O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, reafirmou o princípio de não interferência nos assuntos internos de países latino-americanos, declarando que os recursos e as escolhas de parcerias da região cabem exclusivamente aos seus povos. Ele criticou a interferência externa, em referência à estratégia dos EUA de pressionar países a cortarem laços com a China, e destacou que a cooperação sino-latino-americana é baseada em apoio mútuo, sem cálculos geopolíticos. O artigo também relata ações concretas dos EUA na região, como pressão sobre Panamá, Peru e Venezuela, que impactaram projetos e exportações ligadas à China.
Principais tópicos abordados:
1. A posição diplomática da China de não interferência e sua defesa da cooperação Sul-Sul com a América Latina.
2. A crítica à política externa dos EUA para a região, baseada na Doutrina Monroe, e suas ações para limitar a influência chinesa.
3. Exemplos concretos de pressão estadunidense e suas consequências em países como Panamá, Peru e Venezuela.
4. O contexto da coletiva de imprensa durante as Duas Sessões chinesas e a visão da China sobre a ascensão do Sul Global.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, afirmou, neste domingo (8), que os recursos da América Latina pertencem aos povos latino-americanos e que cabe a eles escolher seus próprios caminhos e parceiros, em resposta ao questionamento do Brasil de Fato sobre a interferência estadunidense nos assuntos internos de países latino-americanos, assim como nas relações entre a China e a região.
A resposta foi dada na coletiva de imprensa anual do ministro das Relações Exteriores da China durante as Duas Sessões, o encontro político mais importante do calendário chinês, que reúne a Assembleia Popular Nacional e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.
“O século 21 não deve repetir os roteiros do século 19”, disse Wang Yi na resposta ao Brasil de Fato. “A cooperação China-América Latina consiste na ajuda e no apoio mútuo entre países que são do Sul Global. Nunca fazemos cálculos geopolíticos, nunca interferimos nos assuntos internos de outros países e nunca pedimos que escolham lados.”
A Estratégia Nacional de Segurança, publicada no ano passado pelo governo de Donald Trump, afirma que os EUA devem restaurar a Doutrina Monroe para garantir a preeminência estadunidense no Hemisfério Ocidental e o acesso a geografias-chave na região.
O documento determina que Washington atue para pressionar países da região a cortar laços econômicos, comerciais e de outro tipo com a China, país que, no texto, aparece como “competidor não-hemisférico”.
O texto também instrui todas as embaixadas estadunidenses a identificar oportunidades de negócios para empresas dos Estados Unidos, além de reservar ao Departamento de Guerra a prerrogativa de agir no hemisfério onde governos não cooperarem com os interesses de Washington.
Os Estados Unidos já colocam em prática o que estipularam na estratégia lançada em novembro do ano passado. Sob pressão de Washington, o Panamá transferiu o controle de dois portos operados por empresa de Hong Kong; no começo do governo Trump, o Panamá rapidamente abandonou Iniciativa do Cinturão e Rota. No Peru, o governo foi pressionado a bloquear a expansão do megaporto de Chancay, construído pela China. Em janeiro de 2026, forças estadunidenses invadiram a Venezuela, assassinaram cerca de 100 pessoas e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, após esse fato as exportações de petróleo venezuelano à China caíram 75%, com navios-tanque chineses impedidos de carregar. Cuba, que dependia do fornecimento de petróleo venezuelano, enfrenta agravamento da crise econômica com a interrupção desse fluxo imposta pelos Estados Unidos.
Segundo a agência de notícias Reuters, com base em documentos internos da estatal venezuelana PDVSA e em dados de monitoramento de navios, as exportações de petróleo da Venezuela para a China teriam caído de uma média de 642 mil barris por dia em 2025 para cerca de 166 mil barris por dia em fevereiro de 2026, após a brutal agressão dos EUA a Caracas. A PDVSA não respondeu aos pedidos de comentário sobre os dados.
Wang Yi lembrou que a China e a América Latina lançaram no ano passado cinco programas conjuntos, de solidariedade, desenvolvimento, civilização, paz e intercâmbio entre povos, e reiterou que a cooperação não é dirigida contra terceiros, nem deve sofrer interferência.
A coletiva de Wang Yi é um dos momentos mais acompanhados da diplomacia pública chinesa. Embora coletivas de ministros das Relações Exteriores ocorram desde os anos 1990 durante as Duas Sessões, foi a partir de 2014, já com Wang Yi no cargo, que o evento ganhou formato anual fixo e transmissão ao vivo internacional, tornando-se referência para analistas e correspondentes estrangeiros. O ministro respondeu 21 perguntas, das quais 11 foram de mídias estrangeiras.
A ascensão coletiva do Sul Global
“A ascensão coletiva do Sul Global é a marca mais evidente da grande transformação mundial”, disse Wang Yi ao responder a uma pergunta sobre o papel dos países em desenvolvimento na reforma da governança global. O chanceler acrescentou que, nas últimas quatro décadas, a participação do Sul Global na economia mundial saltou de 24% para mais de 40%, tornando o conjunto desses países o principal motor da multipolarização.
Wang Yi defendeu o multilateralismo como o que chamou de “escudo protetor” dos países do Sul Global e cobrou reformas na Organização das Nações Unidas (ONU) para ampliar a representatividade das nações em desenvolvimento. “A posição central da ONU deve ser mantida, sem que haja hesitação ou retrocessos”, afirmou, acrescentando que plataformas, como os Brics e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX), devem orientar-se pela Carta da ONU e contribuir para a reforma do sistema de governança global.
O ministro detalhou os cinco princípios da Iniciativa de Governança Global, lançada pelo presidente Xi Jinping em 2025, como uma resposta direta ao que descreveu como um agravamento do déficit de governança internacional: igualdade soberana, Estado de Direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada no povo e orientação para a ação. A ênfase na abordagem centrada no povo como eixo de uma nova governança global foi destacada pelo chanceler como contraposição ao que classificou como avanço do unilateralismo e da lei do mais forte. “O mundo não pode regredir à lei da selva. Ter o punho mais forte não equivale a ter a razão”, disse.
Sobre as relações com a África, Wang Yi reforçou o compromisso da China em isentar de tarifas 100% das categorias de produtos africanos a partir de 1º de maio deste ano. O chanceler ressaltou que a tradição chinesa de realizar a primeira visita do ano ao continente africano completa 36 anos sem interrupção, e que a relação é construída “geração após geração, com o coração”.
Agressão ao Irã
Wang Yi classificou a agressão contra o Irã como “um conflito que nunca deveria ter ocorrido e que não é benéfico para nenhuma das partes”. O chanceler cobrou o cessar-fogo imediato das operações militares dos Estados Unidos e de Israel e alertou para o risco de escalada regional.
O ministro enumerou cinco princípios que, segundo a China, devem orientar a resolução do conflito: respeito à soberania nacional; proibição do uso indiscriminado da força; não interferência em assuntos internos; solução política dos problemas regionais; e papel construtivo das grandes potências. “Os grandes países devem defender a justiça e agir corretamente, contribuindo com energia positiva para a paz e o desenvolvimento no Oriente Médio”, afirmou, em evidente referência aos Estados Unidos.
Wang Yi informou que, no momento da coletiva, as missões diplomáticas chinesas no Irã e nos países do Golfo Pérsico trabalhavam ativamente para garantir a saída segura de cidadãos chineses da região.
Sobre Gaza, Wang Yi reafirmou que a solução dos dois Estados é o único caminho legítimo e reconhecido internacionalmente. O ministro alertou que qualquer mecanismo criado para tratar do pós-guerra em Gaza, incluindo o “Comitê de Paz” proposto pelos Estados Unidos, deve promover essa solução e não solapá-la. “A comunidade internacional não pode aceitar que a questão palestina seja novamente marginalizada”, afirmou.
Apoio à causa palestina
O chanceler classificou a situação em Gaza como uma questão que toca o “limite moral da comunidade internacional” e disse que a China apoiará a causa palestina como um grande país responsável. Pediu ainda que a ONU exerça papel central no processo, sem que o tema seja relegado a arranjos paralelos.
Possível visita de Trump e tensões com Takaichi
Questionado sobre a possível visita do presidente estadunidense Donald Trump à China no final de março e seus possíveis desdobramentos, Wang Yi defendeu o diálogo. “A falta de interação entre os dois países só levará a mal-entendidos e julgamentos equivocados, e uma escalada rumo ao conflito e ao confronto prejudicará ainda mais o mundo”.
Sem confirmar a data, o chanceler afirmou que a agenda de alto nível já está sendo debatida e que falta a ambos os lados se prepararem adequadamente, criarem o ambiente propício, gerenciarem divergências e eliminarem interferências desnecessárias.
“Contanto que ambos os lados sejam sinceros e confiáveis, acredito que poderemos ampliar a lista de cooperação e reduzir a lista de problemas”, disse Wang Yi.
O chanceler foi consultado sobre as expectativas da China para as relações com o Japão sob o governo de Sanae Takaichi. Wang Yi reiterou a posição da China: crítica às declarações da primeira-ministra que, no ano passado, afirmou que um eventual conflito em Taiwan constituiria uma “situação de ameaça existencial” ao país, o que autorizaria o uso do direito de autodefesa coletiva.
Para Wang Yi, em um ano em que se comemorava o 80º aniversário da vitória contra a agressão japonesa, caberia ao Japão refletir sobre os atos de agressão e colonização que cometeu no passado, incluindo em Taiwan, e não reivindicar o direito de interferir em assuntos internos da China. “A questão de Taiwan é um assunto interno da China. Que legitimidade tem o Japão para interferir nela?”.
Wang Yi lembrou ainda que 2026 marca o 80º aniversário da abertura do Tribunal de Tóquio, que revelou os crimes do militarismo japonês, e disse esperar que o povo japonês não permita a repetição dos mesmos erros.
As Duas Sessões terminam nesta semana. A sessão do Congresso Nacional do Povo termina no próximo dia 12 de março, já a da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, no dia 11.