Resumo objetivo:
Cerca de 200 famílias de baixa renda ocupam um terreno público estadual em São Lourenço da Mata (PE), destinado ao fracassado projeto "Cidade da Copa", para pressionar por moradia. As famílias, organizadas por movimentos sociais como MST e MUST, vivem em situação de risco em periferias e reivindicam diálogo com as autoridades para resolver o déficit habitacional. A ocupação busca alternativas à inação do poder público, que deixou a área abandonada, enquanto milhares precisam de habitação adequada.
Principais tópicos abordados:
1. Ocupação de terreno público por famílias sem moradia adequada.
2. Crítica à paralisia do projeto "Cidade da Copa" e à falta de políticas habitacionais.
3. Organização e demandas dos movimentos sociais por negociação com o Estado.
4. Denúncia da vulnerabilidade das famílias em áreas de risco e do abandono do poder público.
Cerca de 200 famílias estão ocupando um terreno próximo ao estádio Arena de Pernambuco, às margens da rodovia PE-408, no município de São Lourenço da Mata, na região metropolitana do Recife. A área em questão é pública e pertence ao Estado de Pernambuco, sendo ela uma parte das terras onde se planejou erguer a “Cidade da Copa”, projeto ousado de bairro planejado e aberto que seria erguido no entorno do estádio de futebol. Anunciado pelo então governador Eduardo Campos em 2009, o bairro tinha primeira etapa prevista para 2014 e conclusão estimada para 2025. Mas nunca saiu do papel.
As centenas de pessoas presentes, sendo em sua maioria mulheres e contando com diversas crianças, chegam majoritariamente de outros bairros periféricos de São Lourenço da Mata, mas também há famílias de Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes e do Recife. São famílias de baixa renda, quase todas beneficiárias do Bolsa Família, que hoje vivem “de favor” em casas de familiares ou pagam aluguéis que não cabem nos seus orçamentos e, mesmo assim, vivem em áreas de risco, enfrentando o medo dos deslizamentos de terra ou das cheias de rios nos períodos de chuva como o que se inicia.
“Muitas destas famílias que estão aqui foram atingidas por aquelas chuvas de 2022, que mataram mais de 100 pessoas aqui na região metropolitana, além de deixar desabrigados e desalojados. E ninguém foi contemplado com projetos de habitação”, conta Adalberto da Silva, dirigente do MST e uma das lideranças da ocupação, em conversa com o Brasil de Fato. A ocupação é organizada de forma conjunta pelos movimentos Sem Terra (MST), de Luta Popular (MLP) e pelo Movimento Urbano dos Trabalhadores Sem Teto (MUST).
Outra liderança, Maria do Carmo, militante do MLP, explica ao Brasil de Fato que aquelas “são gente que não tem onde ficar, alguns vivem na beira do rio”. “Queremos chamar atenção do prefeito [Vinícius Labanca, do PSB], da governadora [Raquel Lyra, do PSD] e do Ministério Público. Queremos tirar essas pessoas das áreas de risco, porque as chuvas estão chegando”, alerta do Carmo. “E esse espaço aqui estava abandonado, sendo usado para desmanche de carros [roubados], mas nem prefeito e nem governadora fazem nada”, reclama ela em conversa com o BdF.
Adalberto conta que, além das 200 famílias no local, ele possui um cadastro de aproximadamente 1,6 mil famílias, majoritariamente de São Lourenço da Mata, que vivem na mesma situação de precariedade e risco, precisando de moradia adequada. “Aqui em São Lourenço nem existe Secretaria de Habitação, então a prefeitura nunca trouxe um Minha Casa Minha Vida. [O prefeito] Vinícius Labanca nunca construiu uma casa, nem um banheiro para a população. E nós não podemos aceitar esse ‘Estado mínimo’ para o nosso povo”, disparou a liderança.
A liderança reafirma que o objetivo da ocupação é abrir diálogo com as autoridades públicas. “Viemos com o intuito de pressionar o governo de Pernambuco, que tem um déficit habitacional de 152 mil moradias. Por isso ocupamos uma terra que é do estado. Queremos fazer negociação. Caso contrário, vamos ter que ocupar mais latifúndios urbanos para mobilizar a sociedade pernambucana e o governo”, disse Adalberto. O conjunto de barracos de madeira e lona, que abriga sonhos de moradia, foi batizado de Ocupação Gildo Guerra, em homenagem a um dirigente sem terra daquela região, falecido em 2025.
Até o momento desta publicação, a única autoridade governamental a visitar a ocupação foi a deputada estadual Rosa Amorim (PT), que possui vínculo com o MST e participou de uma das assembleias no primeiro dia da ocupação. “Essa área próxima da Arena virou um cemitério de prédios. Muita casa sem gente, enquanto tem muita gente sem casa. Então é mais do que justo que o estado abra os olhos e tenha disposição política para transformar esse terreno num lugar que seja teto para quem não tem, casa para quem precisa”, opinou a parlamentar.
“Essa área da Cidade da Copa foi pensada para milhares de moradias, não foi?! Então vamos fazer com que cumpra sua função social. E nada se conquista sem luta. Então é muito legítimo o que vocês estão fazendo aqui. Nosso destino não é fome e miséria. E a luta nos trará um futuro melhor, uma casa para cuidar das crianças e ter vida digna.
Atrito com a polícia
Nas primeiras horas após a ocupação, na quinta-feira (5), viaturas policiais se posicionaram no acesso ao terreno e passaram a impedir as pessoas de entrarem no local, mesmo as que já estavam na ocupação e haviam ido à PE-408 eram impedidas. “Nos deixavam sair, mas não deixavam voltar. A gente respeita os profissionais da polícia, mas o papel deles é garantir a segurança pública, não impedir que as famílias lutem pelo direito delas. Não aceitamos a polícia querendo enquadrar e reprimir essas famílias”, se queixou Adalberto ao Brasil de Fato.
Com a chegada da deputada Rosa Amorim ao acampamento, a tensão se reduziu. “Aqui não tem criminoso, só gente lutando para viver com dignidade. Todo mundo pode entrar e sair a hora que quiser”, disse ela às famílias acampadas, que responderam cantando “queremos casa e pão, polícia é para ladrão”. Adalberto considera que “não vai ser dessa forma, reprimindo famílias acampadas, não será assim que o governo vai avançar nas políticas de habitação”, atestou.
Rosa Amorim foi até os policiais, informou que estava em contato com outras autoridades estaduais e pediu colaboração dos profissionais para que não houvesse mais atritos. “O senhor [PM] foi bem grosso com o povo. Acho importante manter a tranquilidade. Todo mundo é trabalhador, lutando por um lugar para morar. Tem um monte de crianças aqui. Então não queremos que haja indisposição e espero a contribuição de vocês nesse sentido”, afirmou. Sendo respondida positivamente pelos policiais presentes.
A reportagem entrou em contato com a prefeitura de São Lourenço da Mata e com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação de Pernambuco (Seduh), deixando o espaço aberto para respostas sobre os temas relativos a esta matéria.
Pernambuco tem déficit de 221 mil moradias
Uma pesquisa da Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades aponta um déficit de 6,2 milhões de moradias no Brasil (o que corresponde a 8,3% das quase 80 milhões de famílias brasileiras). Para chegar a este número, o estudo soma as 3,24 milhões de famílias sem teto, as 1,68 milhões de famílias em habitação precária e as 1,29 milhões que dividem moradia com outras famílias. Desenvolvido em 2022 e divulgado em 2025, o levantamento diagnostica que o elevado valor dos aluguéis é apontado como principal entrave para as famílias que buscam moradia.
A mesma pesquisa Déficit Habitacional no Brasil indica que o déficit habitacional em Pernambuco no início de 2023 era de 221 mil moradias (ou 6,7% das famílias), sendo 143 mil sem teto, 50 mil em coabitação e 26,5 mil em moradias precárias. A região metropolitana do Recife concentra 44% da demanda por residências, com um déficit de 97 mil moradias (ou 6,8% das famílias), entre as quais 72 mil sem teto. As famílias que precisam de moradia em Pernambuco estão 90% nas áreas urbanas e 10% nas zonas rurais.
A “Cidade (fantasma) da Copa”
No momento em que a Federação Internacional de Futebol de Associação (Fifa), na Suíça, em 2009, confirmou o estado de Pernambuco como uma das sedes brasileiras da Copa do Mundo de 2014, as 20 mil pessoas que lotavam o pátio de eventos de São Lourenço da Mata (um quinto de sua população) explodiram em alegria. A noite de festa contou com show de Alceu Valença e falas de autoridades locais e estaduais. Mais que um estádio, o município sonhava com uma nova posição para si no cenário econômico de região, que seria impulsionado pelo projeto Cidade da Copa.
A previsão de investimento era de quase R$ 2 bilhões, que em valores atualizados, após 16 anos, equivalem a R$ 4,92 bilhões. O terreno de 240 hectares teria 7 mil residências, escolas, um campus universitário, uma escola, hotéis, museu, teatro, um ginásio esportivo, escritórios comerciais e um centro de convenções. O Governo de Pernambuco cedia o terreno para a construtora Odebrecht (que mudou o nome para Novonor), vencedora da licitação, “realizasse o sonho”, cuja primeira etapa deveria ser entregue em 2014 e a última em 2025.
O sonho não durou. Com pouco tempo e muitos eufemismos, a Odebrecht afirmava que aquele bairro planejado não traria o retorno financeiro desejado pela construtora, sendo “economicamente inviável”. Nada daquilo foi construído. Só existe o estádio, visto por torcedores pernambucanos como “no meio do nada”, num território que carece de infraestrutura urbana e mesmo de transporte. Dragada pelas investigações da Operação Lava-Jato, a construtora desistiu também da gestão da Arena, que luta para não ser deficitária e hoje é gerida pelo Governo de Pernambuco.