Resumo objetivo: A empresa de IA Anthropic se recusou a atender à exigência do Pentágono de remover as restrições éticas de seu modelo Claude, que proíbem seu uso em operações letais autônomas. Como retaliação, o governo dos EUA baniu a empresa de contratos estatais e a reclassificou como risco à cadeia de suprimentos de defesa. Em contraste, a OpenAI fechou um acordo com o Pentágono, levando a uma reação pública que beneficiou a Anthropic e levantou debates sobre soberania tecnológica.
Principais tópicos abordados:
1. O conflito ético entre a Anthropic (com restrições ao uso militar de sua IA) e o governo dos EUA.
2. A reação do mercado e do público, com a rival OpenAI fechando acordo com o Pentágono.
3. A análise geopolítica do episódio como um sintoma de "tecnoabsolutismo".
4. O alerta sobre dependência tecnológica e a defesa da necessidade de desenvolvimento de uma IA soberana no Brasil.
Uma diferença entre o passado e o presente da tecnologia é que antes a vanguarda era exclusividade de grandes empresas e governos, enquanto hoje é simplesmente a coisa mais popular que existe. Claude, da Anthropic, é a IA mais avançada do mundo e qualquer pessoa com mil reais por mês pode usá-la até cansar.
Com mais investimento, a Palantir integrou-o à plataforma que gerencia a caça de imigrantes nos Estados Unidos, a campanha para eliminar o Hamas, com mais de 75 mil mortos, e a captura de Nicolás Maduro.
Acontece que a constituição do Claude proÃbe seu uso em armas autônomas e operações letais sem supervisão humana. O Pentágono, enfurecido, exigiu a remoção dessas restrições, o que a empresa recusou.
A resposta foi o seu banimento do governo e sua reclassificação como risco à cadeia de suprimentos de defesa, o que significa que nenhuma empresa com contratos militares pode se relacionar com a Anthropic âum risco existencial, já que todas as grandes operadoras de servidores têm contratos do tipo.
O imbróglio aconteceu horas antes do ataque ao Irã, que também usou Claude como parte da inteligência para matar o aiatolá Khamenei. Vendo a oportunidade, a OpenAI imediatamente fechou com o Pentágono.
Na superfÃcie, os termos são os mesmos, mas sob ela são diferentes. A Anthropic insiste em definir as restrições, ao passo que a OpenAI aceita o que disser a lei. O público reagiu fazendo com que os downloads do Claude ultrapassassem os do ChatGPT na Apple Store, ao mesmo tempo em que uma campanha pela desinstalação deste último se espalhou pelas redes.
A doutrina Trump diz que quem não aceita ser instrumentalizado sem condições deve ser sumariamente eliminado, não importando se é empresa ou nação. O contraste com o modus operandi neocon, do qual descende, é imenso.
Enquanto Bush Jr. precisou criar uma série de evidências falsas para justificar a invasão do Iraque, Trump realiza ataques sem respaldo no direito internacional e sem qualquer consulta ao Legislativo.
Estes são dias de um novo arranjo de poder tecnológico e sua categorização definitiva segue em aberto. Yanis Varoufakis enxerga uma disposição tecnofeudal, com empresas baseadas em nuvem impondo seus interesses suseranos às menores, vassalas, enquanto nós, servos, alimentamos o sistema com cliques não remunerados.
A realidade indica que seria mais apropriado falar em tecnoabsolutismo, um sistema em que o rei é a lei, no qual a antiga tese de que nações sucumbem porque não têm instituições sólidas é motivo de chacota. E a tecnologia que importa dispensa os cliques gratuitos, enquanto reduz a demanda por legitimidade e "soft power" internacional ao concentrar as mortes do lado inimigo.
A rusga com a Anthropic é uma óbvia manifestação da intensificação do tecnoabsolutismo. Isso indica que o Brasil deve colocar força total no desenvolvimento de uma IA soberana, além de uma estrutura própria de servidores âalgo dispensável até há pouco.
O caso não é simplesmente que IAs de mercado, servindo de infraestrutura crÃtica nacional, podem ser desligadas de uma hora para outra, mas que elas estão fazendo um M&A com o sistema de defesa de um outro Estado, o qual publicou um relatório dizendo que bases chinesas de uso civil e militar estão proliferando pela América Latina e já existem no Brasil.