Resumo objetivo: A decisão da Suprema Corte dos EUA que barrou o "tarifaço" de Trump é vista como uma surpresa positiva, mas especialistas alertam que não significa o fim da imprevisibilidade e da política de coerção econômica de seu governo. Apesar da possível retomada de exportações brasileiras de aço e alumínio, avalia-se que o Brasil deve manter sua estratégia de diversificar mercados e parcerias internacionais para não ficar refém da instabilidade. A futura visita de Lula aos EUA é interpretada como um movimento pragmático de busca de informações e contenção de influência, não como um alinhamento amplo.
Principais tópicos abordados:
1. A decisão da Suprema Corte dos EUA sobre as tarifas e seus limites.
2. A análise da política externa imprevisível e instável do governo Trump.
3. A estratégia de diversificação de parcerias e mercados do Brasil.
4. A natureza pragmática e cautelosa da relação do Brasil com os EUA, ilustrada pela visita de Lula.
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de barrar o tarifaço imposto por Donald Trump a países aliados pegou o mundo de surpresa, mas não deve ser interpretada como uma vitória definitiva contra a política de coerção econômica do presidente dos Estados Unidos. Quem faz o alerta é Regiane Nitsch Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
“Foi uma surpresa não apenas para o Brasil, mas para todo mundo. Afinal, o tarifaço impacta o comércio internacional e as relações econômicas internacionais como um todo”, contextualiza a especialista. “Ainda assim, considero prematuro comemorarmos uma vitória permanente. Provavelmente ele terá dificuldade de colocar novamente o tarifaço, mas há dispositivos que pode acionar para colocar tarifas sobre determinados produtos e setores.”
A decisão do Supremo, ressalta Bressan, “não descaracteriza a imprevisibilidade, a instabilidade do governo de Donald Trump. Nós teremos muitas surpresas ainda”. A grande característica da política externa trumpista, segundo ela, é justamente “a instabilidade internacional e a retração ainda maior das organizações internacionais, das regras do jogo internacional, já que os Estados Unidos não têm cumprido regras que eles mesmos defenderam no passado”.
Enquanto o governo brasileiro adota tom de cautela — com o presidente Lula, o ministro da Fazenda Fernando Haddad e fontes do governo recomendando moderação, Bressan destaca que o Brasil conseguiu navegar bem pela crise tarifária desde seu anúncio em julho do ano passado.
“O Brasil atuou muito bem quando foi surpreendido pelo tarifaço, buscando novas parcerias internacionais com o México, estreitando os laços com os países do Brics, com a Índia, bem como com a própria União Europeia”, avalia. “Não dá para ficarmos reféns de tamanha instabilidade internacional. É muito difícil para a economia internacional depender de uma única grande potência, ficar à mercê de um governo tão instável.”
Agora, com a redução das tarifas, o Brasil deve voltar a exportar produtos como aço e alumínio para os Estados Unidos, mas sem abandonar a estratégia de diversificação de mercados, sobretudo na Ásia.
A visita de Lula à Casa Branca
O presidente Lula deve visitar Washington em março, em encontro ainda sem data confirmada. Inicialmente cogitou-se que ele fosse direto da Índia para os Estados Unidos, mas a agenda foi considerada exaustiva para o presidente.
Para Bressan, a viagem precisa ser compreendida dentro de um contexto mais amplo da política externa brasileira. “Quando Lula assumiu a presidência, os Estados Unidos, de longe, não seriam o principal país que ele visitaria. Primeiro foram os países do Mercosul, depois China e Japão, depois o Consenso de Brasília reunindo lideranças da América do Sul”, contextualiza. “A relação com os Estados Unidos é pragmática. Não temos interesse em estreitar relações para além do que necessitamos.”
A professora alerta ainda para um documento divulgado pelos Estados Unidos em dezembro de 2025, que “pretende manter a América Latina como uma região de subordinação, um quintal, uma região de muita influência”. Diante disso, “o Brasil deve estar muito atento a como os Estados Unidos pretendem consolidar essa estratégia, porque para o Brasil não interessa ter novamente os Estados Unidos liderando a região com grande influência”.
A viagem de Lula, nesse sentido, é “pragmática, para evitar que os Estados Unidos avancem e sobretudo para obter informações. Quem sabe negociar sabe que tem que ir, ouvir, entender o outro lado. Não dá para se isolar nas relações internacionais.”
O Mercosul entre direitas e esquerda
A emergência de governos de direita e extrema direita na América Latina coloca desafios inéditos para o Mercosul, bloco historicamente marcado pela “onda rosa” de governos progressistas nas últimas duas décadas.
Bressan explica que o bloco, criado em 1991, viveu diferentes fases. “O Brasil tem na Argentina o principal comprador de produtos industrializados, já que não somos competitivos internacionalmente. As tarifas externas do Mercosul protegem o Brasil e favorecem que a indústria brasileira tenha esse mercado argentino.”
Com a crise cambial argentina, o bloco passou por tensões e ampliou sua agenda para temas sociais a partir de 2002. “Era o Mercosul social, com agenda de combate à pobreza e desigualdade, no contexto da onda rosa. Mas essa onda esmoreceu e hoje predomina a direita.”
O problema é que o Mercosul é uma instituição intergovernamental, com pouca autonomia e muito dependente da “diplomacia presidencial”. “Nós estamos enfrentando muita divergência interna para promover não apenas comércio, mas integração da cadeia produtiva”, afirma Bressan, citando as dificuldades de diálogo entre Brasil e Argentina nos governos Bolsonaro e agora Milei.
Assim, o Mercosul “sobrevive” como bloco de negociação com terceiros países, o que torna o acordo com a União Europeia tão estratégico. “Vai depender muito de como os presidentes conduzirem esse acordo. O Lula pediu quase um ano para revisar o acordo, a Argentina seguiu apoiando a revisão proposta pelo Brasil. O Brasil liderou as negociações.”
Brics, dólar e a nova geopolítica
Na Índia, Lula voltou a defender que o dólar não deve ser a moeda para relações comerciais entre os países do Brics, tema que havia sido esfriado após ameaças de Trump de taxar em 100% os países do bloco que abandonassem a moeda estadunidense.
Bressan avalia que o tema “não estava escondido, não era publicizado”. Ela defende que mecanismos como o PIX “possam um dia ser utilizados pelos países dos Brics, pelos países antagônicos aos Estados Unidos”.
A especialista ressalta que os Brics surgiram como aliança para alavancar países do Sul Global, mas a partir do governo Trump e da guerra da Ucrânia passaram a ser interpretados como “polo antagônico aos Estados Unidos”.
“O Brasil continua muito assertivo em entender que os Brics não deveriam servir para rivalizar com o Ocidente. Continuamos no Ocidente, não vamos nos mudar. Mas sim abrir caminhos para negociação”, pondera.
Ela reconhece que “existe uma pressão muito grande para o fim do mecanismo do dólar”, dado o custo de manter o lastro com a moeda dos EUA desde Bretton Woods. “As negociações, sobretudo através da tecnologia, caminham para que os países dos Brics no futuro consigam fazer comércio entre eles sem o uso do dólar. Hoje parece difícil pela pressão dos Estados Unidos, mas é um futuro muito provável, já que a China vem ultrapassando os Estados Unidos se tornando uma grande potência.”
O ataque ao Irã e o fracasso do multilateralismo
Em meio às tensões comerciais, o mundo acompanha com apreensão a iminência de um novo ataque dos Estados Unidos ao Irã — ameaça que Trump reiterou nas últimas horas, endossada por informações da imprensa estadunidense.
Para Bressan, o episódio expõe a fragilidade das organizações multilaterais. “As organizações internacionais, exceto a União Europeia, são todas intergovernamentais. Não têm autonomia e soberania sobre os países. Não têm supranacionalidade.”
Com o enfraquecimento de instituições como a ONU (Organização das Nações Unidas) e os desafios enfrentados pela própria Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), “dificilmente os Estados Unidos vão sofrer alguma retaliação”. Apesar da pressão da comunidade internacional, “dificilmente as organizações internacionais vão conter neste momento os Estados Unidos”.
“Existem ameaças, os Estados Unidos já pontuaram sua relação com o Irã e existem desafios internacionais não apenas em relação ao Irã, mas à Israel, à Ucrânia. Ainda acho que esse ano será um ano de bastante conflito e de muito desafio internacional para conter o aumento dessas guerras. Infelizmente, vivemos a iminência de um caos global”, conclui a professora.
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