Resumo objetivo:
O Brasil mantém sua postura diplomática histórica de cautela e defesa do diálogo diante do conflito militar entre EUA/Israel e Irã, posicionando-se como uma nação neutra e representante do Sul Global. A análise aponta o enfraquecimento das instituições multilaterais, a incerteza sobre o apoio de parceiros dos BRICS (como China e Rússia) a questões humanitárias, e a instrumentalização da crise pela extrema direita brasileira, que adota uma retórica belicista semelhante à de Israel. O impacto econômico, especialmente no preço do petróleo, dependerá da duração e intensidade do conflito.
Principais tópicos abordados:
1. A posição diplomática do Brasil (neutralidade, defesa do diálogo e representação do Sul Global).
2. A fragilidade das instituições multilaterais e a postura interesseira de potências como China e Rússia.
3. A instrumentalização da crise pela extrema direita brasileira, que adota narrativas belicistas.
4. Os possíveis impactos econômicos do conflito, vinculados à sua duração.
5. O contexto do ataque conjunto de EUA e Israel ao Irã.
Enquanto o mundo acompanha a escalada militar no Oriente Médio após o assassinato do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, por forças dos Estados Unidos e Israel, o Brasil mantém uma posição de cautela e defesa do diálogo — uma postura histórica da diplomacia brasileira, mas que enfrenta desafios crescentes em um cenário de guerra declarada e de enfraquecimento das instituições multilaterais.
“O presidente Lula tem enfatizado a necessidade de um equilíbrio global e criticado o controle das infraestruturas militares pelas potências. É um discurso voltado para o diálogo, que coloca o Brasil como uma nação mais neutra nesse debate — uma postura histórica da nossa diplomacia”, aponta Mayra Goulart, cientista política e professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Goulart destaca o papel do Brasil para além do governo Lula, que está sendo um símbolo do Sul Global, dos povos periféricos, da luta contra uma relação de hegemonia deletéria para esses povos. “A diplomacia brasileira se caracteriza por uma postura de fortalecimento do sistema multilateral. Fomos pioneiros no movimento dos países não alinhados na década de 50, já sinalizamos uma relação de não alinhamento com as potências vigentes.”
Sobre o fato de o Irã ser membro recente dos Brics, a professora analisa as possíveis pressões sobre o Brasil. “China e Rússia são países com postura muito autocentrada nas relações internacionais. Aquilo que não é diretamente do seu interesse comercial não costuma mobilizá-los. Eles não são mobilizados por dinâmicas humanitárias e civilizatórias. Acreditar que vão se manifestar em defesa dos direitos humanos dos iranianos é uma aposta muito incerta.”
Ela ressalta a importância dos países que estão denunciando as violações. “Eles cumprem um papel muito importante: chamar a atenção de que, na relação internacional, não pode ser só o interesse financeiro e econômico mais imediato que impera.”
A extrema direita e a instrumentalização da crise
Goulart analisa a movimentação da extrema direita brasileira diante do conflito. “A extrema direita se apropriou de uma estrutura atribuída a Israel: a retórica de que estamos em ameaça e que diante dela podemos fazer tudo. Temos autorização para vulnerabilizar direitos humanos. É essa narrativa que interessa à extrema direita global, porque será usada para legitimar vulnerabilizações em seus respectivos territórios.”
Ela não se surpreende com manifestações de apoio de figuras como Flávio Bolsonaro à invasão do Irã. “É sob essa retórica que eles funcionam: ‘Estamos em guerra, existe uma ameaça, e essa ameaça justifica tudo, justifica o uso da força’.”
Sobre os efeitos da crise no preço do petróleo, Goulart aponta que a duração do conflito será determinante. “Oscilações bruscas nos valores das commodities certamente terão impacto. A questão é o tamanho desse impacto, diretamente proporcional ao tempo em que esse conflito vai durar de maneira mais agressiva.”
“A invasão da Venezuela é um exemplo menos terrível, mas ainda assim relevante. O potencial conflitivo foi reduzido por interesses comerciais. Colocaram um substituto que aderiu a dinâmicas comerciais mais favoráveis aos Estados Unidos, e isso reduziu o tempo do conflito. Esse é um horizonte para analisar o que está acontecendo no Irã”, exemplifica.
Goulart conclui com uma constatação preocupante. “Essas instituições [multilaterais] são cada vez mais frágeis, uma vez que a grande potência global tem agido no sentido de enfraquecê-las. O desafio do Brasil e do Sul Global é imenso.”
Contexto
Os ataques conjuntos, não provocados e considerados ilegais pelas leis internacionais, dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciados no sábado (27), ocorrem em meio a negociações sobre o programa nuclear iraniano. Apesar do país persa em cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica e se comprometer a usar seu programa nuclear exclusivamente para fins pacíficos, Israel e EUA – ambas potências nucleares – acusam Teerã de secretamente buscar a construção de armas atômicas.
Tel Aviv também acusa o Irã de ser “ameaça existencial” ao país, mas a acusação é rebatida por analistas que argumentam que o governo iraniano se encontra hoje muito enfraquecido pelos ataques de junho de 2025, pelas sanções impostas pelos EUA, protestos internos e o fim do corredor até o Líbano, após a queda de Bashar al-Assad na Síria.
A derrubada do governo em Teerã é objetivo cultivado por Washington e Tel Aviv desde a instalação da República Islâmica, em 1979, que substituiu o regime vassalo do Ocidente e instituiu o governo teocrático nacionalista. Nos primeiros dias de ataques, bombardeios mataram lideranças iranianas, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que governava o país desde 1989.
Terceiro maior produtor de petróleo do mundo, o Irã fechou, após o início das agressões, o Estreito de Ormuz, por onde é escoada a produção de vários países do Golfo. Por lá passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, o que gera temores de uma crise inflacionária internacional. Outro temor, apontado por analistas, é que o conflito se expanda para outros países da região, com consequências imprevisíveis.
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