Resumo objetivo:
O Brasil adota uma postura cautelosa na política externa, especialmente diante do conflito no Oriente Médio e da imprevisibilidade do governo Trump, buscando defender os organismos internacionais sem confrontar diretamente os EUA. Especialistas avaliam que o país precisa equilibrar-se diplomaticamente, mantendo uma relação tênue com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que se prepara para possíveis interferências de Trump nas eleições brasileiras de 2026. A análise também aborda os desafios da extrema direita no Brasil, que tenta se reorganizar em torno de Flávio Bolsonaro, embora com menor capacidade de mobilização comparada a Jair Bolsonaro.
Principais tópicos abordados:
1. A estratégia de política externa cautelosa do Brasil em um cenário internacional volátil.
2. A complexa relação bilateral com os EUA e os riscos de interferência eleitoral.
3. A dinâmica política interna, com foco na polarização e no reposicionamento da extrema direita.
O Brasil mantém uma posição de cautela diante da escalada do conflito no Oriente Médio, uma estratégia que, segundo especialistas, tem se mostrado acertada diante da imprevisibilidade do governo Donald Trump. Mas os desafios não param por aí: a possível visita de Lula à Casa Branca, a interferência estadunidense nas eleições brasileiras e o cenário de polarização extrema pautam o debate político.
“O Brasil acerta em manter cautela neste momento. Nos primeiros anos do terceiro mandato de Lula, havia muita expectativa sobre qual seria o comportamento do país na esfera internacional. Havia receio de que o Brasil pudesse errar a mão, principalmente numa nova era Trump”, aponta Priscila Lapa, cientista política, ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Ela lembra que o país já enfrentou situações delicadas, como o posicionamento sobre a Venezuela em 2024 e a crise do tarifaço em 2025. “O Brasil acertou na forma de conduzir e minimizou os efeitos. Agora parece que o Brasil acerta no tom de sempre buscar a defesa dos organismos internacionais como intermediadores, com muita cautela. Nenhum país do mundo se atreve a se colocar de maneira irresponsável numa linha de frente contrária aos Estados Unidos.”
Sobre a possível visita do presidente Lula a Donald Trump em março, Lapa pondera que o cenário mudou drasticamente desde que a agenda foi acertada. “Trump se confirma como uma figura controversa. O que é temerário na era atual é a falta de qualquer organismo que possa segurá-lo. Muita gente já se perguntava quem vai parar Trump, e agora, com esse novo episódio, a gente sabe que é praticamente impossível alguém que o pare.”
Ela destaca a posição delicada do Brasil. “O Brasil não tem um poderio militar organizado, tem fragilidades de mercado. Ele não é um apoiador natural de Trump, mas também não pode contrariá-lo. Encontra-se num alinhamento muito tênue: portar-se como estadista, defendendo os interesses nacionais, observando o contexto internacional, mas com muita cautela.”
Interferência nas eleições brasileiras
Lapa não tem dúvidas de que Trump tentará influenciar o processo eleitoral brasileiro. “Ele não manterá uma postura de neutralidade nas eleições presidenciais brasileiras, como não tem mantido em outros países que são do seu interesse.”
Ela, no entanto, relativiza a fidelidade de Trump ao bolsonarismo. “Essa tentativa de influenciar não será por simpatia pura a Bolsonaro ou à família Bolsonaro. Ele já demonstrou que isso não tem. Durante a negociação do tarifaço, ele fez elogios a Lula, numa foto emblemática que enfraqueceu naquele momento o discurso bolsonarista.”
Para ela, Trump não deve adotar uma postura de completa neutralidade com relação às eleições no Brasil. “Até que ponto ele terá fidelidade à agenda bolsonarista ou a pactos que possa estabelecer com Lula dentro de uma relação amistosa que vem se estabelecendo? Ainda é uma incógnita”, aponta.
Ela acredita que haverá uma tentativa de interferir para evitar que qualquer agenda de esquerda ou que possa confrontar os objetivos de Trump se estabeleça. “Pode ser desde uma negociação com Lula até um apoio explícito num tweet favorável a Flávio Bolsonaro, que pode animar a militância.”
Sobre os atos da extrema direita no último fim de semana, que tiveram adesão abaixo do esperado, Lapa faz uma análise cautelosa. “A gente pode falar que está havendo uma mudança. Por outro lado, as pesquisas de opinião das últimas semanas já mostram mais adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro, que ocupa naturalmente o espólio eleitoral do pai, mas precisa convencer ainda alguns segmentos da sua capacidade de liderar um projeto nacional.”
Priscila Lapa aponta como maior desafio para a extrema direita manter a militância ativa e engajada considerando que o principal líder desse grupo político está preso.
Lapa compara com ciclos anteriores: “Em 2018 e 2022, Jair Bolsonaro tinha uma liderança nata, com muito maior capacidade de mobilização. Flávio demonstra capacidade de crescimento, mas ainda tem um longo caminho para manter esse eleitorado aguerrido e também as alianças políticas”.
A especialista identifica o principal motor das últimas eleições presidenciais. “O que alimenta o processo da polarização é o receio de que vença aquilo que eu não quero que vença. Muito mais do que estar convencido sobre o meu candidato, uma boa parte do eleitor decide o voto pelo medo de que o adversário vença.”
Ela acredita que esse sentimento estará presente em 2026. “Principalmente com esse tensionamento internacional, que pode gerar medo de quem se eleger não saber conduzir o Brasil dentro de um cenário de crise econômica internacional”, pondera.
Para ouvir e assistir
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