Resumo objetivo:
Uma pesquisa genética sugere que a preferência de certos mosquitos por sangue humano no Sudeste Asiático pode ter surgido há quase 2 milhões de anos, associada à presença de hominínios arcaicos como o Homo erectus. O estudo analisou o genoma de espécies do grupo Anopheles leucosphyrus — que inclui transmissores da malária — e estimou os períodos de divergência entre elas, correlacionando essa evolução com a expansão histórica de humanos na região.
Principais tópicos abordados:
1. A origem antiga da antropofilia (preferência por sangue humano) em mosquitos do Sudeste Asiático.
2. A análise genômica de espécies do grupo Anopheles leucosphyrus e sua relação com a transmissão da malária.
3. A correlação entre a evolução dos mosquitos e a expansão de hominínios na região, desde o Homo erectus.
4. O uso do relógio molecular para estimar a divergência entre as espécies de mosquitos.
A paixão de certos mosquitos pelo sangue humano pode ter começado antes mesmo que o Homo sapiens surgisse, ao menos no Sudeste Asiático, indica uma nova pesquisa. A análise do genoma (conjunto do DNA) de insetos da região sugere que eles já colocavam no cardápio os fluidos corporais de humanos arcaicos da espécie Homo erectus há quase 2 milhões de anos.
Segundo os autores do estudo, que publicaram suas conclusões no último dia 26 na revista especializada Scientific Reports, isso explicaria a variabilidade atual de mosquitos do gênero Anopheles (o dos transmissores da malária) numa ampla região que vai do nordeste da Ãndia até as ilhas de Sumatra, Java e Bornéu, na Indonésia, passando por paÃses como Tailândia e Vietnã.
Atualmente, essa região abriga um total de 20 espécies do chamado grupo Anopheles leucosphyrus. Quando há uma grande quantidade de espécies proximamente aparentadas e difÃceis de diferenciar, é comum que se use um único nome cientÃfico para designar o conjunto, mesmo quando cada espécie do grupo já conta com seu próprio nome também.
Apesar das semelhanças, os membros desse conjunto de espécies têm diferenças consideráveis na sua preferência por presas.
Enquanto algumas têm forte preferência por sangue humano e transmitem o parasita causador da malária facilmente, com destaque para o An. dirus e a An. balabacensis, outras só se alimentam do sangue de primatas não humanos, como macacos, orangotangos e gibões, e quase sempre no dossel da floresta (a camada mais alta, onde as copas das árvores se encontram, e onde esses animais circulam). Por fim, alguns dos Anopheles da região são menos exigentes na dieta, sugando tanto primatas peludos quanto humanos.
Considerando a história evolutiva conjunta de pessoas e mosquitos na região, seria plausÃvel que a chamada antropofilia de alguns dos Anopheles âa predileção dos bichos por sangue humanoâ tivesse aparecido com a expansão global do Homo sapiens a partir de seu berço africano. Esse avanço dos seres humanos anatomicamente modernos pelo mundo chegou ao Sudeste Asiático com relativa rapidez, há uns 70 mil anos, segundo as estimativas mais recentes.
Mas, em tese, a antropofilia dos bichos poderia ter começado muito antes, já que as primeiras expansões de hominÃnios (membros do grupo mais próximo dos seres humanos atuais e seus antepassados) se deram ali no mÃnimo com a chegada do Homo erectus, há 1,8 milhão de anos.
Como é improvável que algum dia se obtenha, por exemplo, DNA do parasita da malária num esqueleto de H. erectus, considerando a degradação do material genético com o passar do tempo, um caminho alternativo para elucidar a questão é tentar reconstruir a evolução dos mosquitos do grupo e ver se existe uma correlação com os perÃodos de expansão dos hominÃnios.
Foi essa a abordagem adotada pela equipe do novo estudo, liderada por Upasana Shyamsunder Singh e Catherine Walton, dupla da Universidade de Manchester, no Reino Unido. As pesquisadoras e seus colegas fizeram uma análise comparativa do genoma de mosquitos de 13 espécies do gênero Anopheles, um desafio considerável quando se leva em conta que muitos são animais que vivem em áreas densas de floresta tropical, sendo, portanto, difÃceis de coletar.
A comparação dos genomas permitiu que Singh, Walton e seus colaboradores não apenas compreendessem melhor as relações de parentesco entre as espécies como também estimassem as épocas de divergência entre cada uma delas. Ou seja, inferiram o momento aproximado em que cada população ia se separando de seus parentes e se tornava uma espécie distinta.
à possÃvel fazer essa estimativa com base no chamado relógio molecular. Trata-se do ritmo médio com que o DNA sofre mutações e é transmitido à s gerações seguintes âalgo que acontece o tempo todo, em todas as espécies. Em tese, o número de mutações e o ritmo com que cada uma delas acontece permite chegar ao tempo transcorrido desde que as espécies se separaram.
Com base nessa lógica e nos dados dos genomas, a equipe chegou a duas conclusões. Primeiro, algumas espécies do gênero Anopheles teriam abandonado a vida no dossel das árvores e "descido" para mais perto do chão por volta de 3 milhões de anos atrás, quando a floresta tropical do Sudeste Asiático passou a ser permeada por manchas de vegetação mais aberta (tudo por causa da chegada de um clima menos quente e mais seco).
Ao que tudo indica, a transição das espécies que apenas se alimentavam perto do chão para a antropofilia foi bem antiga, na mesma faixa temporal que corresponde à chegada do H. erectus no Sudeste Asiático. Isso não necessariamente significa, porém, que os parasitas da malária já estivessem sendo transmitidos para a nossa linhagem nessa época âtrata-se de algo que pode ter acontecido mais tarde.