Resumo objetivo: A notícia recupera a história não registrada das mulheres operárias da Mooca durante a Greve Geral de 1917 em São Paulo. Ela descreve suas duras condições de trabalho, sua liderança na paralisação das fábricas e sua atuação decisiva nos protestos e confrontos nas ruas. O texto enfatiza como essas mulheres, apesar de centrais no movimento, permanecem anônimas na história oficial.
Principais tópicos abordados:
1. As condições de trabalho exploratórias nas fábricas (jornadas exaustivas, trabalho infantil e noturno).
2. A organização e as reivindicações da greve de 1917, com destaque para o papel das mulheres.
3. A repressão violenta pela Força Pública e os confrontos urbanos.
4. O apagamento histórico das identidades e da liderança dessas mulheres operárias.
Povo em poema: Mulheres da Mooca
Piquetes de mulheres grevistas, na São Paulo de 1917. “Se houver pressão, fecho a fábrica!”. Na luta, que tomou forma de guerra civil, se fez a cultura operária. Que mulheres foram essas? Não há registro. A poeira do tempo guarda o nome delas
Publicado 06/03/2026 às 17:54
Que mulher foi essa?
Primeiro de maio de 1915, Praça da Sé, coração de São Paulo. Proletários sob chapéus gastos, homens e mulheres, bandeiras vermelhas como o sangue que pulsa nas veias cansadas. Uma mulher emerge na multidão, cabelos curtos, blusa branca, saia negra. Ela sobe num caixote e a voz corta o ar feito lâmina a reger a sinfonia operária.
Que mulher foi essa?
Só a fotografia, uma só. A mulher de perfil, não se vê o rosto, apenas o sonho. E a multidão a escutá-la.
Que mulher foi essa?
Não há registro.
Tecelãs
Inverno de 1917, Cotonifício Crespi, bairro da Mooca, São Paulo.
É noite, céu límpido, lua e estrelas iluminando mais que lâmpadas mortiças. Lá fora, o frio corta, dentro, o calor das caldeiras a mover teares ardendo como ventre de fera.
Após doze horas as mulheres ainda tecem, os homens nos fornos, as crianças na labuta. Há que trabalhar para viver. Fabricam uniformes para as tropas da Itália, a guerra na Europa, em São Paulo o trabalho sem fim.
Doze horas, por vezes mais, o pó sufocante gruda na pele, o calor escaldante arde nos olhos, o trabalho estafante corrói os ossos.
Na cidade do trabalho sem fim, as mulheres a enriquecerem o Delfim.
Greve
2 de junho de 1917 – rua da Mooca, 292, sede da União dos Operários em Fábricas de Tecidos. Pauta:
- 35% de aumento nos salários;
- proibição de trabalho infantil;
- abolição do trabalho noturno para mulheres e menores de dezoito anos;
- jornada de oito horas diárias;
- congelamento do preço dos alimentos;
- redução dos aluguéis.
Negociação e resposta do Conde de Crespi:
– Se houver pressão, fecho a fábrica!
Nenhuma concessão, sequer o fim do trabalho feminino e de menores à noite. As tecelãs param a fábrica.
Máquinas paradas. E nada.
Demissão de mulheres consideradas líderes. E nada.
Força Pública na Fábrica. E nada.
Fura-Greves. E nada.
Ou melhor, os crumiri foram expulsos sob vergonha.
As ruas da Mooca
15 de junho. Mulheres e crianças tomam as ruas da Mooca como rio que transborda. O povo acolhe, novas fábricas paradas, máquinas silenciam.
E o Avanti, jornal socialista, canta a pura e dura pedra da Catedral:
“Numerosos passantes aderem aos grevistas
e quando chegam à Praça da Sé a Força Pública
ataca mais uma vez. Os manifestantes correm
para a Igreja em construção, onde encontram
pedras e pedaços de paus e opõem forte
resistência. Cavalos caem, policiais ficam lesionados
e o conflito se estende pelas ruas. O centro da cidade
ficou totalmente convulsionado.”
A ordem foi atirar
9 de julho de 1917. São Paulo quase toda em greve.
Faltava uma fábrica a aderir, Mariângela, do Conde Matarazzo, recém agraciado pelo rei de Itália, o mais rico entre os ricos do Brasil. Cavalariços e soldados armados atacam a multidão. Estampidos e gritos, revides…
O céu cheira pólvora e um jovem espanhol, recém chegado ao Brasil, José Ineguez Martinez, 21 anos, falece entre ruído e silêncio.
O funeral pelas ruas do Brás. Milhares de operários acompanham o féretro. Condutores de bondes aderem à greve. Tudo parou.
Menos os sabres em punho. Cavalarianos sobem calçadas, espancam transeuntes e manifestantes. Terror e medo a correr por vielas.
Memórias
Escreveu Everardo Dias em suas memórias:
“Nos bairros fabris do Brás, Mooca, Barra Funda, Lapa,
sucederam-se tiroteios com grupos de populares;
em certas ruas já começaram a fazer barricadas
com pedras, madeiras velhas, carroças viradas
e a polícia não se atreve a passar por lá
porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros.”
É dever do historiador comparar as fontes. Nos ‘Fragmentos da História da Polícia de São Paulo’, o Tenente-Coronel Pedro Gagini, da Força Pública, anotou:
“Piquetes de mulheres grevistas,
reforçados por milhares de operários
percorrem os estabelecimentos fabris
concitando os companheiros a aderirem
ao movimento paredista.”
O poema em manifesto
E então
o poema brotou
como punhal na noite:
“Não vos presteis, soldados, a servir
de instrumento de opressão dos Matarazzo,
Crespi, Gamba. Hoffman … aos capitalistas
que levam a fome ao lar dos pobres […]
Soldados!
Os grevistas são vossos irmãos na miséria
e no sofrimento, os grevistas morrem de fome
ao passo que os patrões morrem de indigestão.
Soldados!
Recusai-vos ao papel de carrascos”
(Comitê de Defesa Proletária)
Cultura Operária
15 de julho de 1917, final da greve e 20% de aumento salarial. 70.000 operários haviam parado a cidade que mal ultrapassara 400.000 habitantes. A luta “tomou forma de Guerra Civil”, nas palavras do coronel da Força Pública.
Na luta se faz a Cultura Operária. Na greve de 1917 as mulheres fizeram a luta, foram à frente, mãos machucadas por fios, vozes cortantes, unidas. Lideraram a revolta na sombra das fábricas e pararam São Paulo.
A poeira do tempo guarda o nome delas
Que mulheres foram essas?
Não há registro.
Annunziatta, talvez, Nicoletta, Pierina, Donatella, Silvana, Mirella, Giovana, Vincenza, Filomena, Giuseppa, Patrizia, Elizabeta, Luigia…
A poeira do tempo guarda o nome delas.
E o preservado edifício
do antigo cotonifício
virou supermercado.
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