Resumo objetivo:
A Microsoft e especialistas argumentam que a guerra no Irã reforça a necessidade de investimentos em energias renováveis e armazenamento, pois a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis expõe a vulnerabilidade energética. A crise é vista como uma validação da estratégia de diversificação da matriz energética, embora também possa, paradoxalmente, atrasar a expansão renovável devido a disrupções na cadeia de suprimentos.
Principais tópicos abordados:
1. A volatilidade geopolítica como impulsionadora da transição para energias limpas (eólica, solar, nuclear) por maior segurança e previsibilidade de custos.
2. A exposição e vulnerabilidade dos países dependentes da importação de combustíveis fósseis.
3. Os impactos paradoxais da guerra, que podem tanto acelerar a eletrificação quanto incentivar o uso de carvão ou atrasar projetos renováveis.
A guerra no Irã reforça o argumento para investimentos em fontes de energia limpa e armazenamento em baterias, afirmou a Microsoft, enquanto nações correm para garantir suprimentos de petróleo e gás.
Bobby Hollis, vice-presidente global de energia da Microsoft, responsável pela compra de energia para o grupo de tecnologia em todo o mundo, disse que a alta nos preços de petróleo e gás ressalta a necessidade de energia renovável no fornecimento de eletricidade como proteção contra custos voláteis de combustÃveis.
"A energia eólica e solar, como parte dessa combinação, é um enorme benefÃcio do ponto de vista da estabilidade de preços, porque uma vez instalada, você tem mais certeza sobre como será o perfil real de custos", disse ele ao FT.
"A flexibilidade de combustÃveis é sempre importante, seja em tempos de conflito, seja em tempos de escassez ou de mudanças no mercado de combustÃveis", acrescentou Hollis. "Essa não é uma ideia revolucionária."
Hollis, que trabalhou anteriormente na Breakthrough Energy, de Bill Gates, e na Apple, disse que a indústria aprendeu a lição com a guerra da Rússia contra a Ucrânia e a subsequente crise energética em 2022.
"Acho que a Europa reconheceu isso quando saiu da crise da Ucrânia, ao analisar como poderia diversificar mais seu suprimento de combustÃveis e sua matriz energética."
Consultores de polÃtica climática e analistas também citam benefÃcios do aumento de vendas de painéis solares baratos na Alemanha e na Hungria, e de bombas de calor na Itália e na Polônia, em função da restrição de petróleo e gás russos após a invasão da Ucrânia.
Linda Kalcher, que já foi consultora de formuladores de polÃticas climáticas na Europa, diz que, embora alguns governos possam ver a necessidade de aumentar os estoques de gás, o debate polÃtico se voltará mais uma vez para redobrar os esforços em fontes de energia renovável, incluindo a nuclear.
"Os europeus ainda importam 90% de seus combustÃveis fósseis, então essa é uma exposição extremamente alta à vulnerabilidade dos mercados globais", diz.
Sam Reynolds, especialista em GNL e nos setores energéticos da Ãsia no Instituto de Economia e Análise Financeira de Energia, afirma que os "choques no mercado de commodities minam completamente o argumento do GNL como um 'combustÃvel de transição' acessÃvel e confiável, particularmente para mercados emergentes".
O especialista em China Lauri Myllyvirta, cofundador do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, acrescentou que as turbulências no mercado de energia reforçariam a eletrificação da economia chinesa para protegê-la de riscos geopolÃticos.
"Esse tipo de perturbação é exatamente o que tem impulsionado a abordagem e a estratégia de segurança energética da China ao longo dos anos", afirma. "Certamente, ver os EUA apreenderem petroleiros russos e ver um importante ponto de estrangulamento do comércio global de petróleo fechado é mais uma validação da abordagem da China."
No entanto, ele observa que isso também reforçaria o argumento para o aumento do uso do carvão doméstico de baixo custo para conversão em outros produtos poluentes, como gás e combustÃveis sintéticos.
Outro efeito paradoxal da guerra, ao provocar interrupções nas cadeias de suprimento da infraestrutura de energia renovável, pode ser o atraso nos esforços de expansão. Os fabricantes europeus de energia eólica, em particular, sofreram com um aumento acentuado nos custos de materiais e transporte em 2022.
Para o ex-funcionário de inteligência dos EUA Tom Ellison, diretor adjunto do Centro para Clima e Segurança, a pressão energética é um lembrete de que "os combustÃveis fósseis precisam fluir constantemente ou o caos se instala".
"Essa é uma vulnerabilidade fundamental que os combustÃveis fósseis têm em comparação com a energia renovável", disse ele.
Ao mesmo tempo, a infraestrutura de energia limpa, incluindo a capacidade das redes elétricas, é "muito dependente de despesas de capital iniciais e é prejudicada por coisas como inflação, taxas de juros e choques econômicos mais amplos", disse ele. Mas a recompensa é um fornecimento duradouro.
"O fundamental é... sair do ciclo vicioso que pode incentivar você a simplesmente religar usinas de carvão e garantir fornecedores alternativos de GNL, o que continua construindo essa vulnerabilidade de longo prazo no sistema."
Reynolds, do Instituto de Economia e Análise Financeira de Energia, observa que, após a guerra da Rússia contra a Ucrânia, muitos paÃses da Ãsia já haviam começado a reavaliar a expansão da infraestrutura de importação de GNL, incluindo o Paquistão, que passou a importar grandes quantidades de painéis solares.
"Espera-se amplamente que os mercados emergentes da Ãsia sejam os maiores mercados de crescimento para a demanda global de GNL, mas âdependendo da duração do conflito com o Irãâ eles podem mais uma vez se ver à mercê dos mercados globais de commodities e da incerteza geopolÃtica", diz ele.
"Espero que o atual conflito, se não for rapidamente desescalado, possa mais uma vez levar paÃses da Ãsia a reconsiderar seus planos para o GNL, potencialmente prejudicando o crescimento a longo prazo da demanda com o qual o setor conta".