Resumo objetivo:
O artigo critica a hipocrisia em torno do Dia da Mulher, destacando que, apesar dos discursos de apoio, as mulheres ainda enfrentam desqualificação e misoginia na política e na sociedade. Ele aponta que a presença feminina na política é limitada e desproporcional (apenas 18% das cadeiras na Câmara em 2022), refletindo uma estrutura patriarcal e machista. Além disso, ressalta que as conquistas históricas foram marcadas por desigualdades interseccionais, onde mulheres negras e periféricas frequentemente permaneceram invisibilizadas.
Principais tópicos abordados:
1. Crítica ao simbolismo vazio do 8 de março versus a realidade de desqualificação e agressões contra mulheres.
2. Desigualdade de gênero na política brasileira, com exemplos da sub-representação feminina e barreiras estruturais.
3. Interseccionalidade e feminismo negro, destacando como raça, classe e gênero estruturam as desigualdades.
4. Falta de apoio partidário e estrutural para mulheres, que são frequentemente relegadas a papéis secundários.
5. Exemplos de resistência e conquistas, como Benedita da Silva e Maria Luiza Fontenele, ainda tratados como casos isolados.
O 8 de março é sempre marcado por palavras reconfortantes, presenças quando convenientes e externalizações de que “estamos juntas na luta”, embora a realidade seja completamente diferente. No dia a dia, as mulheres são constantemente desqualificadas no cenário político, pois continuam sendo avaliadas a partir de uma métrica patriarcal arcaica que, em pleno século XXI, ainda insiste na premissa da inferioridade feminina.
Mesmo com os avanços conquistados na sociedade, somos diariamente confrontadas, desrespeitadas e agredidas por meio de discursos misóginos e depreciativos. Nunca nos disseram que seria fácil — e tampouco esperávamos que fosse —, uma vez que a nossa meta é a equidade de gênero.
A presença ativa de uma mulher na política para defender os interesses de outras é fruto de uma longa luta que antecede as nossas próprias histórias. Historicamente, o feminismo hegemônico de matriz liberal ganhou visibilidade por meio de mulheres brancas de classes média e alta, insatisfeitas com as amarras do espaço privado. Contudo, como aponta o feminismo negro, a emancipação dessas mulheres se sustentou na manutenção da divisão racial e sexual do trabalho. Enquanto elas lutavam para ocupar a esfera pública, delegavam o trabalho reprodutivo e de cuidado a mulheres negras e periféricas, que permaneciam invisibilizadas para servi-las. Foi a partir da organização do movimento de mulheres negras que conseguimos pautar a interseccionalidade, escancarando como os marcadores de raça, classe e gênero sempre estruturaram a desigualdade e a realidade das mulheres brasileiras.
Trazendo essa reflexão para o contexto político recente, o fato de termos tido apenas uma mulher na Presidência da República no Brasil — que, ainda por cima, sofreu um impeachment em seu segundo mandato — é um reflexo nítido de uma sociedade machista.
Embora devamos nos orgulhar imensamente por essa conquista histórica, o questionamento que ecoa é: “Por que apenas uma?”. Especialmente quando reconhecemos que o Parlamento brasileiro conta com a força contínua de mulheres negras, aguerridas e firmes como Benedita da Silva — uma liderança que não apenas participou ativamente da Assembleia Constituinte de 1988, mas que segue atuando de forma incansável no Congresso Nacional pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Relembramos também o marco de 1985, quando, mesmo sob forte pressão da oposição, Maria Luiza Fontenele foi eleita a primeira prefeita de uma capital (Fortaleza – CE) pela sigla do PT. Diante de exemplos tão potentes, continuamos a nos perguntar por que ainda é tão difícil para as mulheres avançarem na política institucional.
Temos inspirações fortes, mas que, infelizmente, são tratadas como casos isolados. Podemos até formar grandes quadros femininos, mas muitas vezes não recebemos o apoio partidário e estrutural necessário para nos destacarmos. Preferencial e majoritariamente, a lógica do sistema impõe que um homem seja colocado como cabeça de chapa, restando a nós — que somos a maioria do eleitorado nacional — o trabalho de base para elegê-los, e raramente o contrário. Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) escancaram esse paradoxo cruel: embora sejamos a maioria do eleitorado brasileiro, cerca de 52%, ocupamos uma fatia ínfima dos espaços de decisão. Mesmo quando celebramos o “número recorde” de mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados em 2022, estamos falando de apenas 18% das cadeiras. Ou seja, a presença feminina na política até tem crescido, mas a desproporção em relação ao domínio masculino ainda é esmagadora.
Quando nos mostramos preparadas para o embate e provamos o nosso potencial, somos frequentemente vistas como uma ameaça. Isso revela a dinâmica “normal” de uma política pragmática, que muitas vezes desvia de seu propósito de resolver as necessidades do povo para atuar na manutenção do status quo. Logo, precisamos fazer uma reflexão profunda e buscar um encaminhamento de unidade feminina que nos coloque como prioridade, deixando de ser reféns das amarras cruéis do patriarcado.
As jovens merecem espaço, oportunidades, investimentos políticos, formação e o devido apadrinhamento institucional — fator que, infelizmente, ainda é determinante para a viabilidade no cenário eleitoral. Defendo mais mulheres jovens no poder, nos centros de decisão e na formulação de políticas públicas reais. Somos nós, as jovens de hoje, que seremos as próximas Dilmas Rousseff, Marielles Franco, Beneditas da Silva, Marias Luizas Fontenele, Luiziannes Lins, Gleisis Hoffmann, Margaridas Maria Alves e tantas outras que lideraram movimentos e lutas históricas pelos direitos das mulheres, tanto na política social quanto na disputa eleitoral.