel com apoio dos EUA atingiram o Irã e resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo político e religioso do país. O artigo analisa a centralidade de Khamenei no sistema teocrático iraniano, onde ele controlava o poder judicial, a mídia estatal, as forças armadas e uma parcela significativa da economia. A notícia destaca que, apesar de sua morte, a estrutura estatal e burocrática do Irã é considerada mais consolidada do que a de outros países da região, o que pode testar a resiliência do modelo de soberania iraniano frente à crise.
Principais tópicos abordados:
1. O ataque a Israel e a morte do líder supremo Ali Khamenei.
2. A estrutura teocrática do Irã e o poder centralizador do líder supremo sobre política, religião, economia e forças armadas.
3. A importância do modelo iraniano como símbolo de resistência à influência ocidental e sua possível resiliência mesmo após a morte de Khamenei.
No último sábado (28), o cenário geopolítico global foi impactado pelo início de ataques planejados por Israel, com apoio dos Estados Unidos, contra o Irã. O conflito resultou no assassinato do aiatolá Ali Khamenei, figura que exercia o papel de líder político e autoridade máxima religiosa do país.
Para compreender a magnitude desse evento, é necessário analisar como a religião e a política se entrelaçam no Irã e o que Khamenei representava para a soberania iraniana.
Fé e resistência: o modelo teocrático
Desde a Revolução de 1979, o Irã consolidou-se como uma teocracia, sistema onde política e religião estão profundamente conectadas. Diferente de democracias ocidentais ou outras monarquias da região, a autoridade máxima não é o presidente, mas sim o líder supremo.
Essa estrutura representa uma exceção no Oriente Médio, onde muitos governos são considerados “países fantoches” dos EUA, que frequentemente demandam gestões menos alinhadas a radicalismos religiosos. Nesse contexto, a religião tornou-se uma ferramenta de política e resistência, reafirmando valores nacionais e morais contra a dominação ocidental
No Irã, assim como no Iraque e na Síria, a maioria da população pertence ao ramo do islamismo chamado de xiita. Eles têm uma forma de enxergar a religião muçulmana diferente do outro ramo principal, o sunita. Embora ambos compartilhem o Alcorão e os princípios básicos do Islã, eles se consideram praticamente de etnias distintas.
Essa diferença entre sunitas e xiitas vem sendo usada politicamente, aprofundando o ódio e as disputas entre os dois grupos.
O poder do líder supremo estende-se por todos os pilares da sociedade iraniana. Khamenei era responsável por nomear o chefe do Judiciário, o comando da mídia estatal e definir as diretrizes morais do país, incluindo leis de vestuário como o uso do hijab.
Seus decretos religiosos, conhecidos como fátuas, funcionam como leis nacionais, influenciando desde a diplomacia — como a proibição de armas nucleares — até sentenças judiciais.
No campo institucional, o líder controla o Conselho de Guardiões, órgão que filtra quem pode ou não concorrer à presidência. Além disso, ele comanda a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC), uma força militar de elite dedicada à proteção do sistema teocrático e à repressão de dissidências.
A influência do cargo também é econômica. Através das Bonyads — fundações de caridade que controlam grandes conglomerados industriais e imobiliários —, o Líder Supremo supervisiona entre 20% e 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Essas fundações respondem diretamente à liderança e operam de forma isenta de impostos e fiscalização governamental.
Para enfrentar as sanções internacionais, foi estabelecida a chamada “Economia da Resistência“, focada na autossuficiência e no controle dos recursos naturais como salvaguarda da soberania.
Sucessão e soberania
Aos 86 anos, a sucessão de Khamenei, que governava desde 1989, já era um processo previsto. No entanto, a solidez do Estado iraniano o diferencia de outros países da região que sofreram intervenções externas, como Iraque, Líbia e Síria.
Enquanto essas nações enfrentaram fragmentação e tornaram-se Estados falidos após a queda de seus líderes, o Irã possui uma burocracia e um “Estado profundo” mais consolidados.
O Irã permanece como um dos últimos países da região a resistir à lógica exploratória dos Estados Unidos, lutando pela manutenção de um sistema político independente do imperialismo.
O desfecho desta nova crise testará a resiliência de um modelo que, há décadas, serve como exemplo de soberania para nações que buscam trilhar caminhos livres de tutelas estrangeiras.