Resumo objetivo:
Um especialista militar português afirma que os EUA e Israel não estão preparados para um conflito prolongado contra o Irã, que adotou uma estratégia de "guerra de atrito" com ataques calculados de drones e mísseis de baixo custo para desgastar as defesas adversárias. Ele destaca ainda o apoio indireto da China e da Rússia ao Irã, a importância do controle do Estreito de Ormuz na dimensão econômica e a batalha informacional como partes cruciais do conflito.
Principais tópicos abordados:
1. A estratégia militar assimétrica do Irã (guerra de atrito com drones e mísseis baratos).
2. As vulnerabilidades dos EUA e Israel em conflitos prolongados.
3. As dimensões econômica (Estreito de Ormuz) e informacional do conflito.
4. O papel de aliados como China e Rússia no apoio ao Irã.
EUA e Israel não estão preparados para conflito prolongado contra o Irã, afirma especialista Segundo major-general português Agostinho Costa, ‘Ocidente costuma planejar guerras curtas’, enquanto Teerã ‘adota estratégia inspirada em conflitos modernos’ O major-general Agostinho Costa, alto oficial do Exército português e mestre em Relações Internacionais, analisou as capacidades estratégicas do Irã para enfrentar um conflito direto com os Estados Unidos e Israel, descrevendo uma doutrina militar bem definida e preparada ao longo de décadas. O especialista argumenta que o país adotou uma estratégia de “guerra de atrito”, utilizando vagas sucessivas e calculadas de drones e mísseis de baixo custo para esgotar os dispendiosos sistemas de defesa adversários e manter uma pressão constante. Em entrevista a Opera Mundi, o major-general também destacou a precisão dos ataques iranianos, suportada por tecnologias críticas fornecidas por parceiros, como o sistema de satélite chinês BeiDou para vigilância e direcionamento. No que diz respeito à questão econômica, o fechamento do Estreito de Ormuz é apresentado por ele como um fator de desestabilização global, com impactos severos nos mercados energéticos e na segurança do abastecimento europeu. Já no quesito informacional, segundo Costa, a batalha pelas narrativas é crucial, inserindo-se num conflito mais amplo pela apropriação de recursos naturais e pela reconfiguração da ordem global. Agostinho Costa avaliou ainda o papel dos aliados e os riscos de uma escalada. Ele sustenta que o Irã não agiria sozinho, mas com o apoio indireto, porém fundamental, de China e Rússia, que fornecem equipamento avançado e cobertura estratégica, numa dinâmica análoga ao apoio ocidental à Ucrânia. Por fim, faz uma reflexão sobre as implicações para outros países, como Portugal e Brasil, alertando para a necessidade de posturas pragmáticas e de uma reavaliação estratégica num mundo em rápida transformação. Confira a entrevista completa com o major-general Agostinho Costa a Opera Mundi: Opera Mundi: Quais são as reais capacidades do Irã para responder e se defender de ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel? Agostinho Costa: Com base em indicadores e declarações anteriores, tudo indica que o Irã se preparou para este conflito durante anos. Relatos sugerem uma preparação de duas décadas, com o armazenamento de drones e mísseis para travar uma guerra de atrito contra o Ocidente. E o que seria essa “guerra de atrito”? É um tipo de conflito prolongado para o qual os Estados Unidos e Israel não estão preparados. Enquanto o Ocidente costuma planejar guerras curtas, o Irã adotou uma estratégia inspirada em conflitos modernos, como o da Ucrânia, enquanto o Ocidente alargado ainda não percebeu que as guerras já não são nos mesmos moldes de antes. Os iranianos empregam grandes quantidades de meios relativamente baratos (como drones e mísseis), forçando os adversários a gastar recursos desproporcionais, que custam milhões, para neutralizá-los. Essa assimetria de custos beneficia claramente o Irã. Então, a redução no número de mísseis e drones lançados diariamente pelo Irã seria uma estratégia? Sim, é uma estratégia deliberada. Diferente dos ataques massivos anteriores, como no caso da Guerra dos 12 dias, quando observamos vagas enormes de mísseis e o céu carregado de luzes. O Irã agora lança vagas sucessivas e menores. Isso mantém a pressão constante, obrigando as forças israelenses a permanecerem em bunkers e causando danos contínuos, além de esgotar os sistemas de defesa antiaérea inimigos. Quais são as dimensões principais deste conflito? Podemos identificar três dimensões interligadas. Primeiro, a militar. Os ataques iranianos têm sido cirúrgicos, focando em bases militares, embaixadas e infraestrutura estratégica dos Estados Unidos e de Israel, enquanto os mísseis israelenses e americanos atacam escolas e enganam-se nos alvos, destruindo infraestrutura civis. A segunda, é a econômica. O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã está desestabilizando os mercados, elevando os preços do petróleo e do gás e criando uma crise energética na Europa. E a terceira, é a informacional/comunicacional, na qual a batalha pela narrativa e pela percepção pública é fundamental. Além disso, nós não tínhamos dúvidas que esse conflito não é Israel, são os Estados Unidos contra o Ocidente alargado, contra os países do BRICS. A questão central é a apropriação de recursos naturais. Neste momento, os Estados Unidos, com aquela operação em Caracas, teve por objetivo apropriar-se do petróleo venezuelano, e conseguiram. E agora, estavam procurando fazer a mesma coisa, também numa perspectiva, numa certa distopia cognitiva, convencidos de que em quatro ou cinco dias resolviam este conflito, quando já se fala em oito semanas. Já há quem diga que vai até setembro ou outubro. E o Irã avisou que essa seria uma guerra regional, que envolveria todo o Oriente Médio. Alguns analistas afirmam que os erros nos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel podem estar relacionados ao uso excessivo de inteligência artificial por parte de Israel. Na minha opinião, há uma certa tendência de supervalorizar a inteligência artificial, tratando-a como o elemento central e definitivo do novo paradigma da guerra. Então, o apoio da China ao fornecer mapas das bases americanas foi determinante? Exato, graças ao sistema de comando e controle do BeiDou, os iranianos têm agora acesso a uma rede de satélites que lhes permite monitorar o teatro de operações de forma permanente. Em outras palavras, eles têm uma visão precisa e contínua da localização dos aviões, navios e porta-aviões americanos, sabendo de onde partem, para onde decolam e tudo mais. Além disso, vale lembrar que, nas semanas anteriores, os chineses chegaram a publicar imagens de alta resolução das bases americanas na região. Essas imagens, obtidas por fontes abertas, eram tão detalhadas que permitiam identificar o tipo e a quantidade de aviões estacionados, bem como registrar seus movimentos para fora das bases. Então, foi algo crucial. Sem dúvida, este é o maior apoio que a China pode oferecer ao Irã. A rede do sistema BeiDou não serve apenas para observação, mas também para direcionamento de alvos. Essa capacidade permite identificar objetivos e guiar mísseis com precisão. Os mísseis e drones iranianos, por exemplo, já são orientados pelo BeiDou, e não mais pelo sistema russo, o que é muito mais preciso e dá ao Irã liberdade para atacar conforme sua conveniência. Além disso, o ministro da Defesa iraniano, Abbas Araghchi, promoveu uma descentralização das decisões nos comandos regionais. Isso significa que, mesmo que o comando central seja neutralizado, os comandos regionais já possuem suas próprias missões definidas. Claro, há dúvidas se os Estados Unidos conseguiriam tal feito, e é preciso lembrar que o Irã tem dimensões comparáveis às da Europa, o que torna sua defesa aérea dispersa e vulnerável. Também sabemos que aviões americanos e israelenses sobrevoam o território iraniano com certa liberdade. No entanto, mesmo que alcancem supremacia aérea, uma parte significativa dos mísseis iranianos está instalada em veículos civis adaptados, camuflados entre frotas comuns de caminhões. É como se, em nossos países, um caminhoneiro comum retirasse a lona e revelasse um míssil pronto para lançamento. Essa tática dificulta muito a identificação e o ataque preventivo. Hoje o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que essa guerra é da Rússia. Essa postura lembra a dos Estados Unidos em relação à Ucrânia: embora não queiram entrar diretamente na guerra, fornecem apoio integral. Da mesma forma, a China e a Rússia atuam em relação ao Irã como os Estados Unidos e a Europa atuam em relação à Ucrânia, não são participantes diretos, mas indiretos, sustentando a capacidade de ação do país. Sem esse apoio, o Irã não teria condições de conduzir este conflito nem de adotar uma postura de desafio frente aos Estados Unidos. O país tem recebido equipamentos avançados, como helicópteros de última geração, e aguarda os caças Sukhoi Su-35 da Rússia. Além disso, adquiriu aviões J-10 e outros modelos da China, bem como o radar YLC-8B, capaz de detectar aeronaves furtivas como o F-35 americano, o que tem impedido que esses aviões sobrevoem o espaço iraniano. Portanto, embora China e Rússia evitem uma entrada direta no conflito, suas declarações políticas não refletem a realidade prática. No plano concreto, o que está em jogo é uma guerra pela apropriação de recursos, travada entre uma potência em declínio e outra em ascensão. Diante da extensão territorial do Irã, o uso de forças curdas pelos Estados Unidos em uma possível invasão terrestre representaria uma ameaça real aos iranianos? Sim, representaria. No entanto, o alcance dessa ameaça é limitado pela dimensão reduzida das forças curdas. O apoio dos Estados Unidos a esses grupos se restringe basicamente ao fornecimento de espingardas e munição, o que é insuficiente para uma campanha estratégica. A ideia de que um grupo tão limitado poderia ameaçar seriamente um país do tamanho do Irã é pouco realista. A distância entre as regiões curdas e os centros vitais iranianos é de milhares de quilômetros. Seria equivalente a imaginar que uma ação na Amazônia pudesse afetar diretamente Brasília, ou que uma operação na Estônia pudesse ter impacto decisivo em Paris ou Madrid. A escala do território iraniano torna essa possibilidade uma fantasia logística e militar. Voltando à questão econômica, quais são os efeitos imediatos? O fechamento do Estreito de Ormuz está causando forte instabilidade. Os impactos são diretos nas bolsas de valores. Há um desequilíbrio generalizado nos preços do petróleo e do gás, os custos disparam. Já no fornecimento de gás à Europa, há uma crise de abastecimento. O Catar, por exemplo, interrompeu a produção e a distribuição. O Iraque, com seus depósitos cheios, não consegue escoar sua produção. A Arábia Saudita, mesmo com um oleoduto para o Mar Vermelho, não tem capacidade suficiente para compensar. Isso força a Europa a retomar o diálogo com a Rússia? A Europa está em “modo de pânico”. A situação expôs a vulnerabilidade de seu plano de independência energética. O GNL (gás natural liquefeito) americano que a Europa está utilizando custa quatro vezes mais, e o fornecimento do Catar está interrompido. Enquanto isso, Vladimir Putin lembrou que o plano europeu era acabar com o gás russo até 2027, sugerindo que a Rússia poderia antecipar esse corte. E quem se beneficia? Países produtores como Brasil, Angola e a própria Rússia, que lucram com a alta dos preços. A grande questão agora é: a Europa, em pânico, terá que voltar atrás e, simbolicamente, “beijar a mão” de Putin para garantir energia? O desfecho ainda é incerto. Vamos ver. O governo iraniano negou ser o responsável pelo míssil interceptado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no espaço aéreo turco, bem como pelo ataque à base militar no Chipre. Seria possível tratar-se de uma operação de falsa bandeira por parte de Israel e dos Estados Unidos? É uma hipótese bastante plausível. Hoje também ocorreu um ataque em Nakhchivan, no Azerbaijão, o que se alinha com a estratégia dos Estados Unidos de pressionar o Azerbaijão, os curdos e a Turquia. No entanto, sempre que há movimentos de armamento de grupos curdos e riscos de conflito, a Turquia aciona um alerta vermelho, devido à sua histórica preocupação com o Partido dos Trabalhados do Curdistão (PKK, por sua sigla em curdo). Os curdos, por sua vez, muitas vezes acabam sendo instrumentalizados: servem como “carne para canhão” e, nos momentos decisivos, são abandonados, como já ocorreu duas vezes na Síria. Ainda não está confirmado, porém, que os curdos tenham de fato entrado em conflito desta vez. E o Azerbaijão, entraria na guerra? O Azerbaijão dificilmente entraria em um conflito direto com o Irã. As razões são evidentes: o Irã é uma potência regional muito superior. Somado a isso, o Azerbaijão precisa considerar a desconfiança da Rússia, que pode ver uma oportunidade para pressionar o governo de Aliyev no futuro. E, não menos importante, o Irã abriga uma população azeri maior que a do próprio Azerbaijão, um fator geopolítico e estratégico decisivo. Portugal tem permitido o uso da Base das Lajes, nos Açores, para o reabastecimento de aeronaves dos Estados Unidos. Isso representa um risco real de ataque, seja nos Açores ou na Península Ibérica? De forma pragmática, minha posição mudou após os Estados Unidos afundarem uma fragata iraniana fora da zona de guerra, perto do Sri Lanka. Até então, diria que o risco para Portugal era zero: estamos fora do conflito e a Base das Lajes serve apenas para trânsito e reabastecimento, algo que ocorreria noutro local se não fosse aqui. Era um assunto irrelevante. Mas, depois do que os Estados Unidos fizeram ao afundar a fragata, a situação mudou. Isso abriu um precedente, pois constitui um crime de guerra ao violar as Convenções de Genebra de não prestar assistência aos náufragos. Isso dá ao Irã legitimidade para atacar bases americanas em qualquer lugar, incluindo nos Açores. Lembrando que mísseis modernos, como os Javelin, poderiam alvejar aviões ali estacionados. Os Estados Unidos quebraram o princípio de conter o conflito na zona de guerra. Agora, as suas 800 bases pelo mundo tornam-se alvos legítimos. Para Portugal, cuja posição estratégica nos Açores é vital para Washington, o melhor é uma postura discreta. Pode parecer hipócrita, mas é o realismo político necessário. E qual seria a possível retaliação dos Estados Unidos contra a Espanha? Para ser sincero, Donald Trump não pode afirmar que a Espanha é crucial para a segurança nacional dos Estados Unidos. No entanto, ele poderia usar a mesma retórica que aplicou, por exemplo, em relação à Groenlândia ou aos Açores, questionando a contribuição desses aliados e ameaçando retaliações se considerasse que não estão a cumprir as suas obrigações. Mas o acordo entre Portugal e os Estados Unidos obriga os Estados Unidos a informar Portugal antes de utilizar a base em caso de guerra? Estou convencido de que os canais diplomáticos e militares garantem a passagem dessa informação. O verdadeiro problema não é a notificação, mas sim se Portugal terá condições reais de dizer “não” aos Estados Unidos quando for solicitado. Portanto, a postura de Portugal deve ser pragmática, avaliando cuidadosamente as eventuais consequências de qualquer decisão para o interesse nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a opção de não possuir armas nucleares está prevista na Constituição brasileira. Sabemos também que o Brasil, depois da China, é o país com as maiores reservas de terras raras do mundo. Diante desse contexto, você, como militar, enxerga uma ameaça real dos Estados Unidos contra o Brasil em algum momento futuro? Se eu pudesse aconselhar o presidente Lula, e reconheço que ele conta com excelentes assessores e que o pensamento estratégico no Brasil é sólido, meu conselho seria o seguinte: a realidade global não está mudando apenas no plano operacional, mas também, e profundamente, no campo geoestratégico e geopolítico, inclusive na corrida armamentista nuclear. O Brasil deve observar atentamente essa evolução. Por sua dimensão e recursos, o país é naturalmente um alvo de interesse e assédio em um mundo onde a competição por recursos se intensifica. Portanto, a questão nuclear precisa estar na agenda brasileira. Isso é ainda mais crucial considerando que os Estados Unidos historicamente vêm a região como seu “quintal”. Assim como Portugal gerencia a presença da base dos Açores, cuja segurança está ligada à do Brasil, o Brasil precisa definir suas próprias opções estratégicas. Veja o exemplo do Irã: mesmo sem armas nucleares prontas, o país desenvolveu capacidades estratégicas que o tornam um ator relevante e impõem cautela a adversários. Não estou sugerindo que o Brasil deva imediatamente buscar armas nucleares. Mas é imperativo que o país esteja atento e prepare suas respostas. Vivemos um momento de ruptura e reconfiguração profunda da ordem global, como destacou Mark Carney em Davos. A segurança e o bem-estar são as principais preocupações e responsabilidades da administração do Palácio do Planalto.