Resumo objetivo:
Um evento na Associação Riograndense de Imprensa (RS) marcou os 50 anos do golpe militar argentino de 1976, destacando a importância da memória contra o negacionismo. Participantes alertaram para estratégias de ocultamento dos crimes da ditadura, que incluiu o assassinato de religiosos como no massacre de San Patrício. A data de 24 de março simboliza a luta por verdade e justiça pelos 30 mil desaparecidos, vítimas da ditadura mais violenta da América Latina.
Principais tópicos abordados:
1. Comemoração dos 50 anos do golpe de 1976 e a defesa da memória como antídoto ao negacionismo.
2. Crimes da ditadura argentina, incluindo desaparecimentos, assassinatos (como o massacre de San Patrício) e a Operação Condor.
3. Estratégias de distorção histórica pela extrema direita, especialmente nas redes sociais.
4. Homenagens e lutas por justiça, como a beatificação de religiosos e a manutenção da busca por verdade.
“A verdade é produto da memória”, disse o jornalista argentino Gustavo Veiga no painel realizado na segunda-feira (02) na sede Associação Riograndense de Imprensa (ARI), em Porto Alegre, no âmbito das manifestações pelos 50 anos da ditadura na Argentina. No dia 24 de março de 1976 um golpe militar derrubou o governo democrático da presidenta María Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita.
A afirmação de Veiga é um apelo para que nunca se esqueça o que aconteceu na Argentina, onde 30 mil pessoas desapareceram sob os horrores da ditadura. Mesmo assim, “existe uma tendência negacionista forjada pela extrema direita para não reconhecer o que aconteceu”, explica o jornalista.
O ato realizado na ARI contou com a parceria do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) e teve também a participação de Alfredo Culleton, argentino, professor visitante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), e mediação de Jair Krischke, fundador do MJDH.
Culleton destacou a diferença entre “esquecimento”, ato involuntário, e “ocultamento”, que é uma estratégia de esconder e mascarar a realidade. Ele destacou que isso acontece tanto na Argentina como no Brasil, onde a extrema direita se vale principalmente das redes sociais para distorcer informações, atingindo prioritariamente os mais jovens, que não viveram a ditadura e, por desconhecer seus horrores, acreditam que exista um exagero nos fatos.
O massacre de San Patrício
Porque não existem exageros e sim memória viva, o professor falou sobre o assassinato de três padres e dois seminaristas pelas forças clandestinas da ditadura no dia 4 de junho de 1976, em Buenos Aires. Os religiosos, que protegiam estudantes e protestavam contra a ditadura, foram fuzilados com mais de 90 tiros na casa paroquial de San Patrício.
Os religiosos assassinados eram identificados com o processo de reformas na Igreja Católica, impulsionado pelo Concílio Vaticano II e pela Conferência de Medellín. Uma semana antes do massacre, eles debateram sobre a posição que deveriam adotar diante da ditadura. Alguns sugeriram prudência e paciência, mas o padre Alfredo José Kelly defendeu que eles não deveriam se calar e que o compromisso da Igreja era com aqueles que estavam sofrendo.
Em junho de 2005, Jorge Mário Bergoglio (1937-2025), na época arcebispo de Buenos Aires, e, mais tarde, Papa Francisco, autorizou a abertura da causa de beatificação dos religiosos assassinados. Em 2008, foi lançado um documentário sobre o crime bárbaro, dirigido por Juan Pablo Young e Pablo Zubizarreta. Estima-se que cerca de 100 religiosos tenham sido assassinados ou desaparecidos durante a ditadura argentina, não apenas padres, mas também rabinos e pastores.
A passagem dos 50 anos da ditadura na Argentina, dia 24 de março, será marcada por diversas manifestações e um grande ato na Praça do Obelisco, em Buenos Aires, quando será desfraldada uma bandeira com os nomes dos 30 mil desaparecidos bordados a mão por mães, avós, familiares e amigos das vítimas. “As datas são marcos importantes e o dia 24 de março significa memória, verdade e justiça”, destaca o jornalista Veiga.
Ditadura mais violenta da América Latina
Em 24 de março de 1976, a Junta Militar, comandada pelo então tenente-general do Exército, Jorge Rafael Videla, e com apoio do almirante da Marinha, Emilio Eduardo Massera e do brigadeiro-general da Força Aérea, Orlando Ramón Agosti, tomou o poder após prender a presidente María Estela Martínez de Perón. Foi o início da ditadura militar mais violenta da história da América Latina.
Estima-se que cerca de 30 mil pessoas tenham sido torturadas, exiladas ou mortas pelo terrorismo de Estado. Alinhados na perseguição e assassinato de opositores, o regime de Videla também tornou-se o principal parceiro do Brasil na chamada Operação Condor. O trabalho de identificação das vítimas permanece até hoje.
Os militares se mantiveram no poder até 1983 e, dois anos depois, em 1985, já sob um governo civil, pela primeira vez na América Latina, militares foram levados a julgamento e condenados por crimes contra a humanidade. O general Jorge Rafael Videla e outro membro da Junta, Emilio Eduardo Massera, foram condenados à prisão perpétua.
Painelistas
Gustavo Veiga nasceu em Buenos Aires, é jornalista. Estudou no Círculo de la Prensa, formou-se em Economia Social e realizou cursos de cinema e orientação. Escreve no diário Página 12 e no portal Derribando Muros. É professor da Universidade de Buenos Aires (UBA) e da Universidade Nacional de La Plata (UNLP). Em dezembro de 2024, ele recebeu o primeiro Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo no Brasil pelo trabalho “El asado de Olivos y las sobras de los diputados” sobre o governo de Javier Milei.
Alfredo Culleton nasceu em Buenos Aires, é doutor em Filosofia, professor visitante no Programa de Pós-Graduação de Filosofia da Ufrgs e pesquisador do CNPq. Atua na área de Filosofia com ênfase em Filosofia e Direito. É psicanalista, membro da Escola de Estudos Psicanalíticos e Psicanálise.
Para saber mais sobre o massacre de San Patrício:
https://www.ihu.unisinos.br/categorias/620166-argentina-memoria-do-massacre-de-san-patricio