Resumo objetivo:
A presença feminina no setor ferroviário brasileiro, tradicionalmente masculino, tem crescido significativamente. Um exemplo marcante foi uma operação inédita realizada apenas por mulheres, que conduziram um trem com 14 mil toneladas de minério por 400 km. Programas como "Elas na Ferrovia" impulsionam essa inclusão, com aumento de 75% no número de mulheres na empresa MRS entre 2020 e 2025.
Principais tópicos abordados:
1. Crescimento da participação feminina em funções operacionais e de liderança nas ferrovias.
2. Operação inédita com uma composição totalmente conduzida e gerenciada por mulheres.
3. Depoimentos de profissionais sobre desafios e conquistas no setor.
4. Iniciativas empresariais para promover inclusão e apoio às mulheres no ambiente ferroviário.
Maquinista, auxiliar de maquinista, controladora de tráfego, coordenadora, inspetora. Não importa a função, as mulheres já estão presentes em todas as atividades que envolvem a operação de um trem no paÃs.
Elas em geral ainda são minoria nos cargos que desenvolvem nas companhias ferroviárias brasileiras ânum universo historicamente masculinoâ, mas a participação feminina tem crescido nos últimos anos e já houve caso em que uma composição foi colocada nos trilhos com a presença exclusiva de mulheres em todas as funções.
No final de novembro, 30 mulheres estiveram envolvidas numa operação inédita de um trem conduzido integralmente por elas. Foram transportados pela MRS, concessionária que atua em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, 14 mil toneladas de minério de ferro de Congonhas (MG) ao porto de Itaguaà (RJ), rota de cerca de 400 quilômetros.
A parte administrativa, incluindo cargos de liderança, as funções operacionais no pátio e a condução do trem foram feitas por mulheres, como a maquinista Isabela Hoelzle, 26, natural de Congonhas.
"[A operação] Foi definida por pessoas que querem ter essa visibilidade das mulheres na operação, como maquinista, auxiliar, manobrador. Ajuda a termos mais voz também", disse a maquinista.
Há três anos na MRS, dois deles como maquinista, ela disse que desde que conheceu o programa da empresa se encantou pela profissão.
"à medida em que eu fui conhecendo, fui me encantando e pensei âé isso que eu quero, quero virar maquinista, quero exercer essa funçãoâ."
Ela trabalha num trecho de cerca de 200 quilômetros entre Jeceaba (MG) e Bom Jardim de Minas (MG), viagem feita em cerca de seis horas.
Ao deixar a locomotiva para outro maquinista seguir pelos trilhos, faz um intervalo de dez horas num hotel da cidade e, em seguida, vai para Dias Tavares (Juiz de Fora), onde equipa outra composição e parte rumo a Conselheiro Lafaiete (MG).
"O que eu digo para as mulheres que querem trabalhar em ferrovias é que se dediquem, e tenham isso como um sonho, porque é uma profissão maravilhosa. Tenho certeza que quem quiser e exercer essa função vai entender o que eu estou falando, porque é excepcional."
Segundo a MRS, entre 2020 e 2025 o total de mulheres na empresa cresceu 75%, de 711 para 1.248 e, nos cargos de liderança, avançou de 60 para 119, ou 98% mais, como parte do programa Elas na Ferrovia.
Além da ampliação da presença feminina na empresa, o programa apoia mulheres em seu primeiro cargo de gestão, tem um grupo de afinidades, salas de apoio à amamentação e programa de apoio financeiro para reprodução assistida.
Em outras empresas do setor ferroviário o cenário também é de avanço feminino. Na VLI, já havia 101 mulheres maquinistas no segundo semestre do ano passado. De um total de 1.600 mulheres na empresa, 650 estavam em cargos operacionais, ou seja, diretamente ligados aos trilhos.
A operadora de reach stacker âempilhadeira giganteâ na Brado Deborah Lopes, 49, disse que já enfrentou resistência por ser uma mulher na função, mas afirmou que isso serviu para fortalecê-la.
"As mulheres hoje não têm mais aquele negócio que, âah, eu não vou fazer esse serviço porque é serviço de homemâ. Não, não tem isso mais, entendeu? Porque a mulher, na verdade, ela pode estar onde ela quiser. Tem alguns homens ainda que falam que o lugar de mulher é no fogão. Não, não é, não. O meu lugar é no fogão, o meu lugar é na empilhadeira, o meu lugar é trabalhar no meio de muitos homens, trabalhar num pátio de contêiner."
Ela faz a movimentação de contêineres entre os trens e o pátio, em Sumaré, no interior paulista, desde 2020. Segundo a Brado, nos terminais espalhados pelo paÃs âcomo São Paulo, Mato Grosso e Maranhãoâ, 26% do quadro operacional é composto por mulheres. Na empresa toda, o Ãndice chega a 35%.
"O nosso dia a dia aqui é a movimentação com contêineres, os caminhões que a gente carrega, descarrega, e tem o trem também, que a gente também carrega e descarrega. à maravilhoso, é um serviço que exige muita atenção, muita segurança, porque é uma máquina de 67 toneladas e um contêiner cheio tem 35 toneladas, mais ou menos", disse.