Resumo objetivo:
O Ministério da Defesa do Catar anunciou que suas Forças Armadas abateram duas aeronaves iranianas e interceptaram mísseis e drones vindos do Irã, que tinham como alvo o território catari. Analistas alertam que os ataques de retaliação iraniana contra bases estadunidenses na região podem expandir o conflito, gerando revolta entre nações árabes e causando vítimas em vários países. Enquanto o Irã afirma estar preparado para uma "guerra longa" em legítima defesa, especialistas da região avaliam que os ataques representam uma escalada sem precedentes e uma questão de soberania para os Estados do Golfo.
Principais tópicos abordados:
1. Ataques aéreos iranianos interceptados pelas defesas do Catar.
2. A escalada do conflito e seu impacto regional, com vítimas em múltiplos países.
3. A posição do Irã, que se declara em guerra defensiva e preparado para um conflito prolongado.
4. A perspectiva dos Estados do Golfo, que veem os ataques como uma ameaça à sua soberania.
O Ministério da Defesa do Catar anunciou nesta segunda-feira (02) que suas Forças Armadas abateram duas aeronaves iranianas e interceptaram diversos mísseis e drones que tinham como alvo o país, disse a agência de notícias estatal do país, a QNA.
Em comunicado, o ministério informou que a Força Aérea Amiri do Catar abateu dois caças Sukhoi Su-24 que vinham do Irã. Acrescentou que as defesas aéreas interceptaram sete mísseis balísticos, enquanto cinco drones foram abatidos pela Força Aérea e pela Marinha Amiri após terem como alvo diversos locais no país.
Segundo o ministério, todos os projéteis foram interceptados antes de atingirem seus alvos. Analistas apontam que, a retaliação iraniana contra alvos estadunidenses no Oriente Médio pode expandir o conflito para toda a região. O Catar é um dos países que hospedam bases militares dos EUA, ao lado de Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Arábia Saudita, Síria, Egito, Egito, Jordânia e Omã.
Apesar de Teerã afirmar não estar em conflito com esses países, e sim com os interesses de EUA e Israel, os ataques vêm gerando revolta entre as nações árabes. Até esta segunda-feira, terceiro dia de hostilidades, foram contabilizados dois mortos no Iraque, três nos Emirados Árabes Unidos, um no Bahrein e no Kwait, além de feridos no Catar e Oman.
Ao menos três militares estadunidenses foram mortos e outros cinco ficaram feridos. Em Israel, o número de mortos chega a 10, com centenas de feridos. Ataques israelenses contra o Líbano — sede do grupo pró-Irã Hezbollah — mataram mais de 30 pessoas.
Capacidade de resistir
O Irã se preparou para uma guerra longa, afirmou nesta segunda o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani.
“O Irã, ao contrário dos Estados Unidos, se preparou para uma guerra longa”, escreveu Larijani na rede social X, no terceiro dia do conflito deflagrado com o ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Em entrevista ao The New York Times, o presidente dos EUA, Donald Trump, havia estimado que a operação contra o Irã durará “quatro ou cinco semanas”.
De acordo com Larijani, o Irã se “defenderá ferozmente” e protegerá sua “civilização de seis mil anos” de antiguidade a qualquer custo.
“Faremos com que nossos inimigos lamentem seu erro de cálculo”, publicou.
“Como nos últimos 300 anos, o Irã não iniciou esta guerra, e nossas valentes Forças Armadas não participaram de ataques, exceto em legítima defesa”, finalizou Larijani.
Visão do Golfo
À Al Jazeera, o professor assistente da Universidade do Kuwait, Bader al-Saif comentou que a liderança do Irã está travando uma guerra de sobrevivência, alertando que essa mentalidade explica seus ataques a países da região do Golfo.
“Essa questão existe desde os primórdios da República Islâmica, e nós conseguimos lidar com ela, às vezes com respostas difíceis da parte deles”, disse ele à emissora com sede no Catar.
“Mas conseguimos lidar com toda a interferência nos assuntos internos dos Estados do Golfo, com as atividades por procuração e com algumas das guerras que ocorreram na época.” No entanto, al-Saif afirmou que o momento atual é diferente. “Chegamos a um ponto em que eles estão elevando a aposta a níveis sem precedentes.”
Para os Estados do Golfo, isso agora é “uma questão de soberania”, e não uma disputa sobre bases dos EUA, disse ele. Al-Saif acrescentou que os líderes do Golfo devem ter “uma visão realista de suas defesas” e reconhecer que o antigo padrão de absorver a pressão e conter as crises “não pode continuar para sempre”.
Contexto
Os ataques conjuntos, não provocados e considerados ilegais pelas leis internacionais, de Estados Unidos e Israel contra o Irã iniciados no sábado (27 de fevereiro) ocorrem em meio a negociações sobre o programa nuclear iraniano. Apesar da predisposição iraniana de cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica e se comprometer a usar seu programa nuclear exclusivamente para fins pacíficos, Israel e EUA — ambas potências nucleares — acusam Teerã de secretamente buscar a construção de armas atômicas.
Tel Aviv também acusa Irã de ser “ameaça existencial” ao país, mas a acusação é rebatida por analistas que argumentam que o governo iraniano se encontra hoje muito enfraquecido pelos ataques de junho de 2025, as sanções impostas pelos EUA, protestos internos e o fim do corredor até o Líbano, após a queda de Assad na Síria.
A derrubada do governo em Teerã é objetivo cultivado por Washington e Tel Aviv desde a instalação da República em 1979, que substituiu o regime vassalo do Ocidente e instituiu a república teocrática nacionalista. Nos primeiros dias de ataques, bombardeios mataram lideranças iranianas, incluindo o supremo líder do país, o aiatolá Ali Khamenei, que governava o país desde 1989.
Terceiro maior produtor de petróleo do mundo, o Irã fechou, após o início das agressões, o Estreito de Ormuz, por onde é escoada a produção de vários países do Golfo. Por lá passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, o que gera temores de uma crise inflacionária internacional. Outro temor, apontado por analistas, é que o conflito se expanda para outros países da região, com consequências imprevisíveis.