A cidade de Florença, na Itália, aprovou a proibição de anúncios publicitários de produtos e serviços associados a alto consumo de combustíveis fósseis, como carros a gasolina, companhias aéreas e cruzeiros, em espaços públicos. A medida, motivada pelos impactos climáticos e na saúde causados pelos poluentes, alinha a cidade a um movimento europeu de restrições similares, com cidades como Haia e Amsterdã como referências. Os detalhes e o prazo para a entrada em vigor da regra serão definidos pela prefeitura nos próximos meses.
Principais tópicos abordados:
1. A proibição de publicidade de combustíveis fósseis em Florença.
2. Os motivos ambientais e de saúde pública para a medida.
3. O contexto europeu de cidades que adotaram restrições semelhantes.
4. O processo de regulamentação e os próximos passos para implementação.
Chega de propagandas em pontos de ônibus com imagens de navios de cruzeiro em alto-mar no pôr do sol, de jovens sorridentes em voos low cost ou de famÃlias em férias a bordo de SUVs movidas a gasolina. A cidade de Florença, na Itália, se prepara para colocar em vigor a proibição de anúncios publicitários de produtos e serviços associados a alto consumo de combustÃveis fósseis.
As restrições vão afetar lugares públicos de grande circulação, como paradas do transporte público. Primeira no paÃs, a capital toscana se junta a dezenas de municÃpios europeus que adotaram medidas do tipo nos últimos anos.
A nova regra foi aprovada definitivamente em fevereiro na Câmara de Florença. No texto da moção, os vereadores pedem que a prefeitura vete propagandas de derivados de petróleo, automóveis com motor de combustão interna, companhias aéreas, navios de cruzeiro e "qualquer serviço que possa estar diretamente relacionado a combustÃveis fósseis".
Os detalhes e o prazo para a entrada em vigor da medida devem ser definidos pelo executivo local nos próximos meses. A expectativa é que uma data seja anunciada neste ano.
"Vetar a publicidade de combustÃveis fósseis é um ato importante para não promover escolhas e produtos que fazem mal à saúde", diz à Folha o vereador Giovanni Graziani, engenheiro ambiental e um dos autores da moção. Ele foi eleito pelo partido Aliança Verde e de Esquerda, que faz parte da coalizão que governa Florença.
O motivo de base para a iniciativa, afirma Graziani, são os efeitos danosos do uso de combustÃveis fósseis, tanto globalmente, com emissões de CO2 que levam à s mudanças climáticas, quanto em nÃvel local, com poluentes em partÃculas finas, prejudiciais à saúde.
"Ver todos os dias a propaganda de uma SUV em vez da de um carro elétrico pequeno adequado à cidade influencia as nossas escolhas. Precisamos de uma mudança cultural."
O vereador diz ter sido procurado nos últimos meses por polÃticos de outras cidades italianas, como Gênova, Pádua e Trieste, interessados em replicar a medida. Anúncios publicitários em lugares públicos, como outdoors e banners em pontos de ônibus, costumam ser regulados por prefeituras, por isso as iniciativas têm sido por meio de intervenções municipais.
Para o vereador florentino e grupos ativistas, a principal referência na Europa é a Holanda, onde uma dezena de cidades avançam no tema. Em janeiro de 2025, Haia baniu anúncios de produtos e serviços com alto consumo de combustÃvel fóssil âna mira, também carros, companhias aéreas e cruzeiros.
A regra foi contestada na Justiça por uma associação de agências de viagens, mas a corte deu razão à prefeitura. Desde então, Haia virou exemplo tanto do ponto de vista da ação climática quanto da jurisprudência.
A partir de maio deste ano, Amsterdã será a primeira capital nacional a vetar publicidade ligada a fósseis por meio de lei, instrumento mais eficaz do que uma moção parlamentar. A proibição, que amplia restrições anunciadas em 2020, vale para todo o espaço público ânão só no transporteâ e inclui anúncios de carne.
No Reino Unido, Edimburgo vetou em 2024, além de publicidade em outdoors e pontos de ônibus, o patrocÃnio a eventos de empresas relacionadas a combustÃveis fósseis. Em fevereiro, Portsmouth aderiu à iniciativa e estendeu a proibição a itens de plástico descartáveis e comidas não saudáveis. Restrições estão em debate ou foram adotadas em cidades da Suécia e da Bélgica.
Um dos principais elementos de tração para o movimento foi um discurso, em junho de 2024, de António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Ao anunciar dados alarmantes sobre o aquecimento global, ele chamou a indústria de combustÃveis fósseis de "padrinhos do caos climático" e pediu que suas propagandas fossem banidas.
"Muitos governos limitam ou proÃbem publicidade de produtos que prejudicam a saúde humana, como o tabaco. Peço aos paÃses para fazerem o mesmo com as empresas de combustÃveis fósseis", disse Guterres, pedindo ainda que meios de comunicação e empresas de tecnologia rejeitassem esses anúncios.
A comparação com a indústria do tabaco é frequente entre ativistas. Restrições locais e parciais à publicidade do cigarro começaram nos anos 1960, com foco em anúncios de TV e rádio. Nos Estados Unidos, o veto virou lei federal na década seguinte. Na União Europeia, diretiva de 2003 proibiu propagandas em todo tipo de mÃdia e patrocÃnio de eventos como os Jogos OlÃmpicos. No Brasil, restrições à publicidade do cigarro viraram lei em 1996.
"Ambos são setores econômicos que produzem danos coletivos amplos. Ao mesmo tempo, têm uma comunicação comercial que contribuiu para normalizar o consumo e para torná-lo desejável", diz Chiara Campione, diretora-executiva do Greenpeace Itália, sobre o paralelo entre publicidades do tabaco e de combustÃveis fósseis.
"Quando isso acontece, a regulamentação da propaganda é um instrumento legÃtimo de polÃtica pública."
Além do veto a anúncios em espaços públicos, o Greenpeace combate o patrocÃnio de eventos por empresas ligadas a combustÃveis fósseis. Em fevereiro, o grupo protestou na principal praça de Milão contra o apoio da Eni, maior produtora de petróleo do paÃs, aos Jogos de Inverno.
Para Campione, a transição ecológica tem um componente cultural no qual é preciso atuar com o mesmo empenho da promoção de investimentos e infraestruturas, metas e regras. Medidas como o veto à publicidade fóssil em Florença podem incidir nesse lado menos tangÃvel.
"Remover da nossa área visual mensagens que criam necessidades que não são mais sustentáveis talvez consinta uma transição do imaginário: tornar aspiracional o mundo que queremos, não o mundo que devemos superar", afirma.