Resumo objetivo:
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master (liquidado em novembro), é acusado de desviar recursos da instituição para si, familiares e sócios por meio de uma sofisticada engenharia financeira. O esquema utilizava a venda massiva de CDBs para captar recursos, que eram então canalizados via fundos de investimento controlados pelo banco para empresas "laranjas" ligadas ao grupo. As investigações da Polícia Federal identificaram, por exemplo, uma conta vinculada ao pai do ex-banqueiro com saldo superior a R$ 2,2 bilhões, e parte significativa dos mais de R$ 3,5 bilhões aplicados nesses fundos teria beneficiado empresas dos próprios investigados.
Principais tópicos abordados:
1. Acusações de desvio: A existência de um esquema de desvio de recursos do Banco Master para o bolso de Daniel Vorcaro, sua família e associados.
2. Mecanismo do esquema: A descrição da "engrenagem" financeira, envolvendo a captação via CDBs, o repasse para fundos controlados pelo banco e a finalização em falsos empréstimos a empresas laranjas.
3. Investigação e provas: A ação da Polícia Federal, as prisões (incluindo a segunda de Vorcaro) e os indícios documentais, como o saldo bilionário na conta do pai do ex-banqueiro.
4. Envolvidos: A lista de beneficiários apontados, incluindo o pai, a irmã, um primo de Vorcaro e parentes de um sócio (João Carlos Mansur).
5. Reações: A negativa da defesa de um dos investigados sobre a titularidade da conta e a ausência de comentários das demais defesas procuradas.
Daniel Vorcaro transformou o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro, em uma fábrica de fazer dinheiro para si próprio, familiares e sócios. Por meio de uma sofisticada engenharia financeira, o ex-banqueiro teria transferido recursos do banco para o próprio bolso.
A descrição do esquema abaixo tem como base documentos das diversas investigações conduzidas pela PF (PolÃcia Federal) no caso Master.
As investigações identificaram uma conta bancária de Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro, com um saldo de mais de R$ 2,2 bilhões, conforme informação que faz parte da decisão judicial que autorizou as operações da PF realizadas na última quarta-feira (4). Vorcaro, que já tinha ido para a prisão em novembro, foi preso pela segunda vez neste mês.
A defesa de Henrique Vorcaro declarou, na ocasião, que "são incorretas as informações divulgadas no sentido de que a conta mencionada na decisão do STF seja de sua titularidade".
Além de Henrique, estão entre os destinatários dos recursos desviados do Master a irmã do banqueiro, Natalia, um primo, Felipe, e três parentes de João Carlos Mansur, o dono da administradora de recursos Reag, na qual o Master abrigava fundos de investimento, de acordo com as apurações.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro disse que não comentaria o caso. A Folha enviou mensagens para um dos advogados de Mansur, e emails para Natalia e Felipe Vorcaro, mas não obteve retorno. A defesa de Henrique Vorcaro não se manifestou até a publicação desta reportagem. Todos foram procurados na última quarta-feira, por volta das 18h40.
A ENGRENAGEM
A engrenagem para transferir o dinheiro do Master para as pessoas investigadas se utilizava da venda de CDBs (Certificados de Depósito Bancário), falsos empréstimos a empresas controladas por laranjas e fundos de investimento, numa logÃstica em que o dinheiro saÃa dos cofres do banco e beneficiava pessoas ligadas ao ex-banqueiro.
O esquema começava com a venda de CDBs, via plataformas de investimento voltadas a pessoas fÃsicas, com uma promessa de remuneração muito acima da média de outros bancos. Essa foi a principal forma de captação de recursos do conglomerado Master, somando mais de R$ 50 bilhões.
Esse dinheiro atraÃdo por meio de CDBs tinha como destino fundos de crédito que possuÃam como único investidor o próprio Master, segundo as investigações. Já dentro do fundo, esses recursos eram usados para conceder uma espécie de empréstimo a empresas.
Por trás de uma aparente transação financeira rotineira de um fundo se escondia um desvio de recursos. Esses empréstimos iam para empresas ligadas a Vorcaro, sua famÃlia e sócios, indicando uma operação falsa de crédito porque o dinheiro não tinha como destino investimentos nos negócios, como na expansão de uma fábrica, por exemplo.
Ou seja, o dinheiro saÃa do Master e ia para companhias ligadas a pessoas do cÃrculo de Vorcaro depois de passar por um fundo que tinha como único cotista o próprio banco.
Por meio desse esquema, dos mais de R$ 3,5 bilhões investidos pelo Master em fundos em que o banco é o único cotista, R$ 1,8 bilhão teve como destino empresas ligadas aos próprios sócios do banco, indica a PF.
à o caso da ClÃnica Mais Médico, um pequeno empreendimento que recebeu cerca de R$ 361,1 milhões de um fundo controlado pelo Master. Por trás dessa clÃnica estava um laranja que, por sua vez, tinha dado uma procuração a uma pessoa ligada à famÃlia do dono do Master.
Em outro exemplo de como os desvios de recursos funcionavam, os relatórios da PF mostram que esses fundos usados para desviar dinheiro do Master também aplicavam seu próprio dinheiro em CDBs do Master. à como se o dinheiro saÃsse do Master e voltasse quase inteiramente para ele. Só que esses CDBs eram lentamente resgatados pelos fundos, fazendo com que o dinheiro do banco chegasse à s mãos de pessoas ligadas a Vorcaro, depois de percorrer uma longa trilha de CNPJs dos fundos. Ao longo desse trajeto, parte do dinheiro também ia sendo desviada.
Com esses recursos, essas pessoas transferiram o dinheiro para uma conta bancária mantida no Master por uma empresa ligada a Vorcaro, a Super Empreendimentos e Participações.
"A extensão e a complexidade destas cadeias de transações apresentam indÃcios de que as operações foram estruturadas mediante a participação coordenada do Banco Master e da Reag DTVM, possuindo o objetivo comum de desviar recursos do conglomerado Master para outros veÃculos com destinação alheia aos interesses da instituição", mostra a investigação.
MÃQUINA DE INFLAR
O processo de fabricação de dinheiro no Master também envolveu a prática de inflar os ativos do banco, o conjunto de bens da instituição, como imóveis, aplicações e a carteira de crédito.
"A informação policial demonstrou o aproveitamento de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização, com o uso de fundos de investimento para circulação de ativos sem liquidez, artificialmente precificados, e reiteradas operações entre partes relacionadas", cita a investigação.
Reportagem da Folha mostrou que os empréstimos dados a empresas eram repassados a fundos de investimento sob o comando da Reag, que compravam certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), um papel praticamente sem valor.
As chamadas cártulas eram adquiridas por fundos que inflavam o preço delas. Como os fundos pertenciam ao Master, essa valorização fictÃcia beneficiava o próprio banco, que via seus ativos crescerem de forma rápida e artificial. Isso possibilitava a emissão de mais e mais CDBs.
O advogado Adilson Bolico, do Mortari Bolico Advogados, diz que quando um banco capta dinheiro de pessoas fÃsicas e direciona esses recursos para empréstimos fictÃcios, empresas de fachada e fundos controlados por laranjas, configura-se gestão fraudulenta de instituição financeira. Também caracteriza lavagem de dinheiro.
Previstos em lei, crimes que envolvem gestão fraudulenta recebem pena de reclusão de 3 a 12 anos, além de multa. Nos casos de lavagem de dinheiro, a pena é de reclusão de 3 a 10 anos, e multa, com a possibilidade de aumentar a pena se o crime for cometido de forma reiterada ou por meio de organização criminosa.