Resumo objetivo:
O artigo descreve a evolução das velas, de objetos funcionais e sem aroma para produtos de luxo com aromas cada vez mais complexos e narrativos, chegando a exemplos extremos como velas com cheiros íntimos. Apesar do autor considerar absurda a tendência, ele observa que o interesse persiste e evoluiu para o desejo das pessoas de produzirem suas próprias velas, algo que ele critica por considerar um processo circular e não uma produção genuína.
Principais tópicos abordados:
1. A evolução histórica e a crescente sofisticação (e excentricidade) dos aromas das velas.
2. A crítica à tendência atual de "produção caseira" de velas, vista pelo autor como um processo ilógico e desnecessário.
3. Um tom de crítica social e ironia sobre o consumismo e as modas contemporâneas.
Quando eu era pequeno, as velas não cheiravam a nada. Tinham duas funções: fornecer um pouco de iluminação quando faltava a eletricidade; dar ao aniversariante alguma coisa para apagar. Eram meros cilindros de cera, maiores ou menores de acordo com a necessidade, que não entusiasmavam ninguém.
Depois, apareceram as velas de ambiente, com variadÃssimos aromas. No inÃcio eram aromas simples: limão, lavanda, pinho. Depois, aromas combinados: gengibre e alecrim, sândalo e camomila, chá verde e bergamota. A seguir vieram as velas com cheiros-narrativa: brisa do oceano, folhas de outono, Natal da infância.
Uma pessoa acendia uma vela e de repente estava a ler um romance. Tudo bem. Mas quando a atriz Gwyneth Paltrow começou a comercializar velas que cheiravam à sua vagina, pensei que era o fim. Que o planeta ia cair em si, perceber que tinha exagerado, e voltar às velas brancas e sem cheiro. Enganei-me.
Não só o interesse por velas persiste como, ao que me dizem, as pessoas desejam agora produzir as suas próprias velas. Eu não tenho um impulso para considerar que preciso de velas, quanto mais para achar que devo fazê-las.
à uma aspiração bizarra a vários nÃveis. Primeiro, não há falta de oferta. Num mundo em que é possÃvel adquirir velas com cheiro de torta de maçã, floresta amazônica, roupa lavada, chuva, biblioteca e vagina, custa a crer que haja ainda aromas não contemplados que seja preciso dedicarmo-nos a produzir.
Segundo, fui informado de que o processo de produzir velas consiste no seguinte: comprar velas, derretê-las e gerar novas velas. Ora, não se pode chamar a isto produzir velas. Se eu comprar um carro, o desmanchar todo e voltar a montá-lo, não posso dizer a ninguém que "faço os meus próprios carros". Do ato de produzir uma coisa não pode constar a aquisição dessa mesma coisa. A não ser quando as coisas se reproduzem.
Se eu quiser produzir ovelhas terei, evidentemente, de começar por adquirir um casal de ovelhas. Ora, isso não acontece com as velas, ainda que eu consiga comprar uma com cheiro de vagina e outra com cheiro de pênis.