Resumo objetivo:
O artigo descreve um cenário de conflito escalado entre EUA, Israel e Irã, iniciado por um ataque conjunto autorizado por Trump que matou o líder iraniano Khamenei durante negociações. A ação militar, aparentemente contraditória aos interesses de Trump em evitar guerras e controlar a inflação, é analisada como uma resposta a pressões políticas internas e à perda de governabilidade, além de manobras estratégicas de Israel. O resultado foi uma resposta violenta do Irã contra alvos israelenses e americanos, gerando um cenário de caos sem desfecho definido.
Principais tópicos abordados:
1. Conflito geopolítico: A escalada militar entre EUA, Israel e Irã, com ataques recíprocos e o assassinato do aiatolá Khamenei.
2. Dinâmicas políticas internas dos EUA: As pressões sobre Trump, seu temor quanto a inflação e juros, e a influência de neoconservadores e o caso Epstein em sua decisão belicista.
3. Interesses estratégicos e econômicos: O impacto nos preços do petróleo, a relação com a bolha da Inteligência Artificial e os objetivos de Israel em envolver os EUA.
4. Falência diplomática: As negociações fracassadas e exigências unilaterais dos EUA ao Irã, sem contrapartidas de segurança.
O caos Trump, Irã e o tabuleiro global
O conflito entre EUA, Israel e Irã reflete tensões políticas internas em Washington e disputas globais envolvendo China e petróleo
Uma agressão militar contra o Irã já era prevista há tempos, tomando corpo nos últimos anos. A guerra dos 12 dias, no último mês de junho, foi um ensaio disso: na medida em que os iranianos não cruzaram a linha vermelha de uma guerra, Israel tratou de iniciar um ataque ao país, para envolver os Estados Unidos – que entraram no conflito, mas saíram rapidamente depois de um ataque às centrais nucleares iranianas, com Trump clamando vitória.
Caso raro na História, as três partes envolvidas se declararam vencedoras, embora só os iranianos tenham saído às ruas para comemorar. De lá para cá, Israel passou os últimos meses tecendo uma retomada das hostilidades contra Teerã, enquanto Trump fazia exigências absurdas para os iranianos – levando-os para a armadilha de negociações feitas para não chegar a lugar algum.
Sem provas de que o Irã estava construindo bombas nucleares, a administração Trump exigia o desmantelamento do programa de mísseis do país, mas não obrigava Israel a dar qualquer garantia de segurança aos iranianos. Paralelamente, a economia do país foi submetida ao caos, e manifestações orquestradas pelo exterior buscavam mudar o regime – o que fracassou em meio a uma quase guerra civil.
No fim, um Trump acovardado e arrastado à guerra por Netanyahu autorizou ataques conjuntos ao Irã, matando o líder do país, o aiatolá Khamenei, enquanto ainda estava à mesa de negociação. O resto, já sabemos: Teerã respondeu à altura atacando Israel e também as bases americanas no Oriente Médio, além de instalações sensíveis – puro caos, com resultados ainda não definidos.
Na China antiga, o filósofo operário Mozi, na compilação canônica de sua obra, comparava a função do governante à do médico, mas lembrava que enquanto o médico tinha por meta determinar a origem da doença que acometia um paciente, o governante deveria determinar a origem do caos. E aqui vamos nós: o que teria motivado uma ação temerária, em relação à qual o próprio Trump tentou se desvencilhar?
Uma guerra (aparentemente) sem sentido para Trump
Levando em consideração todo o seu discurso e mesmo seu primeiro mandato, Trump buscou escapar às guerras. Promoveu, é verdade, o bárbaro assassinato do general iraniano Qasssem Soleimani, mas não escalou para uma guerra. Anos antes, o próprio Trump insinuava que Obama começaria uma guerra no Irã porque não sabia negociar. Quando George Bush filho iniciou a Guerra do Iraque, Trump foi um de seus maiores críticos.
No seu retorno à Casa Branca, Trump se encontra entre a cruz e a espada, mirando uma baixa de juros na marra, enquanto promove medidas inflacionárias como o tarifaço, o bloqueio à mão de obra imigrante, dentre outras desventuras em série. Iniciar uma ação militar no Oriente Médio era visto como algo temerário para os preços do petróleo e, consequentemente, da inflação nos Estados Unidos, inviabilizando seus planos.
Longe de qualquer desenvolvimentismo, a obsessão de Trump com os juros talvez tenha sentido numa tentativa de evitar que a bolha da Inteligência Artificial exploda no seu governo. Menos juros significa mais capital fluindo para a bolsa, especificamente para ações das Big Techs – e assim, talvez, o país cruzasse o cabo da Boa Esperança da fase inicial do desenvolvimento da Inteligência Artificial.
Se a overdose tarifária não ajudou Trump, enfraquecendo o dólar, cogitar uma escalada no Oriente Médio deveria ser a última coisa que ele gostaria de fazer. Mas os últimos meses foram marcados de bombardeios contra o retornado mandatário americano. As revelações do caso Epstein, onde muito provavelmente Trump está envolvido, arrepiaram até o fio de cabelo da cúpula do governo. Mas a derrota do tarifaço na Suprema Corte mostrava mais.
Trump estava sob ameaça e perdendo governabilidade, enquanto parlamentares neoconservadores se tornavam vozes mais fortes. O presidente que poria fim às guerras infinitas do “establishment” se tornou, rapidamente, o orquestrador de uma ação militar de larga escala contra um país com o qual ainda negociava. Isso depois da ação de sequestro de Nicolás Maduro e bombardeio a Caracas.
Uma guerra que faz todo sentido para Netanyahu
Além de todas as variáveis políticas e econômicas, o público americano se mostrou contrário tanto à intervenção na Venezuela quanto à intervenção no Irã. Nenhuma pesquisa ajudava Trump antes, nem depois. Ou seja, quando o custo econômico e político da guerra vier – já há centenas de soldados americanos mortos na resposta iraniana, isso, oficialmente –, tudo será pior avaliado.
Quem tem pesquisas de opinião a seu favor é o eterno premiê israelense Benjamin Netanyahu, cada vez mais poderoso a cada retorno ao poder – dessa vez, não deveria estar, porque vivia às voltas com acusações de corrupção, mas parece ser a única figura capaz de construir e liderar uma coalizão de governo no seu país, que se sustenta se estiver numa guerra permanente.
A agressão contra o Irã é incrivelmente popular em Israel segundo as pesquisas, como o genocídio de Gaza também é. A sociedade israelense se move dessa maneira seja pela ideologia que lhes é imposta goela abaixo desde a escola até, lembrem disso, pela noção de que Israel é um país movido por sua indústria de tecnologia bélica – logo, guerra e prosperidade sempre andaram juntas no país.
Não há, contudo, paralelo com os Estados Unidos, onde desde o começo do século 21 a percepção é que as guerras não trazem mais riqueza como antes. Só os custos sociais, em um país que já não avança como fazia até os anos 1980, a despeito de nunca ter construído um estado de bem-estar social: bem ou mal, o mercado dava conta de incluir os americanos, mas hoje não mais.
Portanto, Trump foi à guerra por Israel, isso é inquestionável. E nisso há uma boa dose de medo e a megalomania: ele espera pelo apoio de todo o lobby sionista dentro dos Estados Unidos para vencer as próximas eleições de meio de mandato – e ainda conseguir um inconstitucional terceiro mandato. Trump está fazendo coisas opostas ao que fazia, sem qualquer ganho imediato. Vejamos isso como um investimento, pois.
As origens do caos
Trump não conseguiu impor essa guerra apenas por sua sociedade macabra com Netanyahu. Há um ponto que parece fazer sentido. Isso pode representar um ganho colateral que valha o sacrifício momentâneo: acertar uma importante fonte de petróleo da China, o que consta, talvez não por acaso, de um relatório recente da Heritage Foundation sobre uma guerra entre as duas potências: Washington deveria “degradar” as fontes de petróleo de Pequim.
Se a Venezuela foi uma ação americana para assombrar governos latino-americanos, também foi para garantir uma fonte de petróleo próxima aos Estados Unidos em um caso de conflagração global. No caso iraniano, é mais importante o petróleo tirado da China do que aquilo que possa vir a ser ganho. Será que os israelenses querem o mal da China? Taticamente sim, embora estrategicamente isso esteja em aberto.
Historicamente, Israel sempre buscou cooptar a China, com Ben Gurion em pessoa fazendo análises acertadas sobre o futuro chinês. Mas o presidente Mao ignorou constantemente esse assédio e se manteve firme enquanto esteve no poder. Isso só mudou nos anos 1990, com Israel fornecendo tecnologia militar para os chineses como prova de boa vontade. Hoje, Israel espera que a China o incluísse no seu jogo de circulação de capitais no Oriente Médio.
A opção chinesa pelo Irã reflete não só a fome do país por petróleo, mas seus interesses em transformar o país em um hub terrestre. Pactuar com Teerã por essa razão implica em concordar com certos pontos de vista iranianos para o Oriente Médio, o que pode não se confundir diretamente com a luta existencial contra Israel, mas significa contrariedade aos Acordos de Abraão e a mudança na logística de exportação de petróleo.
Sim, o Irã não tem nenhum interesse de que oleodutos e gasodutos sejam construídos em massa na península Arábica, desaguando imediatamente no Mediterrâneo, sob o controle ou tutela de Israel – o que tornaria o golfo Pérsico, e o estreito de Ormuz, em peças de museus. A julgar pelo uso do fechamento tático de Ormuz pelos iranianos na atual crise, percebemos bem isso.
Isso também coloca os russos numa encruzilhada, diretamente, e em companhia dos chineses, de quem são sócios em empreitadas como o Brics e a Organização para Cooperação de Xangai. Israel pretende dobrar ambos, enquanto arrasta os Estados Unidos para uma guerra arriscada e custosa no curto prazo, mas que pode servir para fechar caminhos chineses, controlando mais o mercado do petróleo.
A situação, é claro, é a de um evento limite. E pode, realmente, arrastar o mundo para uma Terceira Guerra. Tudo dependerá dos próximos dias e da capacidade de resistência do Irã. Por fim, a questão Palestina, central para toda humanidade, se universalizou de vez de forma concreta com essa guerra – que muitos fingiram que não ia acontecer, de tão insensata que parecia. Mas é justamente por isso que aconteceu.