O ex-ministro Franklin Martins foi detido e deportado do Panamá durante uma conexão aérea, sem receber explicações iniciais para a ação. As autoridades panamenhas posteriormente reconheceram um erro e pediram desculpas após intervenção diplomática do Itamaraty. O interrogatório policial focou em sua prisão política em 1968, sugerindo que o episódio histórico, possivelmente identificado em bases de dados internacionais, motivou a retenção.
Principais tópicos abordados:
1. A detenção e deportação sem justificativa formal.
2. A intervenção diplomática e o reconhecimento de erro pelas autoridades do Panamá.
3. O interesse das autoridades no histórico político do ex-ministro, especificamente sua prisão durante a ditadura militar.
4. A menção ao endurecimento da lei migratória panamenha como contexto do episódio.
Ex-ministro é retido em aeroporto do Panamá e deportado ao Brasil
Franklin Martins relata que autoridades panamenhas reconheceram erro e pediram desculpas; chanceleres de ambos os países conversaram sobre episódio
O ex-ministro Franklin Martins foi detido no Aeroporto Internacional de Tocumen, na Cidade do Panamá, na madrugada da última sexta-feira (06/03) enquanto realizava uma conexão para a Cidade da Guatemala, onde participaria de um seminário universitário.
Ao desembarcar no aeroporto, seu passaporte foi retido e ele foi submetido a um interrogatório. Após um tempo de espera, um agente informou que ele não poderia seguir viagem e que seria deportado para o Brasil. Franklin pediu que as autoridades panamenhas entrassem em contato com a Embaixada do Brasil ou permitissem que ele próprio ligasse, mas o pedido foi negado. Não houve explicações sobre os motivos da deportação.
A Opera Mundi, o ex-ministro relatou que o Itamaraty interveio diplomaticamente. O chanceler brasileiro Mauro Vieira entrou em contato com o ministro das Relações Exteriores do Panamá, Javier Eduardo Martínez-Acha Vásquez. As autoridades panamenhas reconheceram que houve um erro e pediram desculpas – resposta formal que deve ser divulgada nas próximas horas.
‘Tempos turbulentos’
O ministro destacou que durante o interrogatório os policiais demonstraram especial interesse em uma prisão sofrida por ele, em 1968, durante a ditadura militar brasileira. Ele afirmou aos policiais que se tratava de uma prisão por motivos políticos, ligada à luta contra o regime militar, e não um crime comum.
Em 1969, Franklin participou do sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, realizado pela Ação Libertadora Nacional e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro, para garantir a libertação de presos políticos.
“Claro que esse é o motivo”, disse, ao acrescentar que o episódio não foi citado e que, provavelmente, seu nome apareceu durante o cruzamento de informações das bases de dados panamenhas e norte-americanas, cuja cooperação é intensa.
Ele também mencionou ter ouvido dos agentes sobre o endurecimento da lei migratória panamense de 2008 , após um decreto presidencial emitido no ano passado. Franklin diz não acreditar em perseguição pessoal, mas considera o episódio “um sinal dos tempos turbulentos que estamos vivendo”.
Segue a íntegra do relato divulgado por Franklin Martins:
Detido (ou retido) no aeroporto do Panamá e deportado de volta para o Brasil
No dia 6 de março de 2026, pouco depois da 1h da madrugada, deixei o aeroporto do Galeão a bordo de um avião da Copa Airlines. Meu destino final era a Cidade da Guatemala, onde participaria durante três dias de um seminário promovido pela iniciativa “Reconstruindo estados de bem-estar social nas Américas”, na Universidade Rafael Landívar. No trajeto, faria uma conexão na Cidade do Panamá.
Lá chegamos por volta das 6h. O voo para a capital da Guatemala deveria sair duas horas e meia depois. Ao desembarcar do avião, no final do “finger” que dava para a entrada da área internacional do aeroporto, dois policiais à paisana pediam aos passageiros seus passaportes, que eram examinados rapidamente e devolvidos. Quando entreguei meu documento, um dos agentes dirigiu-se ao seu colega (provavelmente seu superior) e entregou-lhe o passaporte. Imediatamente o policial pediu-me que o acompanhasse. Perguntei-lhe o motivo. Respondeu apenas que precisava fazer uma entrevista comigo.
Levou-me até as dependências de uma área fechada, ainda na parte internacional do aeroporto, que não possuía qualquer identificação. Ao chegarmos, pediu que eu me sentasse numa cadeira em frente à mesa e dirigiu-se à sala ao lado. Falou com alguém e voltou em poucos minutos. Os dois ambientes eram separados por uma grande parede de vidro. Através dela, os chefes dos interrogadores e outros policiais, sem serem vistos pelo interrogado, poderiam acompanhar tudo que estava acontecendo e sendo dito na sala ao lado.
O agente pediu-me que preenchesse um documento com meus dados (nome, profissão, idade, endereço, motivo da viagem, se já tinha sido preso, motivo da prisão etc). Perguntei a razão da entrevista e ele não quis responder. Disse que era um procedimento padrão autorizado pela lei de migração de 2008 e que depois me daria outras informações. E começou a fazer perguntas que, de um modo geral, apenas repetiam o que já estava informado no documento que eu havia preenchido. Pediu-me provas de que eu iria participar de um seminário numa universidade da Guatemala. Mostrei-lhe a programação, que ele fotografou. Tirou fotos minhas também e colheu minhas impressões digitais três vezes.
Visivelmente, o policial estava querendo ganhar tempo. Deteve-se especialmente no item da minha prisão em 1968, em Ibiúna. Preferi não entrar em detalhes. Respondi apenas que havia sido preso por motivos políticos. O Brasil vivia sob uma ditadura militar e eu havia lutado durante 21 anos contra ela – e isso não era um crime, mas um dever para os democratas. Depois de mais algumas perguntas sem importância, pediu-me que aguardasse. Entrou na sala ao lado, separada da dependência em que estávamos pela grande parede de vidro. E não voltou mais.
Depois de uns 20 minutos sozinho na sala, preocupado com a possibilidade de perder o voo do Panamá para a Guatemala, que sairia às oito e pouco da manhã, bati na porta várias vezes. Não responderam. Pouco depois, outro policial veio falar comigo. Disse que meu caso tinha sido decidido por seus superiores. Eu não poderia viajar para a Guatemala. Seria deportado de volta para o Brasil no primeiro voo com destino ao Rio de Janeiro.
Perguntei-lhe a razão. Ele tampouco explicou claramente. Como seu colega, voltou a falar na Lei de Migração de 2008. Disse que ela determinava que estrangeiros não poderiam entrar no Panamá ou fazer conexões para outros países através do Panamá se tivessem cometido crimes considerados graves, como tráfico de drogas, crimes financeiros, assassinatos, sequestros etc. Mais uma vez afirmei que não havia cometido crime algum, mas lutado contra uma ditadura. E me orgulhava disso.
Pedi então que eles entrassem em contato com a Embaixada do Brasil ou me permitissem fazer uma ligação telefônica para nossa representação diplomática. O policial respondeu que não fariam isso. Alegou que se tratava de uma decisão soberana e exclusiva das autoridades panamenhas.
Por volta das 10h, deixei a sala acompanhado por dois policiais – sem identificação, mas provavelmente integrantes da Policía Nacional – e fui levado para o andar de baixo, sendo confinado numa sala de Migración de Panamá, ao lado dos guichês de controle dos passaportes dos viajantes. Lá fiquei por mais quatro horas sem qualquer explicação. Novamente, fui fotografado de frente e perfil. Colheram por duas vezes minhas impressões digitais.
Pelo menos, os funcionários da Migración eram mais sociáveis. Permitiram que eu fosse ao banheiro. Autorizaram a compra de um hamburguer na hora do almoço. Ajudaram a recarregar meu celular. E procuraram mostrar simpatia, dando a entender que sabiam que, às vezes, erros eram cometidos com os “retenidos”. Voltaram a falar na Lei de 2008, mas deixaram escapar que sua aplicação havia se tornado mais rígida depois de decretos recentes do governo. Em 2025, os Estados Unidos e o Panamá assinaram acordos bastante abrangentes na área da segurança.
Pouco depois das 14h, outro funcionário da Migración, levando meu passaporte e a passagem da Copa Airlines da Cidade do Panamá para o Rio de Janeiro, acompanhou-me até o portão de embarque. O documento foi entregue à chefe dos comissários de bordo, com a determinação de que só me fosse devolvido no Rio. Ao chegarmos na Cidade Maravilhosa, a aeromoça entregou-o a uma funcionária brasileira da Copa Airlines, que me acompanhou até a sala da Polícia Federal ao lado dos guichês de controle dos passaportes. Em um minuto, recebi de volta o documento.
Uma observação final: é evidente que não se tratou de uma operação fortuita. Ela foi planejada, provavelmente a partir do cruzamento de informações das bases de dados panamenhas e/ou norte-americanas – a cooperação entre os órgãos de segurança dos dois países é intensa – com os nomes dos passageiros do voo. Não creio que se tratou de uma perseguição à minha pessoa. Devem estar adotando esse procedimento como um padrão. Talvez seja um sinal dos tempos turbulentos que estamos vivendo.
Será que quem lutou contra a ditadura militar no Brasil e, em algum momento, foi condenado pelos tribunais militares daquela época, não deve ser alertado se for visitar o Panamá ou mesmo fazer uma conexão para outro país? Não seria o caso do governo brasileiro, através de seus representantes diplomáticos, conversar sobre esses abusos com as autoridades panamenhas?