O texto faz uma analogia humorística entre a ascensão e queda de impérios históricos e as tendências gastronômicas, usando o tomate seco como exemplo principal. Ele argumenta que o tomate seco, após uma década de domínio nos cardápios, perdeu popularidade não por estar fora de moda, mas devido ao cansaço do público pelo seu uso excessivo. Em contraste, os "dadinhos de tapioca" são apresentados como um sucesso duradouro e versátil, justamente por sua simplicidade e capacidade de adaptação sem arrogância.
Principais tópicos abordados:
1. A transitoriedade do poder e das tendências, comparando impérios históricos a modismos culinários.
2. A análise do ciclo de popularidade do tomate seco e do petit gâteau.
3. A celebração dos "dadinhos de tapioca" como um fenômeno gastronômico bem-sucedido e resiliente.
Cartago caiu diante de AnÃbal, nas Guerras Púnicas, com seu exército cruzando os Alpes montado em elefantes. Os romanos puÃram diante dos godos, dos visigodos, dos normandos, dos germânicos e de outros tÃtulos do Asterix. O Império Bizantino ruiu diante do Império Otomano, que foi desmembrado pelos invasores europeus âos mesmos que interromperam 36 séculos do Império Chinês com ópio, porrada e bomba.
Nenhum domÃnio dura para sempre: não poderia ser diferente com o tomate seco. Após reinar incólume por anos e anos sobre pizzas e canapés, dentro dos sanduÃches, picado em saladas, enfiado em espetinhos com ingredientes os mais variados, foi derrubado exatamente por sua superexposição. Não foi um triunfo tão longo quanto os 36 séculos do Império Chinês, mas deve ter ido ali por volta de 91 até o quê? Noventa e nove? Poxa, quase uma década de glória. à mais do que a maioria de nós, que não somos tomates âembora, vez ou outra, secosâ podemos almejar.
Impérios faziam alianças. Espanha e Portugal com o Tratado de Tordesilhas. Inglaterra, França e outros europeus retalhando a Ãfrica no século 19. O tomate seco era um aliado fortÃssimo da muçarela de búfala, do rosbife e da rúcula. à época, no entanto, parecia que o tomate seco fosse os EUA, o queijo, a carne e a rúcula, sei lá, Inglaterra, França e Bélgica. Pois veja, o tomate seco caiu em desgraça, a muçarela de búfala, o rosbife e a rúcula tão aÃ, fortões âembora não sejam mais vistos juntos tão amiúde. (Teria o rosbife acusado a muçarela de romper algum Tratado de Tordesilhas, invadindo áreas da carne com entradas e bandeiras de queijo derretido? E a rúcula? Onde entra, ou melhor, onde sai nisso tudo?).
Eu disse mais acima que o tomate seco havia sido derrubado por sua superexposição, mas acho que me enganei. Não foi um problema de relações públicas. Ele não saiu de moda, não ficou brega, nós é que enjoamos depois de uma década em todas as refeições.
à diferente, por exemplo, do petit gâteau. Esse é um rico decadente, que vive das glórias do passado. Chegou metendo banca, com nome francês, espraiando sua vaidade por todo o prato, não respeitando nem os limites da bola de sorvete. Achava-se uma espécie de "Transformer" culinário, "olha, sou bolo, mas, voilà , também sou calda". Tinha o rei na barriga. Rei morto. Rei posto.
à aà que chegamos aonde eu queria, aos dadinhos de tapioca. Seria errado comparar seu sucesso tão longevo (mais de duas décadas) ao poder imperial do tomate seco ou do petit gâteau, pois os dadinhos de tapioca nunca almejaram dominar ninguém, nem se fazer de sofisticados âo que vem a ser, claro, o suprassumo da sofisticação. Pequenininhos, discretos, foram se espalhando pelo paÃs, como migrantes. Como migrantes, adaptam-se a cada lugar em que chegam. Aqui recebem geleia, ali uma carne seca, acolá, requeijão. Os dadinhos de tapioca subiram na vida, mas não ficaram bestas. Hoje não fazem feio num casamento chique nem parecem exagerados num botequim.
Eu poderia fechar essa crônica numa guinada mezzo populista, mezzo panfletária, falando dos EUA, do Irã, do ICE, do Trump, dava até pra meter um Vorcaro e suas relações espúrias com Executivo, Legislativo e Judiciário, mas não o farei. Os dadinhos de tapioca aceitam infinitas coberturas, mas não a cobertura polÃtica. Fiquemos, ao menos por uns instantes, apenas com a fécula da mandioca, o queijo coalho, leite, sal e pimenta branca. O resto é silêncio.