O conflito com o Irã interrompeu significativamente o fornecimento global de petróleo e gás, devido a ataques a infraestruturas energéticas e ao fechamento do crucial Estreito de Ormuz. Como resultado, os preços do petróleo dispararam, pressionando os custos dos combustíveis para consumidores e empresas em todo o mundo. Mesmo com um fim rápido da guerra, a normalização da oferta e dos preços pode levar semanas ou meses, devido aos danos físicos e às paralisações operacionais.
Principais tópicos abordados:
1. Impacto na oferta e nos preços da energia: Interrupção de até 1/5 do fornecimento global, fechamento do Estreito de Ormuz, aumento de 24% no preço do petróleo e esgotamento de estoques.
2. Danos à infraestrutura e logística: Ataques a refinarias, terminais e navios, com paralisações forçadas e necessidade de reparos de longa duração.
3. Consequências econômicas e políticas: Ameaça à economia global e risco político para o governo dos EUA às vésperas das eleições, devido à alta nos preços da energia.
4. Perspectiva de recuperação lenta: A volta aos níveis normais de produção e fornecimento é avaliada como um processo que levará semanas ou meses, independente do fim imediato do conflito.
A guerra com o Irã pode deixar consumidores e empresas em todo o mundo enfrentando semanas ou meses de preços mais altos de combustÃveis, mesmo que o conflito, que já dura uma semana, termine rapidamente, enquanto os fornecedores lidam com instalações danificadas, logÃstica interrompida e riscos elevados para o transporte marÃtimo.
O cenário representa uma ameaça econômica global mais ampla, bem como uma vulnerabilidade polÃtica para o presidente dos EUA, Donald Trump, à s vésperas das eleições de meio de mandato, com eleitores sensÃveis à s contas de energia e desfavoráveis ao envolvimento americano em conflitos estrangeiros.
"O mercado está mudando seu foco, deixando de precificar o risco geopolÃtico puro e passando a lidar com a interrupção operacional tangÃvel, à medida que o fechamento de refinarias e as restrições à s exportações começam a prejudicar o processamento de petróleo bruto e os fluxos de suprimento regionais", disseram analistas do JP Morgan em uma nota de pesquisa na sexta-feira.
O conflito já levou à suspensão de cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo bruto e gás natural, uma vez que Teerã ataca navios no crucial Estreito de Ormuz, entre suas costas e Omã, e ataca infraestruturas energéticas em toda a região.
Os preços globais do petróleo subiram 24% esta semana, ultrapassando os US$ 90 por barril, e caminham para os seus maiores ganhos semanais desde o inÃcio da pandemia, elevando os preços dos combustÃveis para os consumidores em todo o mundo.
O fechamento quase total do Estreito significa que os gigantes produtores de petróleo da região âArábia Saudita, Emirados Ãrabes Unidos, Iraque e Kuwaitâ tiveram que suspender os embarques de até 140 milhões de barris de petróleo (o equivalente a cerca de 1,4 dia da demanda global) para refinarias em todo o mundo.
Como resultado, os estoques de petróleo e gás nas instalações do Golfo Pérsico estão se esgotando rapidamente, forçando os campos de petróleo no Iraque a reduzir a produção, e o Kuwait e os Emirados Ãrabes Unidos provavelmente serão os próximos a fazer cortes, disseram analistas, operadores e fontes.
"Em breve, todos também se isolarão se os navios não chegarem", disse uma fonte de uma empresa petrolÃfera estatal da região, que pediu para não ser identificada.
Os campos petrolÃferos forçados a interromper as atividades em todo o Oriente Médio devido à s interrupções no transporte marÃtimo podem levar algum tempo para voltar ao normal, disse Amir Zaman, chefe da equipe comercial das Américas da Rystad Energy.
"O conflito pode ser resolvido, mas isso pode levar dias, semanas ou meses, dependendo do tipo de campo, da idade do campo e do tipo de paralisação que tiveram que fazer antes que a produção possa voltar ao nÃvel anterior", disse ele.
Entretanto, as forças iranianas estão atacando a infraestrutura energética regional âincluindo refinarias e terminaisâ, forçando-os a interromper suas atividades, com algumas dessas operações gravemente danificadas pelos ataques e necessitando de reparos.
O Catar declarou força maior em suas enormes exportações de gás na quarta-feira (4), após ataques de drones iranianos, e pode levar pelo menos um mês para retornar aos nÃveis normais de produção, disseram fontes à Reuters. O Catar fornece 20% do GNL mundial.
A gigantesca refinaria e terminal de exportação de petróleo bruto de Ras Tanura, da Saudi Aramco, também foi fechada devido aos ataques, sem detalhes sobre os danos.
A Casa Branca justificou o ataque ao Irã dizendo que o paÃs representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos , embora não tenha fornecido detalhes. Trump também afirmou estar preocupado com os esforços do Irã para obter uma arma nuclear.
PERIGO NO ESTREITO
Um fim rápido da guerra acalmaria os mercados. Mas o retorno aos nÃveis de oferta e preços pré-guerra poderia levar semanas ou meses, dependendo da extensão dos danos à infraestrutura e ao transporte marÃtimo.
"Considerando os danos fÃsicos causados pelos ataques iranianos, até agora não vimos nada que possa ser considerado estrutural, embora o risco permaneça enquanto a guerra continuar", disse Joel Hancock, analista de energia da Natixis CIB.
A maior incógnita para o fornecimento de energia é como e quando o Estreito de Ormuz voltará a ser seguro para a navegação. Trump ofereceu escolta naval a petroleiros e prometeu apoio financeiro dos EUA para embarcações na região.
Mas a segurança nas vias navegáveis pode ser ilusória, já que o Irã tem capacidade para sustentar ataques com drones contra embarcações por meses, segundo fontes de inteligência e militares.
O conflito também poderia incentivar os paÃses a reforçarem suas reservas estratégicas de petróleo nas semanas e meses seguintes ao seu término, ao expor os perigos de estoques insuficientes. Isso aumentaria a demanda por petróleo e sustentaria os preços.
RISCO ECONÃMICO E POLÃTICO GLOBAL
Entretanto, a interrupção no fornecimento de energia está repercutindo nas cadeias de suprimentos e nas economias da Ãsia, região dependente de importações que obtém 60% do seu petróleo bruto do Oriente Médio.
Na Ãndia, a refinaria estatal Mangalore Refinery and Petrochemicals declarou força maior para as cargas de exportação de gasolina, segundo fontes, juntando-se a um número crescente de refinarias na região que não conseguem cumprir contratos de venda devido à falta de abastecimento.
Pelo menos duas refinarias na China reduziram a produção. A China, um grande fornecedor da região, pediu à s refinarias que suspendessem as exportações de combustÃvel. A Tailândia também suspendeu as exportações, enquanto o Vietnã interrompeu os embarques de petróleo bruto.
A crise impulsionou os negócios da Rússia. Os preços do petróleo bruto russo subiram depois que os EUA concederam à s refinarias indianas uma isenção de 30 dias para comprar petróleo bruto russo e substituir o fornecimento perdido do Oriente Médio. Washington pressionou a Ãndia a reduzir as importações de petróleo russo sob a ameaça de tarifas.
No Japão, o segundo maior importador mundial de GNL, os contratos futuros de energia de base para Tóquio, referentes ao ano fiscal que começa em abril, subiram mais de um terço esta semana na Bolsa local, em antecipação ao aumento dos preços dos combustÃveis. Já em Seul, na Coreia do Sul, motoristas formaram filas em postos de gasolina, também prevendo alta nos preços dos combustÃveis.
COMO FICA A EUROPA
Para os consumidores europeus, a crise no fornecimento de gás e os preços mais altos representam um duplo golpe. A região foi a mais afetada pela interrupção no fornecimento de gás devido às sanções às importações de energia russas após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
A Europa recorreu à s importações de GNL para substituir o gás russo armazenado por gasoduto. E agora precisa comprar 180 cargas de GNL a mais do que no ano passado para atingir os nÃveis de armazenamento de gás necessários antes do próximo inverno.
Segundo documento obtido pela Reuters, a União Europeia está examinando impostos sobre energia, tarifas de rede e custos de carbono como possÃveis áreas para medidas de curto prazo a fim de aliviar a pressão sobre as indústrias afetadas pelos altos preços da energia
Bruxelas busca soluções rápidas depois que empresas alertaram que não conseguem competir com rivais na China e nos EUA âmesmo antes da alta desta semana nos preços do petróleo e do gás.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu apresentar opções para os lÃderes da UE considerarem em uma cúpula no dia 19 de março.
"Qualquer proposta de alteração legislativa não terá efeito imediato e uma solução de transição poderá ser necessária para reduzir os preços da energia nos próximos 2 a 5 anos, até que a transição para energias limpas alivie a pressão sobre os preços da energia, como já se observa em algumas regiões", diz o documento, consultado pela Reuters.
Um porta-voz da Comissão não respondeu imediatamente ao pedido de comentário.
ELEIÃÃES NOS EUA
Os riscos de abastecimento para os Estados Unidos são menores, visto que o paÃs se tornou, nos últimos anos, o maior produtor mundial de petróleo e gás. No entanto, os preços do petróleo bruto e dos combustÃveis nos EUA sobem em conjunto com os mercados internacionais de petróleo bruto, de modo que os preços da gasolina e do diesel nos postos de combustÃvel são afetados mesmo que a oferta interna seja abundante.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o preço médio da gasolina no varejo atingiu US$ 3,32 por galão na sexta-feira (6), um aumento de us$ 0,34 em relação à semana anterior. Já o preço do diesel chegou a US$ 4,33 por galão, ante US$ 3,76 por galão na semana passada.
O aumento dos preços da gasolina representa um risco significativo para Trump e seus colegas republicanos, às vésperas das eleições de meio de mandato em novembro.
"Os preços da gasolina têm um forte impacto psicológico", disse Mark Malek, diretor de investimentos da Siebert Financial. "Eles representam o Ãndice da inflação que os consumidores veem todos os dias."