Resumo objetivo:
O ator John Malkovich, em visita ao Brasil, comparou seu espetáculo teatral "The Infamous Ramírez Hoffman" com o filme brasileiro "O Agente Secreto", notando que ambos exploram temas de poder e perseguição a dissidentes. Ele destacou seu interesse recorrente por figuras autoritárias em seus projetos, relacionando o narcisismo desses personagens com o comportamento atual nas redes sociais. Malkovich também expressou atração pela rica história e literatura da América do Sul.
Principais tópicos abordados:
1. A comparação feita por Malkovich entre o filme brasileiro "O Agente Secreto" e seu próprio espetáculo teatral.
2. A exploração de temas como autoritarismo, abuso de poder e perseguição política nas obras em discussão.
3. O interesse artístico recorrente de Malkovich por figuras e regimes autoritários.
4. A atração e o apreço do ator pela história e pela produção literária da América do Sul.
Entre os preparativos para sua viagem ao Brasil, John Malkovich conseguiu um tempo para ver "O Agente Secreto", filme brasileiro que concorre a quatro categorias no Oscar de 2026, incluindo a de melhor filme.
Ãs vésperas de apresentar "The Infamous RamÃrez Hoffman", espetáculo baseado em um conto do chileno Roberto Bolaño que desembarca no Theatro Municipal do Rio e na Sala São Paulo no final de março, o ator compara o projeto de Kleber Mendonça Filho com sua atração. A peça une monólogo e concerto musical e ironiza um autor fictÃcio, ligado à direita, e defensor da arte como passe livre para faltar com a moral.
"Acredito que o filme é uma espécie de primo distante da minha apresentação. Armando [personagem de Wagner Moura] poderia ser um dos homens na mira de RamÃrez Hoffman", diz Malkovich à Folha, logo após elogiar a atuação do protagonista. Na trama de Mendonça Filho, Moura vive um professor de universidade pública que decide fugir para o Recife após desagradar um empresário perigoso.
Ambientado no Brasil da ditadura militar, o filme retrata um perÃodo de centralização do poder, ferramenta de domÃnio com a qual o trabalho de Malkovich flerta com certa frequência âembora ele já tenha dito, em variadas ocasiões, não se enxergar como figura de postura polÃtica. Reconhecido pelos muitos vilões que já viveu no cinema, o ator tem "Guerrilha Sem Face" como único longa que dirigiu na carreira, projeto sobre um policial sul-americano que caça um lÃder revolucionário em meio a um governo instável.
Mais de uma década depois, o ator subiu ao palco com "Just Call Me God", um de seus vários projetos que investigam o caráter de figuras autoritárias. Em cena, ele encarna um ditador, prestes a ser deposto, que expurga uma série de desejos e flerta com a vontade de ser considerado uma divindade.
Ele traça um paralelo entre o narcisismo desses personagens, incapazes de aceitar opiniões diferentes das suas, e aquele gerado, hoje, pelas redes sociais. "As pessoas andam dizendo muitas coisas sem pensar. Tudo se resume a uma lógica de 'eu sinto raiva, eu sinto isso ou aquilo'".
"O final de 'O Agente Secreto' é chocante. Os dominantes decidem acabar com aquele personagem só porque ele não via o mundo da mesma forma que eles."
Sobre o seu interesse pela América do Sul, ele cita a literatura da região, marcada por figuras como Bolaño e Mario Vargas Llosa, e a vontade de conhecê-la cada vez melhor. "Sou atraÃdo por ela por não ter crescido lá. A história parece ter se esquecido que esse já foi o "novo mundo", e muitos insistem em separá-la da América do Norte. à um lugar com histórias muito ricas e cujos autores parecem ter criado outro planeta."