Resumo objetivo:
A reportagem retrata a sobrecarga da trabalhadora Sonalda Lino, que enfrenta uma exaustiva rotina de 6 dias de trabalho por 1 de folga, conciliando emprego, deslocamento longo e tarefas domésticas. O modelo 6×1, comum no comércio e com baixa remuneração, impacta negativamente a qualidade de vida, especialmente das mulheres, que acumulam funções profissionais e familiares. Em discussão no Congresso, uma PEC propõe o fim dessa escala, o que poderia beneficiar milhões de trabalhadores e, segundo estudos, teria baixo impacto econômico para as empresas.
Principais tópicos abordados:
1. Relato pessoal da rotina exaustiva de uma trabalhadora na escala 6×1.
2. Características e impactos negativos do modelo 6×1 (baixos salários, sobrecarga, conciliação família-trabalho).
3. Proposta de mudança legislativa (PEC) para reduzir a jornada e seus possíveis efeitos sociais e econômicos.
4. Dados e análises técnicas sobre a viabilidade da redução da jornada de trabalho.
“Meus filhos ficam contando os dias da minha folga, porque eu venho em casa somente para dormir, fazer a comida deles e voltar para trabalhar.” Assim define a própria rotina a operadora de caixa Sonalda Lino, de 36 anos, moradora da Zona Norte do Rio de Janeiro. Ela é funcionária há 15 anos de uma rede de supermercados em que se trabalha seis dias seguidos para folgar apenas um.
Na conversa com a reportagem do Brasil de Fato, a voz transparece cansaço e a sobrecarga de quem tenta dar conta das funções de mãe, trabalhadora e dona de casa. Embora o expediente termine às 17h, o trajeto do seu local de trabalho, na Zona Sul, até o subúrbio do Rio ainda toma mais 4h diárias.
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“Faço janta para os meus filhos e almoço para o dia seguinte, arrumo a casa, tomo banho e, quando vejo, já é mais de 22h. Tenho que dormir rápido, para no outro dia começar tudo de novo. E na minha folga, ou descanso, ou faço faxina ou vou ao médico”, resume a mãe de três.
O modelo de trabalho 6×1 é permitido no Brasil por uma sobreposição entre a jornada de 44 horas estabelecida na Constituição, o limite de oito horas diárias, e ainda o artigo 67 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que prevê o descanso semanal de 24 horas consecutivas.
Assim como Sonalda, a maior parte da força de trabalho com carteira assinada no país atua em contratos de 44 horas ou mais. Isso não quer dizer que todos estão sob escala 6×1, pois os dados cobrem o total de horas. Da mesma forma, é possível distribuir 44 horas em uma jornada com dois dias de descanso.
Segundo o Atlas da Escala 6×1, do Observatório do Estado Social Brasileiro, a média salarial desse trabalhador é de um salário mínimo e meio. O modelo atinge sobretudo o setor de comércio e tem impactos negativos na qualidade de vida, saúde e convívio familiar.
Para mulheres, a sobrecarga é ainda maior. A operadora de caixa Sonalda relata que as responsabilidades do dia a dia são incompatíveis com a escala 6×1. “Quando tenho que levar meu filho no médico e pegar atestado para a empresa, ou a gente é boa na empresa, ou a gente é uma boa mãe, não dá para ser os dois”, conta.
Fim da escala 6×1
Com a proposta de emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1 em tramitação no Congresso, a redução da jornada pode impactar mais de um terço da população empregada. Segundo dados do emprego formal no Brasil, cerca de 32 milhões de pessoas atuam em contratos de 44h, o equivalente a 77% da força de trabalho celetista com jornada informada na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2023.
“Um dia a mais de folga seria muito importante, eu luto todo dia, peço a Deus para que isso aconteça. Mesmo que você tenha que trabalhar um pouco mais na escala 5×2, uma hora a mais, mas que você tenha mais tempo para ficar com seus filhos, para resolver problemas. Tem empresas que entendem que o funcionário trabalha muito melhor com uma qualidade de vida”, opina Sonalda.
O técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Felipe Vella Pateo, explica que esses trabalhadores acumulam desvantagens em escolaridade e remuneração. Nesse sentido, uma redução da jornada “tende a trazer mais igualdade de condições para o mercado de trabalho, beneficiando mais aqueles trabalhadores com piores contratos”.
“Além do mais, com mais tempo livre disponível, esses trabalhadores podem se dedicar a aumentar sua qualificação participando de cursos técnicos ou elevando sua escolaridade”, detalha.
Pateo é um dos autores do estudo do Ipea sobre o efeito econômico da redução da jornada de trabalho para 40 horas. A análise conclui que há capacidade do setor produtivo absorver o aumento do custo da hora de trabalho. Observados setores como indústria e comércio, o impacto seria inferior a 1%.
“Do ponto de vista das empresas, isso significa que o aumento de custos será sobre os menores salários, o que permite uma aproximação com os efeitos da política de aumento real do salário-mínimo, que já teve valores equivalentes ou maiores nos últimos anos, sem consequências negativas para a economia brasileira”, pontua o pesquisador.
Pauta no Congresso
Dois Projetos de Emenda à Constituição (PEC) que proíbem o modelo de trabalho 6×1 tramitam juntos na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Uma de 2025 apresentada pela deputada Erika Hilton (PSol-SP) e outra de 2015 do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Ambos propõem a redução de 44 para 36 horas semanais sem redução salarial.
Esperança para milhões de brasileiros submetidos a jornada exaustiva, a PEC é a principal aposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para este semestre no Congresso Nacional. No entanto, políticos de extrema direita se posicionam abertamente contra a medida e se articulam para tentar impedir a tramitação no legislativo.
Valdemar da Costa Neto e Antônio Rueda, respectivamente presidentes do PL e do União Brasil, afirmaram em evento com empresários que vão tentar adiar a discussão da matéria em plenário para depois da eleição presidencial.
O relator da proposta na CCJ será o deputado Paulo Azi (União Brasil-BA), político do chamado Centrão e aliado do pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil). Para avançar, a PEC precisa ser aprovada por três quintos dos deputados e senadores, em duas votações em cada Casa.
Na avaliação do presidente do sindicato dos comerciários do Rio, Márcio Ayer, é evidente que o país vive uma luta de classes. “A resistência das elites contra o fim da escala 6×1 é óbvia e cruel ao mesmo tempo. Para as elites, saúde. Para a classe trabalhadora, o cansaço, o trabalho exacerbado e a exploração. É o verdadeiro retrato do que enfrentamos no Brasil. Alguns políticos defendendo o empresariado que explora cada vez mais a população. E a população, por sua vez, refém de uma escala que lhe rouba tempo de vida”, pontua.
América Latina
O Congresso do México aprovou uma redução histórica da jornada de trabalho de 48 para 40 horas semanais. A lei foi uma iniciativa da presidenta de esquerda Claudia Sheinbaum, mas falhou em garantir os dois dias de descanso como previa a proposta original. A reforma será implementada de forma gradual no país a partir do próximo ano até 2030.
Na contramão, a reforma trabalhista na Argentina, defendida pelo governo de Javier Milei, desencadeou uma onda de protestos. Entre os pontos mais polêmicos da lei está o que amplia a jornada máxima de oito para 12 horas diárias, sem necessidade de pagamento de horas extras.
Outro ponto permite o pagamento de parte do salário dos trabalhadores em “benefícios em espécie, moradia ou alimentação”. Também estão previstas mudanças em negociações coletivas, indenização por demissão e licença médica.
Dos países da América Latina, apenas o Equador adota o regime de trabalho de 40 horas semanais divididas em cinco dias.