Resumo objetivo:
A socióloga e pesquisadora Madel Therezinha Luz, falecida em fevereiro, foi uma figura fundamental na sociologia da saúde no Brasil. Seu principal legado foi introduzir e legitimar academicamente o conceito de "racionalidades médicas", o que contribuiu diretamente para a inclusão das Práticas Integrativas e Complementares (PICS) no SUS. Apesar de sua extensa obra, ela declarou que seu trabalho sempre foi guiado pelo sentido de servir ao outro e às necessidades de cuidado.
Principais tópicos abordados:
1. Trajetória pessoal e acadêmica de Madel Therezinha Luz.
2. Seu legado intelectual, em especial a introdução do conceito de "racionalidades médicas".
3. Impacto prático de seu trabalho na saúde pública, através da inclusão das PICS no SUS.
4. Sua motivação e perspectiva pessoal sobre a produção acadêmica, centrada no cuidado ao outro.
Quando tinha 85 anos e contava com mais de dez livros que havia escrito e organizado âalguns dos quais são considerados obras fundamentais na área de sociologia da saúdeâ, Madel Therezinha Luz disse durante uma entrevista, em 2024: "Não tenho orgulho de nada que eu tenha escrito ou produzido".
O comentário não tratava da qualidade, mas do sentido da escrita. "Tudo o que eu faço é pensando no outro", ela disse à Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. "Qual outro? O outro que necessita de você, o outro que precisa de cuidado."
Madel Therezinha Luz nasceu em Belém, no Pará, em 1939. Mudou-se para o Rio de Janeiro antes dos dez anos, com a mãe, o irmão e uma tia.
Educação era a obsessão da famÃlia. Por insistência da mãe, professora, Madel se dedicou a estudar para admissão no colégio Pedro 2º, um dos mais tradicionais do paÃs. Ali aprendeu quatro lÃnguas estrangeiras e deu inÃcio à trajetória que a levaria ao curso de filosofia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Era apaixonada por música a ponto de ouvir rádio escondida à noite, se arriscando a levar bronca por desrespeitar o horário de dormir. Queria tentar uma carreira artÃstica, mas a mãe âque também cantava profissionalmenteâ sonhava para a filha uma grande carreira acadêmica.
Após formar-se em 1962, Madel fez mestrado na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Foi professora durante décadas no Instituto de Medicina Social da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).
Separou-se do marido e pai de seu primeiro filho numa época em que o divórcio nem sequer era previsto em lei. "Era uma mulher muito empoderada, ela não aceitava a ordem de ninguém", conta a filha, Mariana.
Foi após Mariana ficar doente, receber diferentes diagnósticos e ter um tratamento bem-sucedido com homeopatia que Madel passou a estudar as chamadas "racionalidades médicas", termo que ela levou de forma inédita ao debate acadêmico brasileiro.
A partir de seus estudos, as universidades passaram a discutir a medicina moderna, com origem na Europa ocidental, como apenas um entre diferentes conjuntos de práticas médicas âe encarar a medicina tradicional chinesa, a medicina ayurvédica e a homeopatia, por exemplo, como práticas legÃtimas.
Assim, foi um dos nomes fundamentais para a inclusão da oferta de tratamento de Práticas Integrativas e Complementares da Saúde, as Pics, no SUS (Sistema Ãnico de Saúde).
"Não há nenhuma pessoa hoje do campo da saúde coletiva, ou até mesmo da sociologia da saúde, que tratou com tanta genialidade e inovação a ideia das instituições", disse Roseni Pinheiro, que foi orientanda e colega de trabalho em diversas pesquisas.
Escreveu também um romance e um livro de poemas. Nos últimos anos, dedicava-se a teorizar sobre a perda de relações pessoais e coletivas após a pandemia e preocupava-se com os efeitos das redes sociais na educação.
Madel morreu no dia 2 de fevereiro, deixando dois filhos e quatro netos.
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