Resumo objetivo:
A administração Trump enfrenta dificuldades para justificar a guerra contra o Irã, enfrentando críticas internas mesmo de sua base política e aliados. As alegações sobre o programa nuclear iraniano são contestadas por organismos internacionais, e há preocupações com o impacto econômico (como alta nos preços da energia) e político, especialmente em ano eleitoral. A retórica oficial evita definir claramente os objetivos do conflito, enquanto o Pentágono tenta, sem sucesso, acalmar temores sobre uma guerra prolongada.
Principais tópicos abordados:
1. Críticas internas e políticas: Dificuldade do governo em convencer a opinião pública e aliados, incluindo questionamentos da base MAGA e de influenciadores conservadores.
2. Justificativas contestadas: Alegações frágeis sobre o programa nuclear iraniano, desmentidas pela AIEA e por autoridades iranianas.
3. Preocupações econômicas e eleitorais: Temor de impacto nos preços da energia e desgaste político em ano de eleições.
4. Narrativa oficial contraditória: Tentativas de definir o conflito como limitado, contrastando com declarações inconsistentes de Trump e a realidade de baixas militares.
Trump enfrenta dificuldades para justificar guerra contra Irã
Temor em relação aos preços da energia, incertezas quanto à duração do conclave e frágeis alegações sobre armas nucleares geram críticas até no campo político do republicano
A Casa Branca enfrenta dificuldades crescentes para convencer a opinião pública e até os seus aliados políticos sobre as razões da guerra iniciada contra o Irã, em conjunto com Israel, no sábado passado (28/02). Reportagem publicada no Público observa que, em sua retórica, os altos funcionários do governo Trump afirmam muito mais o que o conflito não seria, do que ele realmente é.
“Não seria uma repetição da guerra do Iraque, não seria uma intervenção prolongada e tampouco uma ‘guerra de escolha’”, aponta o texto, observando que as declarações do presidente norte-americano contradizem essas tentativas.
Trump afirmou, em diferentes momentos, que o conflito poderia terminar em poucos dias, em poucas semanas e até mesmo que guerras podem ser travadas “para sempre”.
Nos bastidores, aponta a reportagem, os republicanos alinhados ao presidente também demonstram preocupações com o impacto político da operação, que já levou à morte de seis militares norte-americanos.
“Eu não coloco uma linha do tempo, faço uma contagem de corpos”, afirmou um ex-funcionário do governo ao veículo. “Essa é uma narrativa na mídia que corrói como as pessoas se sentem em relação a essa guerra.”
Base do MAGA
Segundo Político, parte da base da coalizão Make America Great Again (MAGA) já manifestou críticas em relação à guerra, manifestando o temor de que o conflito contradiga a promessa central da campanha de Trump, em 2024: evitar novos envolvimentos militares que consumam recursos e vidas americanas.
Tucker Carlson, Megyn Kelly e Matt Walsh, analistas conservadores e influentes já começaram a questionar publicamente a ofensiva, cobrando uma justificativa clara do governo Trump.
Na avaliação do estrategista republicano Matthew Bartlett, que atuou no primeiro mandato de Trump, o apoio da base conservadora pode enfraquecer caso o conflito se prolongue. Ao jornal, ele destacou que “uma parte significativa, senão a maioria, da base estará com ele independentemente do que faça”, mas há questões legítimas que estão vindo à toda.
O impacto econômico é um dos principais senões da base MAGA. Eles temem uma escalada prolongada na região, o que levaria ao aumento nos preços da gasolina, em pleno ano das eleições de meio período, as chamadas “midterms”.
Respostas do Pentágono
Autoridades do Pentágono tentam responder às críticas, em vão. Em audiência no Senado, o chefe de políticas do Departamento de Defesa, Elbridge Colby, afirmou que a campanha militar teria escopo limitado e não envolveria ocupação ou reconstrução do país. “Isso certamente não é construção nacional” e “não vai ser interminável”, afirmou ao Comitê de Serviços Armados.
Integrantes do governo também buscam reforçar a narrativa de que a ofensiva ocorreu após fracassarem tentativas diplomáticas, o que as autoridades iranianas e a reiteradas declarações de diversos países, rodada após rodada, desmentem.
Armas nucleares
As autoridades norte-americanas alegam que as negociações, conduzidas pelos enviados de paz Steve Witkoff e Jared Kushner, não avançaram porque o Irã estaria negociando apenas para ganhar tempo e preservar seu programa nuclear, afirmando que Teerã estaria próximo de adquirir capacidade para produzir uma arma nuclear.
Contudo, o principal órgão de monitoramento nuclear das Nações Unidas, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) já afirmou não haver evidências disso. A alegação também é desmentida pelas várias declarações das autoridades iranianas após as negociações.
No Congresso, os democratas tentaram aprovar um dispositivo que limitaria os poderes de Trump, dando fim à guerra. Os republicanos, no entanto, derrubaram a iniciativa no Senado.
Para o diplomata Elliott Abrams, ex-representante dos Estados Unidos no Irã no primeiro mandato de Trump, ele irá “precisar do apoio público se isso continuar além da próxima semana e houver muitas vítimas”. Em sua avaliação, Trump “deve estar trabalhando nisso agora”.