O artigo argumenta que a milícia no Rio de Janeiro não é uma anomalia recente, mas uma evolução do crime organizado que tem suas raízes na estrutura do jogo do bicho. Este último funcionou como uma "escola" criminosa, estabelecendo um modelo duradouro de poder baseado no controle territorial, na captura seletiva do Estado e na busca por legitimação social. A trajetória do bicheiro Capitão Guimarães exemplifica essa sofisticação, mostrando como o crime se institucionaliza ao converter capital ilegal em prestígio e influência política, estratégia que a milícia posteriormente tentou emular.
Principais tópicos abordados:
1. A relação histórica e hierárquica entre o jogo do bicho e as milícias.
2. O jogo do bicho como modelo estruturado e "indestrutível" de gestão criminosa integrada ao Estado.
3. A institucionalização e busca de respeitabilidade social como estratégia de perpetuação do crime.
4. A figura do Capitão Guimarães como caso emblemático dessa simbiose entre crime, Estado e sociedade.
“Eu não sou miliciano. Sou bicheiro”. A frase atribuída a Adriano da Nóbrega não expressa confusão nem bravata. É uma declaração de posição. Ao recusar o rótulo de miliciano e reivindicar o de bicheiro, Adriano aponta para uma hierarquia clara dentro do crime organizado: bicheiro é o bandido que deu certo. Não apenas porque veio antes, mas porque soube se institucionalizar, operar com o Estado e transformar ilegalidade em poder durável. A frase expõe o vínculo profundo entre duas estruturas que costumam ser tratadas como distintas: o crime em torno do jogo do bicho e a milícia, que hoje controla parcelas significativas da vida urbana do Rio de Janeiro.
Essa distinção importa porque desmonta uma das mentiras mais persistentes sobre o crime no Rio, que exploro ao longo de Como nasce um miliciano: a ideia de que a milícia seria uma anomalia recente, um desvio extremo de policiais corrompidos, algo corrigível com operações pontuais ou trocas de comando. O livro mostra o oposto. A milícia não rompe com o passado. Ela dá continuidade a ele. O jogo do bicho funciona como uma escola, ou, mais precisamente, como um curso avançado de gestão criminosa.
Ao longo de décadas, o bicho construiu um modelo de poder ilegal altamente funcional e, arrisco dizer, a esta altura do campeonato, indestrutível. Não se limitou à exploração do jogo – hoje legal e operado online. Organizou uma estrutura estável de governança criminosa, com controle territorial e eleitoral, hierarquia, regras internas, gestão de conflitos e, sobretudo, relações orgânicas com agentes do Estado. O bicho não sobreviveu apesar da polícia, do Judiciário ou da política. Sobreviveu porque soube capturá-los seletiva e eficientemente.
É nesse ponto que entra Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Ex-oficial do Exército, agente da repressão política e apontado como torturador do DOI-Codi pela Comissão Nacional da Verdade, Guimarães atravessa da violência oficial à contravenção sem ruptura ética ou institucional. Ele não rompe com o Estado ao ingressar no jogo do bicho; apenas muda de posição dentro dele, mantendo a mesma lógica de operação.
Guimarães usou por anos suas credenciais como agente da repressão para extorquir contrabandistas na Zona Portuária do Rio, apreendendo mercadorias irregulares para revendê-las aos próprios donos ou a concorrentes. Pressionado, deixou o Exército em 1981, sem que isso representasse queda real. Preso pouco depois, aproximou-se de Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, um dos bicheiros mais poderosos da época, de quem recebeu o direito de explorar o jogo. A ascensão foi rápida e acompanhada por acusações de homicídio, corrupção, formação de quadrilha e tortura – nenhuma delas capaz de produzir consequências reais, numa trajetória sustentada pela certeza de que, com bons advogados, quase tudo é negociável.
‘Para durar, o crime precisa ser aceito, naturalizado, integrado à vida social’.
Capitão Guimarães encarna o que o jogo do bicho produziu de mais sofisticado: crime com respeitabilidade, protegido por um verniz de institucionalidade. Não se limitou a comandar bancas e redes ilegais. Tornou-se dirigente de escolas de samba, presidente da Liga das Escolas de Samba, a Liesa, patrono do carnaval. Nas mãos de figuras como esta, o carnaval deixa de ser expressão cultural e passa a funcionar como estratégia de legitimação, capaz de converter dinheiro ilegal em prestígio social, influência política e blindagem simbólica.
Esse arranjo permitiu que a violência ficasse nos bastidores enquanto pessoas-que-todo-mundo-sabe-quem-são se exibissem como investidores da cultura. Essa é uma das lições centrais do bicho e ajuda a entender por que Adriano da Nóbrega se inspirava em Guimarães. Para durar, o crime precisa ser aceito, naturalizado, integrado à vida social. Isso lhe permite desfrutar legalmente do que foi conquistado ilegalmente. A milícia tentou herdar essa lógica, mas o fez tarde e mal ao não sustentar o verniz da legalidade que conseguiu ter até a década de 1990 e anos 2000, quando eram apoiados abertamente por políticos e chamadas de “autodefesas comunitárias” – até então, heróis.
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O sequestro e a tortura de jornalistas de O Dia, em 2008, e a CPI das Milícias, no fim do mesmo ano, encerraram de vez essa possibilidade. Ali acabou o projeto de Adriano. No livro mostro que sua admiração por Capitão Guimarães era um plano de carreira que incluía envelhecer no crime, atravessando governos e mantendo a influência – sem ser descartável.
Quando Adriano diz “eu sou bicheiro”, ele reivindica pertencimento a essa tradição e o “direito” de viver do que construiu, como alguém que deu certo porque entendeu que o problema nunca foi a ilegalidade em si, e sim quem tem autorização social e institucional para exercê-la.
Separar jogo do bicho, carnaval e milícia é um erro conveniente, pois permite tratar o bicho como folclore carioca, o carnaval como tradição cultural e a milícia como uma aberração violenta. O livro desmonta essa narrativa. A milícia, assim como o bicho, não nasce do fracasso do Estado. Nasce do seu funcionamento normal e exatamente por isso, não pode e não deve ser chamado de poder paralelo. O bicheiro é o bandido que deu certo porque aprendeu a operar exatamente onde ilegalidade, Estado e cultura deixam de ser opostos e passam a trabalhar juntos.
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