Resumo objetivo:
Completam-se dez anos do assassinato da ativista ambiental Berta Cáceres, crime organizado com participação de uma empresa hidrelétrica e setores estatais. Sua filha, Bertha Zúñiga Cáceres, lidera a luta por justiça integral e mantém o legado de defesa dos territórios indígenas, destacando que a impunidade e a violência contra defensores persistem em Honduras.
Principais tópicos abordados: 1. Comemoração e legado: Os dez anos do assassinato de Berta Cáceres e a continuidade de sua luta pela filha, Bertha Zúñiga Cáceres. 2. Busca por justiça: Avanços parciais (oito condenados, incluindo um executivo) e a demanda por responsabilização dos autores intelectuais e desmantelamento das estruturas criminosas. 3. Contexto do crime: Investigação que aponta o assassinato como uma operação organizada financiada com desvios de recursos de bancos internacionais para o projeto hidrelétrico Agua Zarca. 4. Situação atual: Persistência da violência e ameaças contra defensores de territórios em Honduras, com a necessidade de garantias de não repetição.
Nesta segunda-feira (2), o assassinato de Berta Cáceres completa dez anos. Além de protagonizar a batalha por justiça no caso da morte da mãe, a filha, Bertha Zúñiga Cáceres, mantém vivo o legado da luta popular em Honduras. Coordenadora-geral do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (Copinh) desde 2017, ela aposta na organização comunitária e na esperança como antídotos frente à violência e à impunidade que seguem rondando o povo Lenca. “Crimes tentam semear o medo, mas as pessoas têm decisão de defender seus territórios, defender os rios”, diz Bertha em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato. Ela conversou com a reportagem durante o 4º Encontro Internacional de Atingidos por Barragens e Mudanças Climáticas, que reuniu comunidades de todo o mundo impactadas por megaprojetos, em Belém (Pará), durante o período da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Hondurenha, liderança Lenca, feminista e ambientalista, Berta Cáceres, a mãe, dedicou a vida à defesa dos bens comuns e dos direitos dos povos indígenas. Denunciou o modelo de desenvolvimento capitalista que devasta florestas, expulsa comunidades e mata quem sonha com justiça. Em 2015, recebeu o Prêmio Goldman, uma espécie de “Nobel do Meio Ambiente”, e, em 2 de março de 2016, foi brutalmente assassinada em sua casa, vítima de um feminicídio com cumplicidade de setores empresariais e militares. A partir daí, a filha, Bertha Zúñiga Cáceres, que “cresceu na luta do Copinh” e participou de processos de formação, assume a coordenação-geral da organização fundada por sua mãe e conduz a defesa dos rios e territórios, e a busca por justiça integral, sem ceder ao medo que os crimes tentam semear. Nesse período, a luta por justiça pelo assassinato de Berta avançou, mas está longe de terminar. Oito pessoas já foram condenadas pelo crime, mas as sentenças precisam ser confirmadas pela Corte Suprema de Honduras. Em 2022, a Justiça condenou David Castillo, ex-gerente da empresa Desarrollos Energéticos (Desa) e responsável pelo projeto hidrelétrico de Agua Zarca, a 22 anos e seis meses de prisão. Em 2018, outras sete pessoas receberam penas de 30 a 50 anos de prisão pelo crime. No dia 12 de janeiro de 2026, o Grupo Interdisciplinário de Especialistas Independentes (Giei) instalado em Honduras apresentou o informe final da investigação sobre o assassinato de Berta Cáceres. O documento descreve o crime como uma operação organizada, com participação de sicários, intermediários com formação militar e pessoas ligadas à empresa Desarrollos Energéticos (Desa), além de apontar redes de apoio, tolerância e omissão que, segundo o grupo, atravessam setores do Estado hondurenho. Entre os achados centrais, o Giei afirma que recursos de bancos internacionais de desenvolvimento destinados ao projeto hidrelétrico Agua Zarca foram desviados e usados para financiar atividades ilícitas relacionadas à perseguição contra a liderança Lenca, até chegar ao assassinato. O relatório cita repasses vinculados ao Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) e ao banco holandês FMO e afirma que, do total de US$ 18,5 mi executados no projeto, cerca de 67% (US$ 12,5 milhões) teria sido alvo de desvios e ou manejos irregulares. Para Bertha, no entanto, justiça integral só virá quando os autores intelectuais forem de fato responsabilizados e as estruturas criminosas bancadas por empresas forem desmanteladas: “Enquanto essas estruturas não forem desmanteladas, dificilmente teremos garantias de não repetição”. “Honduras segue destacando-se como um dos países mais violentos do mundo para defensores e defensoras dos territórios”, continua Bertha, que relata a persistência das ameaças e, inclusive, de assassinatos na região. “Embora tenhamos impulsionado processos de busca de justiça e conseguido encarcerar oito homens, incluindo o presidente da empresa construtora do projeto elétrico, as estruturas criminais, que se disfarçam como empresas legais, mas atuam de maneira violenta, seguem intactas.” Na conversa, Bertha reafirma a centralidade da cosmovisão Lenca e das alternativas de vida que respeitam a Mãe Terra. O rio Gualcarque segue livre e o projeto hidrelétrico Agua Zarca está paralisado, fruto de anos de resistência popular. Mas o embate é também de projeto de sociedade. “O capitalismo é um modelo contrário à vida, aos direitos das mulheres e aos direitos dos povos e, portanto, não tem cabimento”, diz, ao defender que a transição justa passa por colocar os direitos dos povos no centro, recusar falsas soluções de mercado e fortalecer a autonomia comunitária. Nesta entrevista, Bertha detalha os próximos passos da luta por justiça, as salvaguardas necessárias para impedir novos crimes em territórios indígenas, e das homenagens do Copinh aos dez anos da “semeadura” de Berta, um chamado a transformar luto em organização e esperança concreta, no marco dos dez anos de sua morte. Confira a entrevista completa: Brasil de Fato: Conte um pouco da sua trajetória e como você passou a ser a liderança do seu povo? Bertha Zúñiga Cáceres: Meu nome é Bertha Zúñiga Cáceres. Sou coordenadora-geral do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (Copinh), uma organização que aglutina comunidades do povo Lenca no sudoeste de Honduras. Lutamos em defesa da terra, pelo reconhecimento da propriedade comunitária das terras do povo Lenca, em defesa dos rios e pelos direitos integrais das comunidades da nossa região. Sou coordenadora desde o ano de 2017, um ano depois de a minha mãe ter sido assassinada por sua luta. Eu cresci na luta do Copinh mais como espectadora, porque acompanhava minha mãe, meu pai e meus companheiros. Também estive em processos de formação, mas foi só em 2017 que assumi um cargo formalmente dentro do Copinh. Como é a luta do seu povo hoje em dia? Nós temos grandes desafios, porque, digamos, os rios do nosso território foram concedidos para a construção de projetos hidrelétricos e outros projetos distintos que não têm a ver estritamente com os rios, mas, sim, com o nosso território. Seguem estando concedidos desde o marco do golpe de Estado que vivemos em Honduras no ano de 2009 e, até hoje, não encontramos uma maneira de reverter essas decisões que se deram no marco de um golpe, tomadas em violação aos direitos de consulta. Também têm sido momentos bem complexos porque já são nove anos de luta por justiça para nossa companheira Berta Cáceres, minha mãe, e onde encontramos muitas resistências – não só do sistema judicial em Honduras, mas também de um sistema de violência, de impunidade, de criminalidade que não tem fronteiras. Então, seguimos defendendo nossos direitos, lutando para reivindicá-los, mas também para materializar os projetos de vida alternativa para o povo Lenca, já que sabemos que não basta somente resistir, e sim ver o resultado do nosso processo de resistência, que já tem mais de 32 anos. E quão próximos estão de materializar esses modos de vida alternativos frente a tantos ataques e ameaças, dos interesses de multinacionais, e também de perseguição política? Eu poderia dizer que avançamos de maneira significativa durante esses 32 anos, já que são mais de 65 comunidades da região que são as mais ativas no processo organizativo do Copinh, embora, com outras comunidades de maneira mais periférica, também se faça trabalho organizativo. Reivindicamos a cosmovisão dos povos indígenas como um modelo alternativo de vida, mas trabalhamos outros aspectos onde podemos ter debilidades. Por exemplo: somos comunidades produtoras de alimentos para todo o nosso país. Então, como produzir de uma maneira que também respeite a Mãe Terra? Existe um modelo agroindustrial muito forte e interiorizado também nos nossos territórios. Trabalhamos temas de bioconstrução, de ecotecnologias, também com companheiros no sul do México, para aprender e continuar um pouco o que vinha sendo feito. Em março de 2016, quando minha mãe foi assassinada, estávamos no meio de um encontro de energias alternativas e comunitárias. E isso ficou um pouco no ar, produto do crime. Retomamos essa discussão para construir também projetos que melhorem a qualidade de vida das comunidades, sem necessidade de ferir nossos direitos, sem necessidade de ferir nossa dignidade. Então, acho que temos muito a fazer, mas também já há um avanço, uma consciência, uma formação, um debate durante muitos anos que nos permitiu ter certas clarezas e a possibilidade de muitos espaços internacionais. E como está a situação do rio Gualcarque, que estava ameaçado pela construção de uma série de barragens para projetos hidrelétricos? O projeto hidrelétrico Agua Zarca, sobre o rio Gualcarque, é um dos 51 projetos que foram concedidos no nosso território durante o golpe de Estado. E este projeto está detido. Depois do assassinato da minha mãe, cerca de dois meses depois, o gerente ambiental e social da empresa foi detido pelo Ministério Público, graças à pressão do Copinh, das organizações em Honduras e de toda a pressão internacional sobre o caso da minha mãe – que foi muito forte. E também dois meses depois o projeto se deteve, apesar de todo um interesse do capital em seguir materializando-o. Hoje está detido e grande parte do projeto foi desmantelada. No entanto, é uma concessão de 50 anos e, embora hoje a institucionalidade de Honduras, no marco das eleições que tivemos há mais de três anos, quase quatro, tenha tomado a decisão de tentar reverter o projeto, são contratos leoninos que têm muitas armadilhas judiciais e há todo um debate sobre como freá-lo sem ter que ir a um sistema de arbitragem internacional onde as empresas saem ganhando. A luta continua, mas, por enquanto, pode-se dizer que o rio Gualcarque segue estando livre. Nenhuma das 51 represas previstas foi construída? Bom, das que eu conheço, foi feita uma, e é uma experiência muito ruim. As comunidades estavam resistindo, mas depois, convenceram-nas, e hoje estão se organizando porque têm muitos problemas de acesso à água, porque desviaram a água. Então há um conflito intercomunitário por causa do acesso à água e do efeito da represa. De alguma maneira, embora essa represa tenha sido construída, também é um processo de ensinamento das consequências que os projetos podem ter quando são feitos sem responder às necessidades das comunidades e sem garantir os direitos de quem está em torno do rio. Além das ameaças do capital, como vocês estão sendo impactados pelas mudanças climáticas? Tiveram experiências extremas? Nós líamos, há alguns anos, que a América Central é uma das regiões mais vulneráveis do mundo às mudanças climáticas. Eu vivo entre muito bosque, muita montanha, com muita água, então eu não acreditava que fôssemos tão vulneráveis. E, bom, durante os últimos anos, já experimentamos essas consequências da mudança climática, com, por exemplo, tormentas muito intensas que produziram deslizamentos e impactos nas nossas comunidades, ou períodos de seca que afetam os cultivos. Nós somos produtores dos grãos básicos que alimentam todo o país. Nossa produção foi muito afetada, e também em todo o país. Tivemos também tormentas tropicais que foram muito desastrosas sem chegar a categoria de furacão. Então, se viermos a ver um furacão, vai ser muito mais forte. Bom, são parte dos danos. Já há conflitos por temas de água em lugares onde sempre existiu muitíssima água. Hoje temos deficiências, verdade? Nem todas as famílias acessam a água como antes e assim por diante. E isso, bom, é parte dos impactos que sofremos. E do ponto de vista da violência política, que vitimou sua mãe, o que ocorreu nos anos seguintes? Você também foi ameaçada? Como segue a violência política em Honduras? Lamentavelmente, Honduras segue destacando-se como um dos países mais violentos do mundo para defensores e defensoras dos territórios. Nós, com muito esforço, impulsionamos processos de busca por justiça. Por exemplo, no caso da minha mãe, embora faltem os autores intelectuais do seu crime, conseguimos encarcerar oito homens, incluindo o presidente da empresa construtora do projeto elétrico. Porém, as estruturas criminais – que são estruturas empresariais, se disfarçam como empresas tranquilas, legais, mas atuam de maneira violenta e têm estruturas de sicários, grupos que impulsionam a violência – seguem intactas, e esse é um problema muito grande. A impunidade no nosso país resultou em algo muito lamentável: há mais de um ano, um companheiro da zona norte de Honduras, na região do Baixo Aguán – que tem sido uma zona muito famosa pelo conflito agrário —, que estava em luta contra um projeto de mineração, foi assassinado, ainda sendo beneficiário de medidas protetivas, em um caso muito parecido com o da minha mãe, lamentavelmente. Nós acreditamos que, enquanto essas estruturas criminais não forem desmanteladas, dificilmente vamos conseguir deter ou gerar garantias de não repetição dos crimes. No entanto, há muita determinação e vontade na defesa dos rios e, apesar desses crimes que tentam semear o temor e o medo, as pessoas têm a convicção de defender seus territórios, defender os rios. Apesar de toda essa violência, isso também é muito valioso em um país de tanto temor. Nos últimos 10, 15, 20 anos, em todo o mundo há uma corrida do capital em crise sobre os bens da natureza e, bom, antes dos bens da natureza têm as pessoas.Vocês são vítimas disso em Honduras por serem defensores da natureza. O que você acha que une todas essas pessoas ao redor do mundo em luta contra megaprojetos? Eu creio que nos unem, em grande parte, os impactos que distintos povos de todo o mundo sofremos por causa de um modelo energético, mas que também está dentro de um modelo econômico e social que gera muita desigualdade e coloca muita pressão sobre as comunidades que, ironicamente, somos as que mais temos cuidado da natureza. Em Honduras, 80% das florestas seguem estando em territórios dos povos indígenas, e isso seguramente acontece em todo o mundo. Porém, esse modelo econômico e social está nos dizendo, e impondo essa pressão, com projetos supostamente verdes, com essas vendas de créditos de carbono, que são falsas soluções e que não colocam a responsabilidade sobre quem realmente está contaminando o planeta e sobre quem, de maneira violenta e muito perigosa, está explorando os bens comuns, o subsolo, as matérias-primas, toda a riqueza natural que temos em nossos territórios. Também creio que nos une a esperança, porque, apesar de tudo, temos esperança de que vamos encontrar uma maneira de viver com dignidade, com tranquilidade, com paz, com harmonia. Acho que isso também nos faz unir; se não tivéssemos esperança, o que estaríamos fazendo aqui? É muito bonito podermos nos encontrar com lugares tão distantes, que não conhecemos, e escutar histórias que quase são histórias calcadas das nossas — e ver também que há uma resistência muito importante e que, em distintos lugares, ninguém ficou de braços cruzados. Estamos aqui reunidos num momento em que há uma COP que ocorre a poucos quilômetros daqui, em Belém. Se você pudesse falar lá, dizer algo aos negociadores do clima, aos líderes dos Estados que estiveram reunidos, o que diria? Eu diria que as populações atingidas sabemos que essas decisões não estão fundamentadas nas necessidades reais. Nem das que temos nós, os povos, nem das que têm natureza. Portanto, é urgente também escutar a população de verdade, não numa COP de empresas, nem numa COP superficial. É preciso atender as questões que, profundamente, são a raiz do problema. Já escutamos, de verdade, em distintos desses espaços, que há compromissos que nem sequer todos os países assumem. E são os países que mais contaminam. Creio que também isso está sendo muito evidente para todas as pessoas no mundo: a falsidade que esses espaços significam e que não existe um compromisso real em atender um tema tão urgente para a humanidade, principalmente. Portanto, nós queremos pressionar pelos direitos de nós, as pessoas atingidas. Queremos pressionar também outras maneiras de solucionar o problema a partir de priorizar os direitos dos povos no centro do debate e questionar as causas profundas da crise climática, como essa produção e o consumismo excessivo que traz o mercado capitalista. Para terminar: você disse que cresceu no meio da luta da sua mãe, do seu pai, da sua comunidade e, bom, forçadamente você assumiu um protagonismo por causa da violência que vitimou sua mãe. Já faz quase dez anos que você está nesse lugar como liderança. Quais sonhos você tem, neste momento, para o futuro? Um dos sonhos que tenho nasce de uma consigna que recuperamos, que diz que “Berta voltará e será milhões”, porque creio que, embora nem todas as pessoas a conheçam – e deveriam conhecer –, a causa em defesa dos territórios, em defesa da natureza, em defesa dos rios deve ser uma causa da humanidade; e, dessa maneira, sua luta, sua vida, seu sangue e sua memória irradiem a todos e todas, e nos comprometam a viver de maneira digna, de maneira justa, em defesa da vida, dos povos. Esse seria como um sonho: que possamos encontrar a forma de materializá-lo e a forma de construir esse modelo alternativo de vida de que as organizações falam e discutem nesses espaços. E você acha que esse é um sonho possível dentro do capitalismo? Não. Minha própria mãe dizia, verdade, que o capitalismo é um modelo contrário à vida, é um modelo contrário aos direitos das mulheres e é um modelo contrário aos direitos dos povos e, portanto, não os sonhos não cabem dentro dele.