Resumo objetivo:
O artigo analisa a guerra em curso no Oriente Médio como um conflito desencadeado pelos EUA e Israel contra o Irã, destacando que os Estados Unidos entraram em uma "guerra por procuração" a favor de Israel. Segundo o especialista entrevistado, esta é uma "guerra de escolha" para os EUA — contrária aos seus interesses estratégicos —, mas uma guerra de "sobrevivência" para o Irã e de "interesse vital" para Israel.
Principais tópicos abordados:
1. A assimetria de percepções sobre a guerra entre EUA (escolha política), Israel (interesse vital) e Irã (sobrevivência).
2. A influência do lobby israelense, especialmente o AIPAC, na política externa dos EUA.
3. A estratégia e preparo do Irã para um conflito prolongado, baseado em paciência e capacidade de resposta.
4. A ruptura das negociações devido ao ataque surpresa, minando a confiança diplomática.
A guerra desencadeada por Estados Unidos e Israel contra o Irã já se espalha pelo Oriente Médio, e suas consequências ainda são imprevisíveis. O que já se pode afirmar, no entanto, é que Washington entrou em uma guerra por procuração de Tel Aviv – uma “guerra de escolha” para os estadunindenses, mas de “sobrevivência” para os iranianos.
“Em termos de cálculo frio, essa guerra não é do interesse dos Estados Unidos. O próprio Trump foi avisado pelos militares de que essa era uma guerra sem sucesso garantido, que seria uma má ideia entrar nessa aventura”, pontua Salem Nasser, professor de direito internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Para Israel, no entanto, a situação é diferente, pois vive esta guerra como uma guerra de “interesse vital”. “[Israel] percebe no Irã a grande ameaça à sua hegemonia na região, à sua própria sobrevida. Depois de tudo que aconteceu desde 7 de outubro de 2023, Israel enxerga que é preciso, de uma vez por todas, acabar com as capacidades militares e tecnológicas iranianas”, acrescenta.
O professor destaca a assimetria de percepções: “Para os Estados Unidos, é uma guerra de escolha. Para o Irã, certamente é uma guerra de sobrevivência, foi imposta a eles. E pelo menos até agora, tudo mostra que as consequências vão ser negativas para os Estados Unidos e para Israel.”
Nasser aborda a questão central: por que os Estados Unidos embarcam repetidamente em aventuras que beneficiam Israel, mesmo quando contrariam seus próprios interesses? “Em parte, pode ser quase suicida em termos de carreira para Trump, em termos de perspectivas eleitorais. Mas mesmo assim, eles não conseguem escapar desse encanto que Israel parece exercer sobre os Estados Unidos.”
Ele lembra que a existência do lobby israelense é conhecida há muito tempo, mas que, hoje em dia, as pessoas estão falando sobre isso cada vez mais claramente. “Tem muito político em debates apontando os dedos uns para os outros e dizendo: ‘Você recebeu dinheiro da Aipac [Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel, na sigla em inglês]’. Ao se exporem assim, os políticos americanos estão dizendo para a gente com todas as letras que o poder desse lobby é muito grande.”
Nasser cita um exemplo emblemático: durante um discurso recente no Knesset, Trump chamou Miriam Adelson ao palco e disse: ‘Ela aqui manda mais na Casa Branca do que eu’. “Ele estava brincando, mas toda brincadeira tem um fundo de verdade. A contribuição de campanha dela para Trump foi de US$ 200 milhões. O que ela pedia em troca era que ele reconhecesse a anexação das Colinas de Golã por Israel.”
Para o professor, parte do mistério começa a ser desvendado. “Se o Trump está sofrendo chantagem por causa do Epstein, isso a gente não sabe, mas é uma possibilidade. Racionalmente, ele não deveria ter entrado nesta guerra com tudo que já se sabia sobre o Irã.”
A estratégia iraniana: paciência e desgaste
Nasser analisa a resposta iraniana aos ataques, apesar da “surpresa” que foi descobrir que Khamenei foi morto com “tal facilidade”. “Mas eu pessoalmente acho que ele entendeu que ser morto em batalha era melhor para o Irã do que gerenciar a batalha vivo. Ele assumiu o risco.”
O fato de o Irã ter respondido já na primeira hora, aplicando exatamente o que estava planejado, mostra preparo. “Eles estavam preparados e sabiam o que teriam que fazer nesta guerra.”
Sobre a negativa iraniana em negociar, Nasser é taxativo: “Eles estavam negociando – já não era a primeira vez. Iriam se encontrar no domingo ou segunda para continuar as negociações e foram atacados no sábado. Obviamente os iranianos estão dizendo: como posso confiar num inimigo que me diz que vai negociar e depois decide me atacar?”
Em relação à capacidade do Irã de sustentar os ataques, o professor é otimista. “A estratégia dos iranianos é simples em alguma medida: eles têm milhares de mísseis e drones, mais ou menos sofisticados, mais ou menos caros, e uma boa quantidade de mísseis de alta precisão, hipersônicos, com grande poder de destruição.”
“Enquanto eles estiverem mandando mísseis e drones, Israel vai ter que usar seus interceptadores, caríssimos e em número limitado. Vai chegar um momento em que não terão mais interceptadores. Os mísseis iranianos vão começar a atingir seus alvos sem nenhuma interceptação”, explica.
Em contrapartida, o Irã é um país grande, com população numerosa. “Um ataque aéreo não vai funcionar. Você precisaria invadir o Irã para vencer militarmente — e precisaria de, no mínimo, um milhão de soldados para tentar ganhar uma guerra na geografia iraniana.”
A esperança estadunidense e israelense de que a população se voltasse contra o governo também não se realizou, visto as inúmeras manifestações contrárias à guerra e ao assassinato do líder supremo.
Sobre a possibilidade de mudança de regime, Nasser faz distinções importantes. “Dentro do jogo político iraniano, há um grupo chamado de moderados ou reformistas, que quer melhorar as relações com os Estados Unidos e acredita em negociações. O governo atual é reformista — foi eleito e nomeou ministros reformistas. É por isso que estavam negociando.”
Há também uma oposição que é contra o regime que é minoritária. “E dentro dela, é preciso ver quantas pessoas gostariam que os Estados Unidos estivessem atacando o Irã — são duas coisas diferentes”, aponta.
Existem grupos alimentados por sistemas de inteligência estrangeiros, que atuam como sabotadores e agitadores. “Mas entre os que apoiam o regime, há uma franja de lealdade absoluta à autoridade do sábio religioso. Uns 20% da população iraniana são os que estão dispostos ao martírio para proteger a revolução.”
“Nessa situação, depois que Khamenei foi morto, esses 20% vão representar muito mais do que qualquer oposição. A oposição vai ficar mais quietinha, porque o jogo agora é outro. Não parece haver qualquer chance de mudança de regime nos termos que os americanos querem — muito menos do que Israel também desejaria”, destaca.
O papel do Hezbollah e a situação no Líbano
Nasser aborda a posição do Hezbollah, que sofreu perdas importantes na campanha de apoio a Gaza. “Inclusive perderam sua maior liderança, simbolicamente a mais importante para o eixo da resistência. Foram penetrados pela inteligência israelense, americana e ocidental.”
Apesar disso, o cessar-fogo negociado nunca foi respeitado por Israel. “Não teve um único dia nesses 15 meses que Israel não tenha atacado o Líbano. Cerca de 500 combatentes do Hezbollah foram mortos enquanto levavam sua vida de civis — em suas casas, com suas famílias, no carro indo para o trabalho. Muitos civis foram mortos, vilas destruídas, vilarejos esvaziados.”
Nasser sugere que o Hezbollah está fazendo um cálculo de prazo maior. “Eles sabem que, se Israel obtivesse uma vitória rápida contra o Irã e o regime mudasse, no dia seguinte o Hezbollah seria atacado para ser eliminado de vez. Não está eliminada a possibilidade de entrarem em cheio na guerra.”
Situação nesta segunda
Nesta segunda (2), Trump afirmou que os ataques contra o Irã não têm data para terminar e reiterou o discurso falacioso de que o governo iraniano estaria desenvolvendo bombas atômicas.
Israel retomou os ataques nesta noite, bombardeando inclusive a televisão estatal do Irã, a IRIB. Os bombardeios se intensificaram em várias cidades e o número de mortos passa de 600.
Em resposta, o Irã segue atacando instalações militares dos Estados Unidos em países da região. A embaixada dos EUA em Riad, capital da Arábia Saudita, foi atingida por uma explosão e um incêndio subsequente.
Amir-Saeid Iravani, enviado do Irã à ONU em Nova Iorque reafirmou que o país não buscou o conflito. “O Irã não busca a guerra, o Irã não busca uma escalada. Mas o Irã não abrirá mão de sua soberania”, disse, em uma coletiva de imprensa.
Contexto
Os ataques conjuntos, não provocados e considerados ilegais pelas leis internacionais, dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciados no sábado (27), ocorrem em meio a negociações sobre o programa nuclear iraniano. Apesar do país persa em cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica e se comprometer a usar seu programa nuclear exclusivamente para fins pacíficos, Israel e EUA – ambas potências nucleares – acusam Teerã de secretamente buscar a construção de armas atômicas.
Tel Aviv também acusa o Irã de ser “ameaça existencial” ao país, mas a acusação é rebatida por analistas que argumentam que o governo iraniano se encontra hoje muito enfraquecido pelos ataques de junho de 2025, pelas sanções impostas pelos EUA, protestos internos e o fim do corredor até o Líbano, após a queda de Bashar al-Assad na Síria.
A derrubada do governo em Teerã é objetivo cultivado por Washington e Tel Aviv desde a instalação da República Islâmica, em 1979, que substituiu o regime vassalo do Ocidente e instituiu o governo teocrático nacionalista. Nos primeiros dias de ataques, bombardeios mataram lideranças iranianas, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que governava o país desde 1989.
Terceiro maior produtor de petróleo do mundo, o Irã fechou, após o início das agressões, o Estreito de Ormuz, por onde é escoada a produção de vários países do Golfo. Por lá passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, o que gera temores de uma crise inflacionária internacional. Outro temor, apontado por analistas, é que o conflito se expanda para outros países da região, com consequências imprevisíveis.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.