Resumo objetivo:
A eleição presidencial de 2026 deverá ser definida por um pequeno segmento do eleitorado (3% a 4%), composto majoritariamente por mulheres que votaram em Lula em 2022 mas hoje desaprovam seu governo. O artigo argumenta que o voto feminino ganhou peso político distinto a partir da década de 2010, sendo mais sensível a posturas percebidas como agressivas ou instáveis e mais orientado por critérios materiais, como a efetividade dos serviços públicos essenciais. No entanto, o eleitorado feminino não é homogêneo, sendo influenciado por fatores como classe, religião e escolaridade, e seu voto não representa um progressismo automático.
Principais tópicos abordados:
1. A importância decisiva do eleitorado feminino não polarizado para a eleição de 2026.
2. A formação de uma clivagem de gênero no comportamento eleitoral brasileiro, intensificada pela polarização, movimentos como #MeToo/Ele Não e a pandemia.
3. As características do julgamento político das mulheres, que tendem a rejeitar mais lideranças agressivas e valorizar estabilidade e entrega de serviços públicos por razões materiais e estruturais.
4. A heterogeneidade do eleitorado feminino, cruzando com outras variáveis como classe e religião, evitando uma leitura ideológica simplista.
A eleição presidencial de 2026 deverá ser definida por cerca de 3 ou 4 pontos percentuais do eleitorado não polarizado, que votou no presidente Lula em 2022, mas hoje desaprova o seu governo. A maioria desse contingente é feminina. Em uma eleição voto a voto como a deste ano, o centro de gravidade estará nas mulheres.
Nem sempre houve diferença relevante entre o voto feminino e o masculino. Durante décadas, o comportamento eleitoral variou mais por renda, escolaridade e região do que por gênero. Essa clivagem ganha peso a partir da década de 2010, quando a polarização se intensifica e o conflito passa a estruturar o debate público.
Levantamentos do W.Lab, núcleo do Ideia Instituto de Pesquisa dedicado ao estudo do eleitorado feminino, mostram que mulheres apresentam nÃveis de rejeição de 10 a 15 pontos percentuais superiores aos dos homens diante de lideranças associadas à agressividade e à instabilidade institucional.
No plano cultural, a partir de 2017, o movimento Me Too elevou o custo simbólico de comportamentos percebidos como abusivos e ampliou a sensibilidade a padrões de respeito e legitimidade na liderança. Isso não produziu uma guinada ideológica automática, mas alterou critérios de avaliação polÃtica. Esse ponto de virada ajuda também a explicar a mobilização que ganhou expressão no movimento brasileiro Ele Não, em 2018, quando as mulheres foram à s ruas sinalizando que determinadas posturas ultrapassavam o limite do aceitável.
A pandemia consolidou essa diferença. A crise sanitária expôs a importância da coordenação estatal e da responsabilidade pública. Ao mesmo tempo, falas consideradas desrespeitosas ou minimizadoras da gravidade da situação ampliaram a rejeição feminina ao então presidente Jair Bolsonaro. O julgamento polÃtico passou a incorporar postura e linguagem, além de resultados administrativos.
à equivocado interpretar esse processo como progressismo automático. O eleitorado feminino brasileiro não é majoritariamente de esquerda na chave ideológica clássica. Gênero não opera isoladamente: cruza-se com classe, religião, território, escolaridade, raça, idade e inserção no mercado de trabalho, produzindo comportamentos complexos e muitas vezes contraditórios. Mulheres pobres e religiosas podem votar de modo distinto de mulheres urbanas e escolarizadas.
Ainda assim, há padrões recorrentes. Em média, mulheres valorizam mais estabilidade institucional, proteção social e serviços públicos ânão por predisposição identitária, mas por posição estrutural. O conservadorismo feminino, frequentemente ignorado, também é decisivo: para muitos segmentos, a ordem moral e religiosa funciona como ativo de proteção simbólica e material, o que limita a ressonância eleitoral de pautas identitárias.
O mesmo fenômeno ocorre no plano internacional, onde o voto feminino passou a ter peso diferente. Vimos isso em eleições recentes nos Estados Unidos, na França e na Polônia, sobretudo entre eleitoras mais jovens.
Em 2026, no Brasil, o critério central será material. Isso pois o eleitorado feminino concentra a administração dos riscos cotidianos. à ela quem sente primeiro a alta no preço dos alimentos, quem reorganiza o orçamento quando a renda aperta, quem depende da escola pública e do posto de saúde para os filhos e idosos, quem calcula a segurança no trajeto diário. Essa exposição produz um padrão de julgamento orientado pela entrega.
Não se trata de pedir mais Estado por ideologia, mas de exigir que ele funcione onde é indispensável.
A disputa de 2026 passa por esse filtro. E as mulheres decidirão não porque o eleitorado é majoritariamente feminino, mas porque elas são a maioria entre o eleitorado que será decisivo âou seja, 3% a 4% do total.
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