Resumo objetivo:
A crise climática afeta a população de forma desigual, impactando principalmente mulheres, crianças e grupos vulneráveis, que sofrem mais com desastres ambientais como enchentes e secas. Apesar de serem as mais prejudicadas, as mulheres permanecem sub-representadas nas decisões políticas climáticas globais, recebendo apenas uma fração mínima dos recursos. O artigo defende que justiça climática e justiça de gênero são indissociáveis, destacando a necessidade de incluir as vozes e lideranças femininas na construção de soluções.
Principais tópicos abordados:
1. Desigualdade nos impactos climáticos – Gênero, raça, classe e território determinam a severidade dos efeitos.
2. Maior vulnerabilidade de mulheres e crianças – Estatísticas mostram maior risco de morte e deslocamento em desastres.
3. Exclusão das mulheres das decisões climáticas – Sub-representação política e falta de recursos para projetos liderados por mulheres.
4. Conexão entre justiça climática e de gênero – A necessidade de abordar as desigualdades sociais para enfrentar a crise ambiental.
Embora o debate climático pareça distante, seus impactos são reais e frequentes, como enchentes, secas, ondas de calor e insegurança alimentar. No entanto, esses efeitos não atingem todos igualmente. Quando olhamos para a crise climática a partir das interseccionalidades, conceito que nos ajuda a compreender como diferentes desigualdades se cruzam, fica evidente que gênero, raça, classe e território moldam profundamente a forma como esses impactos são vividos.
Segundo a ONU, 80% das pessoas que precisam deixar suas casas por causa de desastres climáticos no mundo são mulheres e crianças. No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 atingiram 95% dos municípios, mas não dá para ignorar que os impactos foram mais duros para as mulheres. E não é só aqui: dados da Terceira Conferência Mundial da ONU sobre Redução de Riscos de Desastres mostram que mulheres e crianças têm 14 vezes mais chance de morrer em catástrofes naturais do que homens.
Mesmo sendo as mais impactadas pela crise climática, as mulheres permanecem à margem das decisões. A política climática global, ainda dominada por homens, ignora as realidades dos territórios, pois apenas 34% dos negociadores climáticos da ONU são mulheres, e menos de 3% dos recursos climáticos globais chegam a projetos liderados por mulheres. Tais medidas reforçam a contradição em que as principais afetadas são justamente as que menos participam da construção das soluções.
Mesmo ausentes nos espaços de debate e decisão, as mulheres são vanguardas em comunidades sub-representadas e vulneráveis, liderando a organização coletiva, da defesa dos territórios e na solução frente aos impactos ambientais.
Reconhecer esse protagonismo também significa reconhecer que justiça climática e justiça de gênero caminham juntas. Não é possível discutir o futuro do planeta ignorando as desigualdades que estruturam a sociedade.
No Rio Grande do Sul, essa reflexão ganha ainda mais urgência. Nos últimos anos, eventos climáticos extremos têm marcado o cotidiano do estado. Falar sobre o 8 de março, portanto, também é falar sobre as condições concretas de vida das mulheres gaúchas, sobre seu trabalho invisível, insegurança alimentar, calor extremo, desastres ambientais, violência doméstica e desigualdade.
Somos uma espécie recente na história da Terra, e ainda assim alteramos o clima do planeta. A crise que criamos exige respostas coletivas e coragem para enfrentar suas injustiças. É preciso lembrar: não haverá justiça para as mulheres em um planeta em colapso, nem justiça climática sem as mulheres.
* Sophia Maia é socioambientalista, estudante de ciência política, integrante do Instituto Movimenta, Eco Pelo Clima e Ser Ação.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.