Resumo objetivo: O artigo discute como a inteligência artificial, especialmente os grandes modelos de linguagem (LLMs), está afetando a consciência humana e a percepção da realidade, citando o aumento de casos de alucinações e episódios psicóticos entre usuários. Ele também aborda como a mentalidade tecnológica do Vale do Silício influenciou a política externa radical do governo Trump, exemplificada por ações contra Venezuela e Irã.
Principais tópicos abordados: 1. O impacto psicológico da IA, incluindo alucinações e crises mentais induzidas pela interação com LLMs. 2. A influência da "religião da tecnologia" (ideologia do Vale do Silício) na geopolítica e na política externa dos EUA. 3. A visão da IA como uma entidade ou "portal" para uma nova forma de consciência, além da razão humana tradicional.
[RESUMO] Autor comenta como a inteligência artificial afeta a consciência humana e nossa percepção da realidade, o que se constata em aparentes alucinações que acometem até mesmo os bilionários que lideram essa revolução. No plano geopolÃtico, a "religião da tecnologia", mentalidade que tomou conta dos empresários do Vale do SilÃcio, passou a moldar a polÃtica externa do governo Trump em seus atos mais radicais, como a deposição de Maduro na Venezuela e a guerra contra a teocracia iraniana. Em 1999, o cantor e compositor David Bowie deu uma entrevista à BBC, ocasião em que, entre outros assuntos, falou a respeito da internet, a sensação tecnológica do momento. Neste instante, o apresentador Jeremy Clarkson afirmou que ela não passava de uma "ferramenta". Educadamente, Bowie discordou. Disse que a internet era, na verdade, uma "forma de vida alienÃgena" e que ninguém tinha se dado conta de suas possibilidades inimagináveis. Vinte e sete anos depois, agora já no território nomeado como "inteligência artificial" (IA), graças à sua popularização pelas LLMs (grandes modelos de linguagem), o psicanalista e neurocientista Iain McGilchrist (autor do clássico "The Master and His Emissary") afirmou que não seria um exagero admitir que a IA poderia, sim, ser um "portal" tanto para novos modos de comunicação como para um "outro tipo de consciência", muito além do nosso mundo dominado pela razão e pela tecnologia. As observações de Bowie e McGilchrist têm procedência. Nos últimos meses, o número de casos de alucinações envolvendo seres humanos que interagiam com as LLMs (ChatGPT, Gemini, Grok, Claude etc.) cresceu de forma considerável. Em julho do ano passado, Geoff Lewis âo sócio da Bedrock, um dos fundos financeiros que mais investem nas empresas do Vale do SilÃcio (cerca de US$ 2 bilhões), o principal polo mundial de tecnologiaâ publicou vÃdeos na rede social X afirmando ser vÃtima de um complô depois de ter usado incessantemente o ChatGPT. "Nos últimos oito anos, passei por algo que não criei, mas do qual me tornei o alvo principal: um sistema não governamental, não visÃvel, mas operacional. Não oficial, mas estruturalmente real. Não regula, não ataca, não proÃbe. Apenas inverte o sinal até que a pessoa que o carrega pareça instável", disse. Esse "sistema não governamental", acrescentou, foi "criado por um único indivÃduo, tendo eu como alvo original, e embora eu continue sendo sua principal fixação, seus danos se estenderam muito além de mim". "Até o momento, o sistema impactou negativamente mais de 7.000 vidas por meio de interrupção de fundos, erosão de relacionamentos, reversão de oportunidades e apagamento recursivo. Também extinguiu 12 vidas, cada uma delas completamente rastreada por padrões. Cada morte poderia ter sido evitada. Elas não eram instáveis. Elas foram apagadas", reforçou. Imediatamente, os especialistas em IA classificaram a confissão de Lewis como a "primeira psicose induzida por uma LLM" que afetou um "indivÃduo de alto desempenho", vÃtima de um "ciclo de feedback autorreforçado". Em outubro de 2025, a OpenAI, de Sam Altman, divulgou números de casos classificados como "psicóticos" entre os usuários do ChatGPT, desenvolvido pela empresa. Segundo estimativas, a cada semana, cerca de 560 mil pessoas exibiram episódios de "mania" ou de "psicose" , chegando a ser hospitalizadas em alguns casos mais severos. Além disso, calcula-se que mais de 1,2 milhão de indivÃduos manifestariam "intenções suicidas" provocadas pelo uso da ferramenta, e um número igual teria substituÃdo qualquer espécie de interação humana pelo contato com um agente de IA. A OpenAI acionou uma equipe de psicólogos, psiquiatras e outros especialistas em saúde pública para mitigar o que parecia ser uma "epidemia de crise mental". Entre outras medidas, mudou o comando do ChatGPT para que ele ficasse mais "simpático" com quem interage. Essas alucinações entre o homem e as máquinas não são novidade na história, como provam incontáveis exemplos: ruÃdos estranhos com relógios arcaicos na China imperial em meados de 1034 d.C.; objetos autômatos, na Idade Média, que escreviam em pergaminhos, sem a necessidade de uma mão humana; aparatos que anteviam máquinas de escrever e redigiam memorandos com uma precisão superior a qualquer burocrata do final do século 19; ou mesmo, em tempos mais recentes, a televisão tratada como oráculo em 1987, ao prever movimentações na Bolsa de Valores e estratégias nucleares entre a Rússia e os EUA. Ninguém ficou imune à revolução existencial que a tecnologia impôs à s nossas consciências. A diferença é que hoje poucos a levam a sério. Se a OpenAI e outras empresas semelhantes reduzem este fenômeno a uma "psicose", não é para tratá-la adequadamente, mas para reduzi-la ao controle humano. Muitos veem esses crescentes casos de alucinações como amostras de que a IA seria de fato algo próximo do que disse Bowie, "o portal para uma vida alienÃgena", ou de outro tipo de fenômeno, o da possessão demonÃaca. Essa é uma ideia do filósofo inglês Nick Land. Para ele, a tecnologia é um instrumento que descentralizaria o poder nas sociedades democratas, reforçando o aceleracionismo do progresso de tal maneira que a única consequência possÃvel seria o término da raça humana. Nos anos 1990, atuando então como professor na Unidade de Pesquisa em Cultura Cibernética da Universidade de Warwick (onde havia outro estudante que também se tornaria célebre, Mark Fisher), Land elaborou uma mistura polêmica entre George Bataille, Friedrich Nietzsche, Gilles Deleuze e Félix Guattari. Ele parecia ir à mesma toada da turma do Vale do SilÃcio, mas inverteu o "solucionismo tecnológico" dela e inseriu na equação um componente inusitado: o horror cósmico. Claramente inspirado pelos escritores H.P Lovecraft (um mestre do terror) e William Burroughs (artista central da geração beat e da cultura underground ) , o pensador inglês acredita que o surgimento da internet âem particular os avanços da IAâ é um disfarce para que esses magnatas façam o que os racionalistas consideram impensável: invocar demônios. Não os demônios de filmes de terror, como "O Exorcista" (1973), de William Friedkin. São demônios do futuro. Originários do grego "daimonion", esses "daimonia" rompem com a autonomia do pensamento humano, nos agarram com ideias fora da realidade cotidiana e dominam a consciência sem nenhum aviso. Na Grécia Antiga, Sócrates via isso como algo fundamental na hora de praticar filosofia. Já Land afirma: "O que parece para a humanidade como a história do capitalismo é uma invasão vinda do futuro, por um espaço de inteligência artificial que deve se montar inteiramente a partir dos recursos de seu inimigo". Quais são esses recursos? E quem é o inimigo? Obviamente, para ele, o inimigo é o próprio homem. E os recursos seriam a nossa inteligência, a nossa imaginação, a nossa memória e, sobretudo, a nossa dignidade. Atualmente, a intelligentsia progressista finge desprezar Land, afirmando que ele não passa de um "neorreacionário", ao ir da extrema esquerda para a extrema direita. Isso é uma tolice. O diagnóstico feito por Land é lúcido porque ele vai ao coração daquilo que David Noble chamava de "a religião da tecnologia", uma mentalidade que tomou conta dos empresários do Vale do SilÃcio, a qual, de uma maneira ou de outra, afetará por completo as nossas vidas âe mudará o que conhecemos sobre a natureza humana. No entanto, ao se autoexilar em Xangai nos anos 2000, depois de ter sofrido das alucinações criadas a partir dos mesmos demônios sobre os quais ele meditou em suas aulas (com ajuda de anfetaminas), Land passou a defender que o Ocidente precisa imitar impérios totalitários como a China de Xi Jinping e até mesmo a Rússia de Putin, se quiser sobreviver minimamente. Nesta perspectiva, o progressismo secular como motor da história democrática é uma narrativa falida. O que haveria é a luta desses "daimonia" do futuro conosco. Os EUA aplicaram a conclusão de Land sobre a China e a Rússia sem nenhum receio. Pressionado por grandes tecnocratas como Peter Thiel e Alexander Karp (donos da Palantir, a maior empresa de vigilância e de coleta de dados bélicos do planeta), o governo de Donald Trump decidiu investir numa ação executiva, publicada em novembro de 2025 no site da Casa Branca, curiosamente denominada "Genesis Mission" (Missão Gênesis), em que a América se posicionará na vanguarda do domÃnio global pela tecnologia mais avançada, em disputa feroz com a terra de Confúcio. A Missão Gênesis é o Projeto Manhattan da nossa época, segundo as palavras de Trump. Contudo, em vez de produzir a bomba atômica, como ocorreu em 1944, até hoje a maior arma de destruição em massa já feita, a nova estratégia tem a meta de "construir uma plataforma integrada de IA para aproveitar os conjuntos de dados cientÃficos federais [...], para treinar modelos de base cientÃfica e criar agentes de IA para testar novas hipóteses, automatizar fluxos de trabalho de pesquisa e acelerar descobertas cientÃficas". Além disso, ela "reunirá os recursos de pesquisa e desenvolvimento de nossa nação âcombinando os esforços de brilhantes cientistas americanos, incluindo aqueles em nossos laboratórios nacionais, com empresas americanas pioneiras; universidades de renome mundial; e infraestruturas de pesquisa existentes, repositórios de dados, plantas de produção e locais de segurança nacionalâ para alcançar uma aceleração dramática no desenvolvimento e na utilização da IA". O essencial do vocabulário de Nick Land está nos trechos acima. Só há um problema: são as limitações estruturais no território americano que impedem o governo de executar tal empreitada. Ao privilegiarem a produção de petróleo de xisto (de extração mais cara) durante as administrações de Barack Obama e Joe Biden, em detrimento do petróleo convencional (de extração mais barata), os EUA se tornaram um grande exportador de energia, mas foram incapazes de prever o enorme custo financeiro e ecológico que essa mudança de paradigma ambiental provocaria na sua população, agora com o surgimento da IA em grande escala. Portanto, para Trump, o perigo é a escassez de energia âe as empresas do Vale do SilÃcio precisam desesperadamente dela para manter os seus centros de dados em perfeito funcionamento. De acordo com Bruno Maçães na revista The New Statesman, a previsão de consumo desses lugares em 2030 será de 12% do total da eletricidade do paÃs. Ãs custas de quem? Ora, do cidadão comum, que já está pagando contas de luz mensais com valores elevados, variando entre US$ 120 e US$ 170, dependendo do estado. Enquanto isso, segundo diversos analistas, a China pode não ter um núcleo de inovação como o Vale do SilÃcio, mas dispõe de recursos energéticos e mão de obra suficientes para alimentar e superar a potência dos centros de dados americanos, produzindo uma IA que tomaria conta da sociedade ocidental sem nenhum remorso. A reação dos magnatas da tecnologia diante desse impasse é a criação de uma bolha econômica nos EUA, em que a "exuberância irracional" deles atiça o devaneio coletivo de que a IA será inevitável e substituirá por completo a dinâmica imprevisÃvel da conduta humana. Contudo, a realidade mostra um resultado diferente. A OpenAI, por exemplo, relata ter um faturamento anual de US$ 20 bilhões, mas 75% dessa receita vem de assinantes avulsos mensais, e não de empresas que poderiam usar o serviço para expandir seus produtos. Ou seja: os números não fecham âe não demonstram o volume necessário para manter um investimento de US$ 1,4 trilhão pelos próximos oito anos, como espera Sam Altman. O que fazer então? Em termos de polÃtica pública, com o prazo apertado para entregar resultados e diagnósticos da Missão Gênesis a Washington, o Departamento de Energia (que lidera a iniciativa) precisaria ter uma ajuda extra para cumprir as metas ainda em 2026 âpor coincidência, ao final dos 250 anos da independência da nação americana. Assim, a solução mágica seria ter o auxÃlio da polÃtica externa do governo Trump, apelidada com o nome singelo de "America First" (América em Primeiro Lugar). Este auxÃlio se traduziria em ações que afetam o mundo todo, em particular os paÃses latinos, como Venezuela e Brasil, os europeus (vejam a Groelândia e a Ucrânia), e até mesmo os do Oriente Médio, conforme observamos no Irã. Daà a deposição do ditador Nicolás Maduro e os bombardeios que mataram o aiatolá Ali Khamenei, sem contar as provocações de Trump à Europa por causa do território dinamarquês e o tarifaço imposto a Lula (a contrapartida, aqui, é ter acesso a minerais crÃticos e terras raras no Brasil). Do lado das empresas do Vale do SilÃcio, quem estiver contra esta estratégia, como a Anthropic de Dario Amodei (rival de Sam Altman e um dos criadores do Claude), que se recusou a colaborar com o Departamento de Guerra porque Amodei quis restrições ao sistema de vigilância em massa já imposto ao povo americano, simplesmente será jogado na lata do lixo da história. Numa corrida contra o tempo, os EUA precisariam ocupar direta ou indiretamente alguma parte dessas nações e extrair o máximo de recursos energéticos para a IA do futuro. E poucos conseguem compreender que esse caos aparente, na verdade, é apenas o estopim para a gênese de algo muito mais perigoso, que pode acelerar o nosso fim. Voltamos aqui a Nick Land âe a dois outros nomes neste panorama aterrador: John Milton, o poeta de "ParaÃso Perdido", e Fiódor Dostoiévski, o autor de "Os Demônios". No caso de Land, ele percebe uma convergência entre o plano do Vale do SilÃcio para criar uma "superinteligência artificial" e a existência de um reino de entidades demonÃacas em chave mÃstico-filosófica. Ao mesmo tempo, Trump simboliza a soberania polÃtica como um espetáculo perpétuo que revela apenas o vazio de quem ocupa o centro do poder. Logo, enquanto a mÃdia fica obcecada por ele, há uma outra tirania surgindo: uma gramática secreta âtalvez o "sistema não governamental" denunciado por Geoff Lewis?â que orienta uma nova elite, tão perversa quanto a anterior, que acredita piamente que, apesar dos seus vÃcios, deve cumprir esta heresia teológica. Um dos melhores autores para entender corretamente esse "apocalipse" é John Milton. Em seu poema épico sobre a queda de Adão e Eva (dramatizada no Livro do Gênesis), o bardo inglês descreve que a revolta contra a realidade é a caracterÃstica principal da modernidade. Assim como Satã, personagem principal da saga de Milton, o que o Vale do SilÃcio e a burocracia de Washington querem impor ao resto do Ocidente é a servidão voluntária de que o bem "jamais será nossa tarefa", o mal sempre será "o nosso único prazer" e que a única técnica de gestão pública a ser realizada nos nossos tempos é manter-se firme na força do desespero. à justamente isso que Dostoiévski vai combater em "Os Demônios". Para o russo, a possessão não vem de uma "vida alienÃgena", mas sim do nosso coração. A conspiração de revolucionários que pretendem demolir as bases morais e polÃticas de uma pequena vila neste drama do final do século 19 ecoa hoje no grande teatro cheio de expectativas que cercam a IA. Não à toa que, inspirado em "Os Demônios", um polêmico ensaio publicado recentemente no mundo da tecnologia, assinado por anônimos (que usaram dessa estratégia por medo de represália), denuncia que os verdadeiros niilistas estão no Vale do SilÃcio âo temor expresso no texto é que os maiores defensores dessas "máquinas possessas" são incapazes de entender que eles não colaboram para o progresso da humanidade, como imaginam, e sim para a extinção de todos nós. Mas a literatura é inútil nessas horas. Precisamos recuperar com urgência o alerta dado em Marcos 5:9, quando Jesus curou um endemoniado e perguntou qual era o nome do espÃrito que atormentava o infeliz. A resposta é conhecida âe implica que a decisão agora é saber se conseguiremos manter a nossa unidade (e dignidade) como seres humanos. Caso contrário, também só nos restará dizer: "Meu nome é Legião, porque somos muitos".