Resumo objetivo:
A notícia relata os casos de duas mulheres que sofreram por anos com dores pélvicas antes de receberem o diagnóstico de endometriose, uma doença de difícil identificação que afeta cerca de 10% das mulheres no mundo. O artigo destaca que tabus, desvalorização da dor feminina e vieses de gênero na medicina frequentemente levam ao sofrimento prolongado e ao descrédito das pacientes, que ouvem que a dor é "normal". Além da endometriose, são mencionadas outras condições como adenomiose, doença inflamatória pélvica e miomas como causas de dor intensa e subdiagnosticada.
Principais tópicos abordados:
1. Dificuldade e demora no diagnóstico de doenças que causam dor pélvica feminina, como endometriose e adenomiose.
2. Impacto físico, emocional e social da dor crônica não reconhecida.
3. Desvalorização cultural e médica da dor feminina, perpetuada por tabus e vieses de gênero.
4. Consequências intergeracionais da normalização da dor menstrual.
Em agosto de 2025, a pesquisadora canadense Larissa Strath, 35, acordou chorando de uma cirurgia nos Estados Unidos. Ainda sob efeito da anestesia, ela recebeu dos médicos a confirmação de que a dor que sentiu por 19 anos era sintoma da endometriose, uma das principais causas da dor pélvica feminina. A confirmação definitiva costuma ocorrer durante cirurgia.
"Eu não lembro, porque estava anestesiada, mas meu noivo falou: âVocê ficou repetindo que não era louca. Foi tão triste que comecei a chorarâ", conta Larissa.
Pouco tempo depois, a milhares de quilômetros de distância, a analista de mÃdia Michelle Sales, 41, chorou em um consultório médico em São Paulo. Ela ouviu do ginecologista que teria de passar por uma cirurgia devido à suspeita de endometriose.
Michelle já tinha removido o útero após o diagnóstico de adenomiose, mas continuava sentindo a dor que a atormentava havia 24 anos. Seu antigo médico lhe disse que se tratava de dor psicológica e receitou antidepressivos.
"Quando o médico falou 'você tem endometriose', imediatamente respondi 'então não estou loucaâ", conta Michelle. Ela passou por uma cirurgia de sete horas de duração, na qual removeu o apêndice e um tumor na parede do útero e precisou reconstituir o ureter (tubo que transporta urina dos rins para a bexiga).
Tanto a endometriose quanto a adenomiose são doenças que causam dor pélvica e têm difÃcil diagnóstico. Doença inflamatória pélvica, miomas e sÃndrome do intestino irritável são outras condições que causam dor intensa.
A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres no planeta, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). No Brasil, a estimativa é que 7 milhões de pessoas tenham a doença.
Mulheres e pesquisadores entrevistados pela Folha relatam que tabus relacionados à dor pélvica feminina, viés de gênero de profissionais de saúde e falta de estudos sobre o tema levam pacientes a enfrentarem uma vida de sofrimento e descrédito, ouvindo que é normal sentir dor.
"Você fica se sentindo uma extraterrestre", diz Michelle, que perdeu dois empregos devido à s dores incapacitantes que sentia. "Pensa: ânão é possÃvel todo mundo viver uma vida normal e eu aqui só no ciclo da dorâ."
Ela conta que a dor que sentiu dos 17 aos 41 anos prejudicou sua vida social e profissional, sua autoestima e até a relação com os filhos. "Eu era sempre a pessoa com dor."
O ciclo da dor desacreditada
Larissa conta que menstruou pela primeira vez quando tinha por volta de 12 anos. "Estava deitada no chão pensando âmeu deus, tanta dorâ. E me lembrei de ter aprendido que sentimos cólicas durante o perÃodo menstrual, então pensei: âacho que é isso mesmoâ."
Ela então perguntou à mãe âque mais tarde também recebeu o diagnóstico de endometrioseâ e ouviu que a dor era normal. Elas chegaram a conversar com as avós, que relataram a mesma cólica, mas a resposta era apenas: "Aguenta firme. à o que é".
"Essa parte da história fala sobre o lado intergeracional da desvalorização da dor até pelas pacientes. Se é tão normal em uma famÃlia, então todo mundo pensa âé só a vidaâ", diz a pesquisadora da IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor, na sigla em inglês) e professora assistente do curso de medicina da Universidade da Flórida.
O ginecologista Ricardo Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e ObstetrÃcia), afirma que esse é o primeiro entrave do diagnóstico da dor pélvica. "Até parece que é um fato para consolidar a condição de mulher. E isso não é verdade, a mulher não precisa sentir dor", diz Quintairos.
Larissa conta que, em determinado momento, quando a dor ficou mais forte, chegou a desmaiar no meio de uma aula. Começou a perguntar para os médicos da famÃlia se isso era normal, e diferentes profissionais respondiam que "menstruação é ruim".
Anos depois, a mãe dela, Carolyn, descobriu miomas e removeu o útero. Só dez anos mais tarde um novo médico revisou os exames e deu o diagnóstico de endometriose para a mãe.
Com 23 anos a essa altura, e sabendo que tinha os mesmos sintomas, Larissa começou uma peregrinação por consultórios médicos para contar a história da mãe e a sua própria em busca de um diagnóstico de endometriose. Ainda assim, ouvia que se tratava de uma dor normal da menstruação.
"Eles não sabem [identificar a doença]", diz Larissa, que hoje pesquisa dor pélvica na IASP. Ela avalia que essas falham ocorrem porque durante anos a formação em medicina e a própria sociedade ignoraram completamente a dor das mulheres.
Quintairos afirma que este é o segundo entrave ânão adianta a mulher reconhecer que sua dor não é normal se ela não é ouvida no consultório médico. De acordo com o ginecologista, o terceiro e o quarto gargalos são a falta de pesquisas e, no Brasil, a deficiência dos serviços de saúde pública.
A professora de idiomas LÃlian Matos, 33, conta que começou a sentir em 2016 uma dor pélvica estranha. E ouviu de diferentes médicos do SUS (Sistema Ãnico de Saúde) em Extrema (MG) que a dor era um efeito colateral do DIU que havia colocado anos antes.
LÃlian pesquisou o tema e entendeu que provavelmente sua dor seria ignorada, e então insistiu. Foi diagnosticada com um mioma de 300 gramas que já tinha 600 gramas quando foi operado em 2025.
Para Larissa, superar a demora no diagnóstico das dores pélvicas passa por "entender por que os médicos têm esse viés em relação às mulheres". Além disso, afirma que é necessário falar mais sobre isso, dar visibilidade ao tema.
"Estou aqui nos EUA, sou bem educada, trabalho em ciência da dor, sou branca, deveria ter todas essas coisas a meu favor, e ainda assim esperei um diagnóstico por 19 anos", diz. "E as mulheres que têm interseccionalidade? Nos EUA, mulheres negras têm taxas muito mais altas de endometriose e de desvalorização da dor, se comparadas às brancas." Especialistas afirmam que o mesmo acontece no Brasil.
Quando acordou da cirurgia, em agosto do ano passado, Larissa diz que ficou aliviada com o diagnóstico, mas também revoltada por não ter sido ouvida durante anos. "Isso me motivou ainda mais a continuar pesquisando, porque eu pensava: âBem, ninguém vai fazer isso, mas eu vou fazerâ."