Resumo objetivo:
A nova série da Netflix "Brasil 70 – A Saga do Tri" contará com o ator Lucas Agrícolla, de 35 anos, interpretando Pelé. Sua escolha se deu pela notável semelhança física e pelo fato de ele ser ex-jogador de base, passando por intensa preparação que incluiu treinos futebolísticos, pesquisa biográfica e até um encontro com o ex-companheiro de seleção Rivellino. A série focará na trajetória do Rei do Futebol, especialmente na conquista da Copa de 1970.
Principais tópicos abordados:
1. Escolha e preparação do ator Lucas Agrícolla para viver Pelé.
2. Detalhes sobre a série "Brasil 70 – A Saga do Tri" e seu enfoque na Copa de 1970.
3. A importância de retratar com precisão tanto a atuação quanto os movimentos futebolísticos de Pelé.
4. Relatos pessoais e pesquisas realizadas pelo ator para compreender a figura histórica de Pelé.
Ao ver a foto, o susto é imediato. Ao assistir ao vÃdeo, o espanto aumenta. Pode ser confundido com parente ou reencarnação. Até o sotaque de Santa Bárbara dâOeste, no noroeste paulista, se assemelha com o de sul de Minas. Se fosse concurso de sósias do Pelé, Lucas AgrÃcola, 35, teria o pódio garantido. Contudo, sua missão é bem mais complicada: ele dará vida ao Rei do Futebol na nova série da Netflix "Brasil 70 â A Saga do Tri", que estreia em 29 de maio [veja teaser acima].
"Foi como um sonho. No começo eu não estava entendendo muito a dimensão e tudo que eu iria representar. Esse cara é grande mesmo", afirma o ator, que estreia no audiovisual justamente vivendo o maior Ãdolo da história do futebol brasileiro.
Os diretores da produção, Pedro e Paulo Morelli, reafirmaram em entrevistas que a escolha de Lucas foi crucial. Pelé, morto em 2022, tem a trajetória clássica de um herói, que culmina no tricampeonato mundial.
Após a péssima campanha do Brasil na Copa de 1966, o então camisa 10 disse que não voltaria a disputar Mundiais por causa das lesões. Já tinha dois tÃtulos. Acabou repensando a decisão e jogou a Copa de 1970, na qual teve uma das maiores atuações individuais da história: quatro gols e seis assistências em seis partidas.
A produção também precisava de alguém capaz não só de atuar, mas de reproduzir em campo os movimentos de Pelé. Ex-jogador das categorias de base do União Barbarense e hoje frequentador de ligas amadoras, AgrÃcola treinou por dois meses para recriar jogadas históricas do craque âsem saber se havia sido aprovado no teste. Segundo ele, a reprodução das jogadas com os atores âalgo em que filmes e séries categoricamente pecam ao abordar o futebolâ será um dos pontos alto de "Brasil 70".
A preparação ainda incluiu visitas ao Museu Pelé e ao estádio Vila Belmiro, onde o jogador brilhou pelo Santos Futebol Clube. "Tem uma capelinha dentro do vestiário. Eu pedi para o motorista, que estava atrás de mim, dar licença e fiz minhas orações ali. Pedi essa bênção para ele [Pelé]."
O ator até foi convidado pelo ex-meia Roberto Rivellino, companheiro de Pelé na conquista da Copa de 1970, para um churrasco. "Ele me contou coisas que os livros e as imagens não mostram. Pelé foi um cara que sofreu muito, porque não carregava só o futebol. Foi alguém muito usado", diz. A experiencia foi forte o suficiente para transformá-lo de são-paulino em santista.
Na entrevista a seguir, Lucas AgrÃcola fala sobre se o Rei do Futebol poderia ter se posicionado mais durante a ditadura e na defesa da população negra, sua relação com o esporte e a comparação que faz entre Pelé e o atual camisa 10 da seleção. "Vejo muita gente criticando o Neymar. Mas tenho fé de que pode acontecer com ele o que aconteceu com o Pelé. O Neymar é o nosso Pelé de hoje."
PREPARAÃÃO PARA O PAPEL
O senhor tinha alguma ligação com o personagem antes da série?
Quando eu era criança, na minha cidade, muita gente me chamava de Pelé. Depois parei de ouvir isso porque mudei o cabelo e tal. Mas quando comecei o processo seletivo para a série e fiz um corte parecido com o dele, o pessoal voltou a falar.
Como foi a preparação para viver um personagem tão conhecido?
Primeiro de tudo, eu pedi para o pessoal me levar no Museu Pelé e na Vila Belmiro. Eu queria pedir a bênção para ele [Pelé]. Foi uma coisa muito forte para mim. Depois fiquei tranquilo para representá-lo. Aà comecei a ler todas as biografias que encontrei e a pesquisar os jogadores que atuaram com ele. No fim das gravações, o Rivellino me chamou para ir à casa dele. Foi fechar com chave de ouro.
Como foi na casa do Rivellino?
Acho que muita gente queria estar no meu lugar. Ele sempre esteve muito próximo do Pelé. Ali pude tirar dúvidas que os livros e as imagens não mostram. Ele, de coração aberto, me falou tudo o que sentia sobre o Pelé. Se emocionou, inclusive.
E que Pelé é esse que os livros não mostram?
Todo atleta, antes de se profissionalizar, deveria conhecer a história dele. Pelé sofreu muito. Carregava muito mais do que o futebol nas costas. Era um cara pressionado e muito usado. E, mesmo assim, jogava um futebol absurdo. A gente tentava reproduzir algumas coisas e não acreditava. SabÃamos que ele era bom, mas não imaginávamos que era tanto.
PELÃ NA DITADURA
O Pelé nunca foi um consenso. Sua neutralidade durante a ditadura militar é ainda mais alvo de crÃticas. O senhor acha que ele consentiu com o regime?
Ele foi muito usado, né? O próprio João Havelange [ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos] usou muito ele. Abordamos isso na série. Claro, ele era uma pessoa de ficar mais na dele. E eu entendo ele. Estávamos vivendo a ditadura, ninguém sabia o que podia acontecer. Imagina, um cara preto e pobre que, ao mesmo tempo, tinha amizade com o presidente. Como que fica isso? Para que lado você vai? Acho que ele fez a coisa certa de ser um cara mais neutro.
No documentário "Pelé", de 2021, o ex-atleta afirmou: "Se eu disser que não sabia [que existiam torturas], estaria mentindo". Pelo tamanho e influencia que tinha, o senhor não acha que ele poderia ter feito mais? Não vivi a ditadura. Quem garante que ele não ia sumir? Quem garante que não iam fazer nada com a famÃlia dele? Não tem como saber. Na questão racial, acho que ele poderia ter se posicionado um pouquinho mais, mas contra a ditadura, acho que fica difÃcil. Ele sabia do tamanho dele, mas não era bobo, né? Ficava mais neutro mesmo, porque não tinha essa garantia.
NEYMAR E PELÃ
O Brasil maltrata seus Ãdolos?
Acho que temos essa sÃndrome de vira-lata. Isso acontece com o Neymar. Quando ele expõe uma opinião polÃtica, muita gente mistura isso com o futebol. Para mim, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ele ainda é a nossa esperança de trazer outra Copa. Hoje, você vai comprar a camisa de quem? à parecido com o que aconteceu com o Pelé. Muita gente não dá a devida dimensão ao que ele fez pelo Brasil âmais do que muitos polÃticos, inclusive. Talvez isso comece a mudar agora. O pai do Neymar comprou a marca Pelé e parece estar trabalhando bastante com ela. Quem sabe isso ajude a resgatar um pouco desse reconhecimento.
A compra da marca Pelé afetou o senhor ou a série?
Não sei. Eu tenho uma boa relação com a galera do Santos. Eles me chamam para assistir aos jogos de camarote. Fiquei super feliz que ele comprou. Acho que tá em boas mãos. Um nome desse jeito não deve ficar parado.
Seria só a opinião polÃtica? Porque, por exemplo, muitos jogadores compartilham posições parecidas com as do Neymar. O próprio Ronaldinho fez campanha para Bolsonaro, assim como o atual camisa 10 do Santos.
Acho que pesa, sim. Ainda mais para quem entende de futebol: não tem como ver um cara daqueles jogar e questionar se ele deve ou não ir para a Copa. Com todo respeito aos outros jogadores, ele com uma perna só ainda é melhor que muitos. à um cara diferente, que nasceu com o dom. Não tem muito o que discutir. Hoje, ele é o nosso Pelé.
Qual é o principal legado da conquista do tri que a série resgata?
O grupo era muito unido. Pelas pesquisas que fiz, vi que eles se reuniam, conversavam sobre famÃlia, fé, criaram mesmo um grupo forte. Hoje é até difÃcil falar disso, porque o Brasil está muito dividido. Mas a série mostra muito essa união e, principalmente, a superação.
ATUAÃÃO
O que foi mais difÃcil ao interpretar o Pelé?
Carregar o peso que ele carregava. Quando estou estudando um personagem, tento sentir um pouco do que ele sentia. E o Pelé tinha uma pressão enorme naquela Copa de 1970 âpolÃtica, crÃticas, conflitos na seleção. Eu estudava aquilo o tempo todo e acabava levando esse peso comigo. Teve dias em que fiquei bem abalado.
E no campo?
Tem um lance em que o Gérson lança a bola, o Pelé domina no peito e faz o gol. Reproduzir isso não é simples. Ãs vezes a jogada saÃa certa, mas a câmera não pegava e precisava repetir. Aà você entende por que era o Pelé âo homem era muito bom.
O senhor jogava futebol antes de virar ator?
Joguei na base do União Barbarense, da minha cidade. Depois fiquei no amador. Meu pai sempre sonhou em me ver jogador profissional. De certa forma, realizei esse sonho, mas de um jeito que ninguém imaginava.
Foi difÃcil não cair na caricatura ao interpretar um personagem tão conhecido?
O Rodrigo Santoro me deu uma dica que eu já tinha muitas coisas parecidas com o Pelé. Sou até um cara tranquilo que nem ele. Então não precisava exagerar para ficar parecido. Acho que deu certo.
O senhor teme ficar marcado pelo papel?
Sim, inclusive é algo que minha equipe tem medo. Mas mudando o cabelo e as caracterÃsticas, acho que dá para fazer outro personagem sim. Quero muito fazer. Me sinto muito preparado depois dessa experiência.
O que diferencia a série de outras abordagens sobre o tricampeonato?
Principalmente as jogadas que a gente reproduziu. Eu ainda não vi nada parecido com o que fizemos. Desde o começo houve muitos testes de futebol, com gente entrando e saindo, até escolherem o elenco a dedo. Também tem os bastidores. A série traz muitas histórias que pouca gente conhece. Acho que o público vai pirar, porque são episódios que quase ninguém sabe. Foi uma trajetória de muita superação. Se essa série não motivar os jogadores para a próxima Copa, não sei mais o que motivaria.
SELEÃÃO
Assim como em 1970, estamos num ciclo de Copa com uma seleção desacreditada e o maior nome do time com chances de nem ir para o torneio. O senhor enxerga essas repetições históricas?
Está acontecendo isso com o Neymar. à um cara muito criticado. Eu boto muita fé, sim, que pode acontecer novamente. Não tem como um cara desse não ir [para a Copa]
O que falta na seleção é motivação?
Alguns atletas têm que entender o que é a seleção brasileira. Essa série é perfeita para esse momento. O povo brasileiro estava sofrendo nessa época e eles [os atletas] sabiam o peso que esse campeonato tinha. Falta isso, o brilho no olhar e jogar sem medo.