Resumo objetivo:
A Colômbia realiza eleições legislativas para renovar o Congresso, o que representa um teste crucial para a coalizão de esquerda do presidente Gustavo Petro, o Pacto Histórico. O pleito também serve como termômetro para as eleições presidenciais de 2026, com consultas internas partidárias ocorrendo em paralelo. O Congresso tem sido a principal barreira às reformas estruturais do governo, como a da saúde, evidenciando a dificuldade de avançar mudanças sem maioria parlamentar.
Principais tópicos abordados:
1. Eleições legislativas como teste político: Desafio para a coalizão governista de Petro e projeção da disputa presidencial de 2026.
2. Bloqueio das reformas estruturais: O Congresso atuou como principal obstáculo à agenda de Petro, travando mudanças em áreas sensíveis como saúde.
3. Análise do cenário político: Especialistas destacam a necessidade de maiorias parlamentares para implementar reformas e criticam a representação de interesses minoritários no Legislativo.
Colômbia vai às urnas para renovar Congresso e testar gestão Petro Eleição legislativa desafia coalizão governista Pacto Histórico, atiça oposição e projeta disputa presidencial marcada para maio O Pacto Histórico, coalizão de partidos de esquerda que elegeu pela primeira vez na história da Colômbia um presidente de esquerda, viverá sua maior prova de fogo eleitoral desde a vitória de Gustavo Petro, em 2022. Mais de 41 milhões de colombianos vão às urnas neste domingo (08/03) para renovar o Congresso do país, que se consolidou no último período como uma das principais barreiras para as reformas estruturais propostas pelo governo de esquerda. Serão eleitos 102 senadores por voto popular, sendo duas das vagas reservadas para povos indígenas. Na Câmara de Representantes, 183 cadeiras estão em disputa, entre às quais há cotas para vítimas do conflito armado, povos afrocolombianos e indígenas. A eleição também terá consultas presidenciais para escolha dos candidatos de diferentes partidos, um termômetro para o primeiro turno presidencial em 31 de maio de 2026. Entretanto, o líder absoluto das pesquisas eleitorais, senador Iván Cepeda, foi impedido pelo órgão eleitoral de participar da consulta, mas segue habilitado para o pleito á Casa de Nariño. Em 26 de outubro de 2025, o Pacto Histórico realizou uma consulta interna que levou mais de 2,7 milhões de eleitores às urnas para escolher Cepeda como o sucessor de Petro, já que a Constituição colombiana atualmente proíbe a reeleição do presidente. O candidato de oposição mais bem situado nas pesquisas, Abelardo de la Espriella, também decidiu não participar das prévias. A expectativa, portanto, recai sobre a definição dos candidatos do centro, e da direita tradicional, ligada ao ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010). O primeiro turno da disputa presidencial ocorre em 31 de maio. O segundo turno, se houver, está previsto para 21 de junho. Congresso foi principal trincheira contra reformas de Petro A disputa deste domingo tem peso decisivo porque o Congresso se consolidou, ao longo do governo Gustavo Petro, como o principal espaço de disputa em torno das mudanças prometidas pela primeira gestão de esquerda da história da Colômbia. Eleito com a defesa de reformas estruturais nas áreas da saúde, do trabalho e da aposentadoria, Petro passou boa parte do mandato tentando equilibrar sua agenda com uma base política heterogênea e negociações com setores da direita. No período, conseguiu avanços na reforma agrária, aprovar as reformas trabalhista e da aposentadoria, mas ainda não viabilizou a reforma da saúde, uma das bandeiras mais sensíveis do governo que prevê a criação de um sistema público e gratuito. Laura Capote, da Secretaria Continental da Alba Movimentos e pesquisadora do Instituto Tricontinental, afirma que a principal lição do período é clara: sem maioria no Congresso, reformas estruturais ficam pelo caminho. Segundo ela, muitos avanços tentados pelo Executivo foram barrados de forma sistemática pelo Legislativo e, sem as maiorias necessárias, mudanças centrais podem ficar “apenas em boas intenções”. A leitura é semelhante à de Erika Prieto, advogada e especialista em democracia e regime eleitoral. Para ela, o bloqueio também tem relação direta com o perfil de quem ocupa o Parlamento. “Infelizmente, chegam mais pessoas ao Congresso que representam os interesses da minoria”, diz, ao mencionar empresários e grandes proprietários de terra. Na avaliação de Prieto, isso ajuda a explicar por que reformas estruturais seguem travadas em uma democracia que, segundo ela, nunca representou de fato as maiorias do país. René Ayala, analista político e diretor da agência Prensa Rural, vai além da correlação de forças entre governo e oposição. Para ele, o impasse expõe traços mais profundos do Estado colombiano. “Colômbia é um Estado desenhado para manter os poderes sem que possam ser tocados”, afirma. Ayala critica ainda o papel de instituições que, segundo ele, põem freio até mesmo a medidas de emergência e à política de salário mínimo, expressão de uma lógica de defesa dos privilégios das elites. É nesse cenário que o Pacto Histórico tenta transformar a eleição legislativa em um teste sobre sua capacidade de governar com mais margem institucional. A expectativa no governismo é ampliar as atuais 20 cadeiras no Senado e converter em votos a leitura de que Petro chega à disputa sem o desgaste anunciado por seus adversários. Ayala sustenta que o presidente mantém “um reconhecimento importante” e afirma que “não há o desgaste real que os grandes meios hegemônicos pretendem mostrar”. A aposta do campo governista também passa pelos resultados econômicos que pretende levar ao debate público. Entre eles, está o aumento de 23% do salário mínimo para 2026, tratado como um ativo eleitoral. Ayala diz que a medida tem impacto concreto sobre a vida da população trabalhadora. “O trabalho deste governo para posicionar o salário mínimo como uma garantia que dignifique os trabalhadores é uma ação real de impacto”, afirma. Capote avalia ainda que a votação acontece em uma Colômbia mais politizada do que em ciclos anteriores. Ela relaciona essa mudança ao processo aberto pelo acordo de paz de 2016 e à experiência de um governo de esquerda que ajudou a recolocar no centro do debate a disputa sobre os rumos do país. “A grande vitória deste governo é que a gente hoje tem mais consciência política”, resume. Na mesma linha, a pesquisadora atribui papel importante à comunicação pública. Segundo ela, o sistema de rádio e TV ajudou a mostrar que a Colômbia “não é só Bogotá ou Cali”, mas um país marcado pela diversidade de suas regiões, povos indígenas e afrocolombianos. Isso, diz Capote, permitiu que a população se aproximasse mais da realidade dos territórios. Ayala também vê uma mudança importante na disputa de ideias. Para ele, há hoje uma “maturidade política” maior no país e já não é apenas a imprensa comercial que determina as matrizes de opinião. Na avaliação do analista, esse processo ajuda a entender tanto a vitória de Petro em 2022 quanto o peso que as regiões devem voltar a ter na eleição deste domingo. Ao fundo dessa disputa está também o debate sobre a capacidade do próximo ciclo político de viabilizar reformas de maior alcance. A proposta de Constituinte lançada por Petro passou a condensar esse impasse: para setores do Pacto Histórico, ela responde aos limites impostos por um arranjo institucional que travou parte importante da agenda do governo. Consultas e candidaturas antecipam a corrida presidencial Embora a renovação do Congresso seja o eixo formal do pleito, a votação deste domingo também funciona como ensaio geral da sucessão presidencial. O mapa das consultas e o desempenho das forças políticas devem oferecer pistas sobre alianças, capacidade de mobilização e densidade eleitoral de cada campo. No bloco governista, Iván Cepeda segue como a principal referência. Escolhido na consulta interna do Pacto Histórico, ele aparece nas pesquisas como o nome mais competitivo da esquerda para o primeiro turno de 31 de maio. Ayala descreve o senador como um quadro distinto do presidente Gustavo Petro, menos incendiário no estilo, mas com grande força moral e política. “Iván tem algo particular: é um tipo pulcro, que não foi tocado pelas dimensões da corrupção. É um homem íntegro, sério e estudado. Há uma máxima que diz que ‘o poder da verdade’ é representado por ele, não apenas pelo trabalho com as vítimas, mas por ser alguém inatacável”, afirmou. O analista da Prensa Rural considera que essa imagem ajuda a explicar a competitividade de Cepeda. “Iván lê seus discursos e já foi criticado por isso. Ele diz que quer ser claro e preciso, para que as pessoas saibam que há um projeto estruturado. Petro era um político mais fogoso, mas as pessoas compreendem Iván como um homem sensato, um estadista que sabe mediar e escutar”, disse. O impedimento de Cepeda de participar da consulta presidencial deste domingo altera a dinâmica imediata do pleito, mas não apaga sua centralidade na corrida. Ao contrário, reforça a tendência de que as prévias sirvam menos para defini-lo e mais para medir o tamanho dos outros polos em disputa. No centro político, nomes como Claudia López e Sergio Fajardo aparecem como referências mais competitivas. A expectativa em torno desse campo está ligada justamente à capacidade de produzir uma candidatura com densidade suficiente para disputar a ida ao segundo turno. Já na direita tradicional, o uribismo segue buscando reorganização, com o Centro Democrático apostando em uma consulta que pode reposicionar sua liderança interna. Ayala afirma que a tendência é que a direita mais orgânica em torno de Álvaro Uribe se alinhe ao nome que sair mais forte desse processo, e aponta Paloma Valencia como uma referência importante desse setor. “A direita mais tradicional vai optar por dar força a quem ganhar sua consulta, provavelmente Paloma Valencia. Ela representa a oligarquia e a grande propriedade de terra no sul do país, tentando dar forma a esses interesses históricos no domingo”, avaliou. Ao mesmo tempo, a ausência de Abelardo de la Espriella nas prévias reforça a ideia de que parte da oposição prefere preservar seus nomes mais fortes para a disputa presidencial propriamente dita, sem se expor a um teste antecipado que possa reduzir fôlego político. A escolha do vice e o fator Trump No pleito que elegeu Gustavo Petro, a vice Francia Márquez foi apontada como trunfo importante ao angariar votos decisivos. Agora, ao formar a chapa encabeçada por Iván Cepeda, o desafio do Pacto Histórico não é apenas preservar seu eleitorado mais fiel, mas ampliar a frente política e social capaz de levá-lo a uma vitória já no primeiro turno ou, ao menos, a uma posição robusta para uma segunda rodada. Capote resume esse cálculo em números. “O Pacto está planejando ganhar no primeiro turno, mas é difícil. Precisamos de cerca de 5 milhões a 6 milhões de votos e não conseguiremos isso apenas dentro do Pacto. Será necessário buscar o ‘Frente pela Vida’ e outros setores [mais ao centro] para conseguir esse número necessário”, afirmou. Nessa equação, a composição da chapa pode servir para dialogar com setores ainda não plenamente integrados ao campo governista, ampliar presença territorial e sinalizar capacidade de coalizão. Mais do que um detalhe protocolar, a escolha da vice-presidência pode se converter em mensagem política sobre o tipo de frente que o Pacto pretende construir para defender seu legado e enfrentar a ofensiva conservadora. O debate também se cruza com pressões externas e internas sobre o governo colombiano, em um cenário regional mais hostil, depois do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, e do tensionamento entre o presidente colombiano e Donald Trump. Capote sustenta, porém, que, passado o período mais crítico, Petro vem operando com pragmatismo para evitar que tensões internacionais transbordem sobre a disputa doméstica. “Petro não é bobo e sabe que Bogotá não é Caracas. As concessões na política de drogas com Trump são necessárias para garantir que não se metam na eleição. É uma análise materialista: você precisa negociar quando o Exército mais poderoso do planeta pode te atacar”, analisou. Abelardo de la Espriella e os paralelos com Milei e Bukele Do lado opositor, o advogado Abelardo de la Espriella aparece, até aqui, como o adversário mais forte de Cepeda. Sua estratégia tem combinado discurso de linha dura, crítica frontal ao governo e tentativa de aglutinar diferentes correntes da direita colombiana em torno da promessa de restaurar autoridade, ordem e segurança. Capote vê nesse movimento uma operação calculada de importação de fórmulas da nova extrema direita latino-americana. “Ele copiou de maneira muito grosseira a estratégia de Bukele e Milei. Diz que é o ‘tigre’ e usa um discurso de direita fascista, xenófobo e racista. No contexto colombiano, para ele todos são guerrilheiros ou criminosos, usando esse arsenal argumentativo para atacar o governo”, afirmou. A pesquisadora considera que, em eventual segundo turno, a tendência é de fechamento de fileiras em torno dele. “Num segundo turno, toda a direita se uniria ao redor de Abelardo de la Espriella. Se há algo que a direita colombiana não tem é vergonha; não terão nenhum problema ético ou moral para se aglutinarem ao redor de um modelo focado apenas em segurança e privilégios”, disse. Esse diagnóstico ajuda a explicar por que Abelardo desperta atenção mesmo sem passar pelas prévias deste domingo. Seu crescimento eleitoral parece depender menos da máquina tradicional dos partidos e mais da capacidade de condensar o voto antigoverno, o eleitorado ultraconservador e o campo uribista que busca um nome com apelo mais agressivo. Sistema vulnerável Nas últimas semanas, Gustavo Petro protagonizou o debate sobre a segurança do processo eleitoral e elevou o tom das críticas ao sistema de apuração. O presidente cobra uma auditoria independente do software usado na eleição e afirma que apenas “mostrar” a ferramenta não basta para garantir confiança pública. “O software de pré-contagem ilegal que existe hoje é o mesmo que existia na fraude de 2014. Também temos provas de fraude em 2022”, escreveu. O presidente se refere aos sistemas de pré-contagem dos votos, que, nos últimos pleitos, tem registrado menos votos para a esquerda do que a contagem oficial, o chamado escrutínio. O “buraco” entre a pré-contagem e o escrutínio em 2022 foi da ordem de centenas de milhares de votos no Senado. Cerca de 390 votos foram adicionados ao Pacto após o escrutínio. Com a diferença, o Pacto saltou de 16 para 20 cadeiras de senadores. A advogada eleitoral Erika Prieto sustenta que a discussão sobre segurança do voto não pode ser tratada como “tema marginal” e não se limita às falhas operacionais. Ela chama atenção para a falta de capacidade do órgão eleitoral, a chamada Registraduría, de fiscalizar a compra de votos no interior do país. O registrador nacional Hernán Penagos nega a existência de uma “fraude sistêmica” e afirma que, pelo desenho do processo, não haveria espaço para adulteração, embora reconheça que delitos eleitorais como compra de votos são um risco permanente.