A notícia aborda o aumento do abandono paterno no Rio de Janeiro, que cresceu 25% em cinco anos segundo o Mapa da Mulher Carioca. O problema é destacado não apenas como ausência financeira, mas principalmente como falta de apoio emocional e presença nas responsabilidades do dia a dia, sobrecarregando as mães. O artigo defende que a paternidade é um dever legal e afetivo, exigindo políticas públicas e um debate social para enfrentar essa questão que impacta mães e crianças.
“Quando eu engravidei, um dos meus maiores medos e receios era que meu filho não tivesse pai, não tivesse a presença paterna. Isso me incomodava muito, até porque eu tive uma gestação solitária, sem nenhum apoio, seja ele moral ou financeira, do pai biológico”, lamenta uma mãe que teve o abandono paterno durante a gestação.
“Eu sei o quanto o meu abandono paterno refletiu na minha gestação, o quanto isso me trouxe, e a ainda traz, inseguranças em relação à criação do meu filho. Sempre soube que não ia conseguir fazer o papel de pai. Algumas mulheres entram nessa, de querer suprir, mas desde sempre deixei isso claro, e se tornou uma situação que mexe comigo até hoje, a falta da estrutura familiar, de me sentir sozinha e, no meu caso, o que me pesa mais não é o financeiro, é o apoio psicológico e emocional mesmo”, completou a mãe.
Quantas Martas, Cecílias, Renatas e Patrícias já fizeram exatamente esse relato? Ele é mais comum do que se imagina e esse é o meu relato, da Alessandra Costa, mãe do Dayo, que passou por um episódio de abandono paterno, situação que vem aumentando a cada ano no Rio, e possivelmente é um retrato do Brasil. A 5ª edição do Mapa da Mulher Carioca, realizado pela Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres do Rio de Janeiro, e publicado nesta terça-feira (03), escancara uma realidade que atravessa gerações: em cinco anos, os casos de abandono paterno cresceram 25% na cidade do Rio de Janeiro.
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Os números confirmam o que tantas mulheres já vivem em silêncio. Não se trata apenas de ausência financeira. É a ausência na consulta médica, na reunião da escola, na madrugada febril, na decisão difícil. É o silêncio onde deveria haver parceria. É a sobrecarga emocional que transforma mulheres em estruturas inteiras: base, teto e parede.
É o silêncio onde deveria haver parceria.
O abandono paterno não começa no registro civil em branco. Ele começa na gestação solitária, na mensagem não respondida, na responsabilidade negada. E seus efeitos não terminam na infância. Eles ecoam na autoestima da criança, na forma como ela entende afeto, compromisso e pertencimento. Ecoam também na mãe, que carrega o peso de ser suficiente em dobro, mesmo sabendo que ninguém deveria criar um filho sozinha.
Falar sobre isso não é promover guerra entre homens e mulheres. É cobrar responsabilidade. É reconhecer que paternidade não é favor, é dever legal, moral e afetivo. É também exigir políticas públicas que amparem essas mães e garantam às crianças o direito à convivência e ao cuidado.
Muito mais do que apenas registrar, é fundamental que o pai assuma o filho em sua integralidade, exercendo de forma concreta e responsável o seu papel paterno. Ter o nome no registro é importante, mas é imprescindível que a criança e a mãe saibam que o genitor está verdadeiramente presente, oferecendo apoio, cuidado e compromisso sempre que precisarem.
O Mapa não traz apenas estatísticas, ele traz rostos, histórias, noites sem dormir e mulheres que seguem, apesar de tudo. Que o dado publicado nesta terça-feira não seja só mais um número em um relatório. Que ele seja ponto de partida para um debate sério, para ações concretas e para uma cidade que entenda que abandono paterno não é um problema privado, é uma questão social.
Porque quando um pai vai embora, não é só a mãe que fica. Fica uma criança tentando entender por que amor, às vezes, falha.
*Alessandra Costa é jornalista e atua na área de assessoria de imprensa nos segmentos da cultura, terceiro setor e política
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.