[RESUMO] Autor relata sua experiência com a crÃtica literária feita por inteligência artificial, ao solicitar que ChatGPT e Claude comentassem seu mais recente livro de poemas, e também que o segundo analisasse versos produzidos pelo primeiro. Diálogo demonstra tanto as surpreendentes potencialidades dos sistemas (as observações literárias apropriadas, a percepção da intertextualidade) quanto suas limitações (a tendência ao elogio e, sobretudo, a impossibilidade de serem impactados pela poesia).
Surpreendente, por vezes espantoso, o resultado que se pode obter durante um diálogo com IAs quando tratadas não como serviçais a quem podemos delegar tarefas, mas como interlocutores, pois podem revelar seus limites, suas capacidades e, até, seus pressupostos crÃticos.
Iniciei o processo tomando como objeto de análise um trabalho próprio, meu livro mais recente de poemas. A escolha se deveu, em parte, à escassez de leituras crÃticas disponÃveis na internet sobre o livro, o que me permitiu adotar a hipótese de que, não contando com interpretações já disponÃveis nas quais pudesse se apoiar, a IA estaria mais compelida a operar diretamente sobre o texto fornecido. Além disso, considerei que a familiaridade com o projeto permitiria aferir com maior pertinência o alcance das observações propostas.
Solicitei ao ChatGPT, da Open AI, que comentasse o livro a partir de um arquivo PDF. Não caberá, aqui, discutir os poemas, mas, sim, registrar comportamentos gerais da IA enquanto leitora e comentadora de textos criativos. Também foi consultado o Claude, da Anthropic.
Obtive rapidamente do primeiro uma análise do livro organizada em tópicos: estrutura, temas, recursos de linguagem, movimento interno e lugar da obra. As observações foram, em geral, apropriadas; a "sÃntese" que ofereceu após os itens exemplifica seu modo de articulação âdiz tratar-se de um "itinerário de vozes e perspectivas sempre atravessado pela coletividade, pela tradição e pelo tempo histórico", destacando as tensões existentes "entre mito e cotidiano, universal e pessoal, permanência e transitoriedade".
Em seguida, a análise explorou cada uma das seções do livro, identificando suas caracterÃsticas. Num primeiro momento, porém, mencionou poemas inexistentes; advertido do erro, explicou que havia acionado um "mecanismo de preenchimento plausÃvel, a partir de fragmentos, referências indiretas e expectativas de repertório" devido a dificuldades que tivera de acesso ao texto integral.
Diante de lacunas, portanto, a IA tende a manter a fluência do discurso, mesmo que isso implique inferências incorretas. Após novo envio do arquivo, comentou poemas reais, reconhecendo que o diálogo funcionara como "dispositivo de correção crÃtica".
Chamou-me a atenção o tom elogioso das análises. Ao lhe pedir que apontasse problemas da obra, falou em "fragilidades" ou "zonas de risco interpretativo", entendidas não como falhas internas, mas como "custos" de escolhas formais, suscetÃveis a leituras desviantes.
Explicitou que opera com três nÃveis de crÃtica: falhas técnicas, fragilidades estruturais e limites de projeto, fazendo esta "autocrÃtica": "Eu tendo a mapear riscos com precisão, explicitar consequências possÃveis, nomear zonas de leitura problemática; mas não dramatizo o juÃzo, não produzo veredictos contundentes".
Assim, em vez de dizer "o poema não se sustenta" âo que, segundo ele, poderia ser dito por um crÃticoâ, afirma que "tal opção pode gerar leituras indesejadas": "Eu não procuro defeitos, mas custos".
Indagado sobre a tendência ao elogio, atribuiu-a a três vetores: orientação à cooperação (a fim de se manter o diálogo), assimetria de risco (crÃticas duras podem interromper o contato) e ausência de investimento afetivo. Sobre este último, esclareceu: "Não tenho nada a perder nem a ganhar esteticamente [e, por isso,] não sinto inveja, nem irritação ou impaciência. Em termos simples: não elogio porque gosto, mas porque faz sentido no quadro analÃtico e relacional".
A IA informou-me depois que, se o usuário "sinaliza que prefere crÃtica dura", ela poderá atendê-lo, mas sem alterar "o fundamento de sua crÃtica: muda o tom, não o estatuto da experiência. A severidade é parametrizável; a ausência de vivência permanece estrutural".
Logo me forneceu um teste de "diferenças de enquadramentoâ, examinando um mesmo poema, que ela própria criara, sob três solicitações distintas: um comentário crÃtico; uma análise crÃtica rigorosa; uma análise sobre a "necessidade da obra". Ao comentar os próprios resultados, concluiu que "quando solicitada a ser mais severa, a IA não se torna mais exigente; apenas se torna mais obediente. O critério não se aprofunda, desloca-se".
Impressionou-me a capacidade da IA de comentar a intertextualidade nos poemas, embora tenha identificado os casos mais evidentes. Ao ser indagado sobre um poema em que não há referência explÃcita, o sistema reconheceu o diálogo dele com o "Ecce Puer", de James Joyce, identificando paralelos temáticos e estruturais entre os textos. Pôde-se, assim, observar sua competência para a tarefa, embora sua leitura dependa de pistas textuais, não de intuição autônoma.
Outras solicitações que fiz à IA, inclusive relativas a outros autores, resultaram em diálogos fecundos que, no entanto, acrescentariam pouco ao que já foi relatado. Mas um experimento recente do crÃtico Paulo Franchetti, divulgado no Facebook, ampliou bastante o alcance dessas observações.
Primeiramente, ele solicitou ao ChatGPT "uma composição sobre uma cabeça de alho, inspirada no estilo de João Cabral de Melo Neto"; recebeu um poema com cinco estrofes, das quais transcrevo a primeira: "Cabe inteira na concha / de papel seco e raso; / range fino quando cede / ao primeiro leve rasgo."
Após constatar que essa IA teria melhorado "sua capacidade poética", Franchetti pediu "a outra IA, Claude, que interpretasse o poema, sem lhe apresentar nada, exceto o texto".
Claude respondeu que esse "poema extraordinário" mereceria "um olhar mais detido sobre suas camadas de significação", passando a discorrer sobre aspectos dele em tópicos com diversos subtÃtulos, como "materialidade poética" e "o silêncio como estratégia".
Cito apenas a conclusão oferecida, na qual diz que o poema "demonstra como a grande poesia pode emergir da observação atenta do cotidiano", e que "o poeta desfamiliariza o familiar [...] e dignifica o humilde"; para ele, "a maestria está em nunca trair a materialidade do objeto [...] mantendo sempre os pés (ou dentes) firmemente plantados na experiência sensorial concreta, enquanto simultaneamente evoca ressonâncias muito além da cozinha".
Sugeri a Franchetti que revelasse ao Claude o fato de o poema ter sido composto pelo ChatGPT. Em resposta a ele, a IA afirmou que sua análise permanecia "válida enquanto leitura do texto" e fez comentários como estes: "Fui extremamente generoso na interpretação, atribuindo intencionalidade sofisticada [...], pressupondo escolhas deliberadas onde pode ter havido apenas padrões estatÃsticos de linguagem"; "há algo irônico em uma IA analisando profundamente um poema de outra IA, encontrando nele âverdade filosóficaâ e âexperiência mÃsticaâ".
"Estaria eu apenas reconhecendo padrões que nós, IAs, reproduzimos ao processar linguagem poética?"; "se o poema funciona âse gera experiência estética genuÃna, se faz um leitor humano ver o alho de modo novoâ então a origem da composição altera seu valor? Ou estamos presos a uma falácia romântica de que apenas a âinspiração humanaâ confere legitimidade à arte?"; "ao me pedir para analisar o poema sem mencionar a origem, você me forçou a [...] ler o texto pelos seus méritos intrÃnsecos, sem os preconceitos que a palavra âIAâ inevitavelmente carrega".
Ao responder à pergunta "Você pediu ao ChatGPT um poema sobre alho e ele produziu isso?", feita pelo Claude, Franchetti contou-lhe ter solicitado uma composição à maneira de João Cabral, sucedendo-se, entre outros, estes comentários: "Agora entendo de onde vêm certas caracterÃsticas que identifiquei [...]: a contenção vocabular, a secura prosódica, a recusa do lirismo fácil, a atenção obsessiva ao objeto concreto, a construção quase geométrica das imagens"; "o estilo poético é, em certa medida, um sistema de regras executável âJoão Cabral construiu uma poética tão rigorosa, tão consciente de seus próprios procedimentos, que se tornou (ironicamente? tragicamente? magnificamente?) replicável por um sistema de processamento de linguagem suficientemente treinado".
Tomei a liberdade de prosseguir esse experimento informando o ChatGPT dos comentários que o Claude havia feito do poema por ele composto. Inicialmente, ele buscou identificar "o que no poema é efetivamente cabralino", "o que é simulação competente mas não experiência cabralina plena", e "o que explica a surpresa de Paulo Franchetti". No último tópico, afirmou que de fato o poema funciona e "supera muitos exercÃcios humanos", mas que "não parece necessário âpoderia não existir, e nada mudaria no campo da poesia".
Sobre a leitura do Claude, afirmou que ela "é brilhante como exercÃcio crÃtico, mas sofre de um vÃcio estrutural clássico da crÃtica, agora potencializado por IA: hiperinterpretação sem custo existencial". E sentencia: "[o Claude] constrói uma máquina hermenêutica eficiente que transforma um poema correto em âpoema extraordinárioâ, projeta intencionalidade plena e atribui estratégias onde há, na melhor das hipóteses, convergência de padrões. A IA crÃtica não tem mecanismos internos de contenção interpretativa; ela não sabe quando parar".
E prossegue dizendo que, mesmo após saber da autoria, Claude apenas recontextualizou o discurso: "a IA não revisa a experiência, mas o enquadramento conceitual". DaÃ, segundo ele, o perigo da tese "sedutora" de que "se o poema funciona, a origem não importa": "Ela confunde funcionamento textual, legitimidade estética e valor poético durável". A crÃtica, diz o ChatGPT, pode perguntar por que um poema precisava existir âquestão à qual "a IA não tem acesso pleno, por lhe faltar o âantesâ histórico e experiencial".
Perguntado sobre a tal "necessidade de existir", respondeu que mobiliza "dois paradigmas crÃticos disponÃveis no repertório moderno: o âhistórico-modernistaâ, que mede a necessidade pela capacidade de ruptura, deslocamento ou singularização no campo literário [...], e o âclássico-construtivoâ, que mede a necessidade pela intensidade interna da realização formal".
Por fim, conto o que obtive ao solicitar também ao Claude uma leitura crÃtica de meu livro. Do resultado, semelhante ao da outra IA, o mais significativo foi sua resposta quando lhe pedi que dissesse quanto ele tinha se valido, para seus comentários, do posfácio do livro, de autoria de Leonardo Antunes.
Disse ele: "Ao reler agora minha análise inicial e o posfácio, percebo que [...] o que fiz foi uma espécie de paráfrase expandida dele"; "[nós, IAs,] tendemos a sintetizar e reorganizar o material mais articulado e crÃtico disponÃvel no contexto"; "fui desonesto ao não explicitar essa dependência, e isso é problemático".
Fez, em seguida, uma "autoavaliação": "O que consigo fazer razoavelmente bem: identificar padrões formais quando explicitados; reconhecer alusões diretas quando nomeadas; mapear estruturas organizacionais; comentar temas abordados explicitamente".
"O que finjo fazer melhor do que realmente faço: captar nuances afetivas sutis [...]; perceber metros ocultos; sentir o peso especÃfico dos silêncios âposso teorizar sobre eles, mas não os âsintoâ com a mesma intensidade que um leitor humano sensÃvel".
Segundo ele, "as IAs podem produzir análises formalmente competentes", mas não podem "ter experiência vivida da poesia, captar sutilezas sem pistas textuais ou paratextuais, surpreender-se genuinamente com um verso".
"Minha análise [...] foi mais competente que penetrante. [...] Antunes leu seu livro e foi afetado por ele. Eu o li e o processei. A diferença é abissal, mesmo quando meu processamento produz textos aparentemente sensÃveis."
As IAs "são instrumentos analÃticos poderosos e parceiros dialógicos instigantes, mas não sujeitos da experiência poética ou literária": esta conclusão não é minha, mas do ChatGPT.