Resumo objetivo:
A especialista Isabela Agostinelli critica a ofensiva militar conjunta dos EUA e Israel contra o Irã, destacando a ausência de justificativas para o ataque, que ocorreu apesar de negociações diplomáticas avançadas para um acordo nuclear. Ela argumenta que a ordem regional buscada por esses países "é baseada no caos" e que o Irã mantém coesão institucional para resistir, retaliando com fechamento do Estreito de Ormuz e ataques a instalações dos EUA no Golfo.
Principais tópicos abordados:
1. A ofensiva militar dos EUA e Israel contra o Irã e suas consequências (mortes, assassinato do líder Khamenei).
2. As retaliações iranianas, incluindo o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques a bases estadunidenses.
3. A análise crítica da especialista sobre a ruptura das negociações nucleares e a estratégia dos EUA e Israel.
4. A capacidade de resistência do Estado iraniano e o posicionamento de potências como China e Rússia, que priorizam interesses comerciais.
‘Ordem que Israel e EUA buscam no Oriente Médio é baseada no caos’, afirma especialista
Isabela Agostinelli, professora de Relações Internacional da FECAP, destaca total ausência de justificativas à ofensiva contra o Irã
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã completa uma semana neste sábado (07/03) com ataques diários contra o país persa que levaram à morte de pelo menos 1.332 pessoas, entre elas, o assassinato do líder supremo do país, o aiatolá Khamenei.
Em contrapartida, a retaliação iraniana aos ataques de Washington e Tel Aviv, mantém-se firme com bombardeios contra as instalações norte-americanas nos países do Golfo Pérsico e o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial comercializado no mundo.
Na avaliação de Isabela Agostinelli, professora de Relações Internacional da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o Estado iraniano é forte o suficiente para seguir sem Khamenei. Ela ressalta que desde 1979 o país enfrenta as tentativas de mudança de regime de Washington e que a estrutura institucional e militar do país persa mantém coesão suficiente para enfrentar pressões externas.
Em entrevista a Opera Mundi, a pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI), desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) analisa o cenário desta primeira semana do conflito, em particular, a retaliação iraniana aos ataques de Washington e Tel Aviv, incluindo bombardeios contra as instalações norte-americanas nos países do Golfo Pérsico e o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial comercializado no mundo.
Em sua avaliação, “a ordem que Israel e Estados Unidos buscam no Oriente Médio é baseada no caos”. Sobre a decisão de Washington de promover os ataques, ela destaca que os ataques ocorreram em meio a conversas diplomáticas que, efetivamente, estavam avançadas e poderiam resultar em um acordo ainda mais abrangente do que o firmado, em 2015, durante o governo de Barack Obama.
Agostinelli, que é também pesquisadora do Instituto de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), acrescenta que China e Rússia tendem a priorizar seus interesses comerciais e estratégicos com os países do Golfo, evitando um envolvimento direto no confronto.
Acompanhe a entrevista
Opera Mundi: Isabela, entramos na primeira semana de guerra neste sábado (07/03), qual seu balanço da decisão de Washington de romper as negociações nucleares com o Irã. Era jogo cena aquilo?
Isabela Agostinelli: Não acredito que tenha sido um jogo de cena. Os Estados Unidos e o Irã estavam há semanas em processo de negociação para a assinatura de um novo acordo nuclear, até mais ambicioso do que o assinado no governo Obama, o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, por sua sigla em inglês). Mediadas pelo Omã, as negociações estavam, sim, acontecendo em um contexto de extrema sensibilidade, logo após os protestos no Irã no começo do ano, além da circunstância que se inaugurou em Gaza após a criação do Conselho de Paz e o início dos projetos de reconstrução da região.
Também se inclui aqui o fato de os aliados iranianos na região, o Eixo da Resistência, estarem bem enfraquecidos. Então, a gente tem que perguntar: por que esse ataque conjunto de Estados Unidos e Israel ao Irã aconteceu agora? Por que não antes? Por que não depois? A quem interessa de fato acabar com o processo de negociação?
Chama muita atenção é o fato de o Ministro das Relações Exteriores do Omã, Badr bin Hamad Al Busaidi, ter afirmado em entrevista à CBS, horas antes dos ataques ao Irã, que eles estavam muito perto de fechar o acordo com o Irã se comprometendo a não ter estoque de urânio enriquecido, além de permitir inspeções recorrentes da Agência internacional de Energia Atômica (AIEA).
Então, se havia uma proximidade do acordo, via diplomacia, por que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã? Alguns oficiais americanos, do Pentágono, afirmaram ao Congresso que não havia nenhum sinal de que o Irã atacaria os Estados Unidos ou Israel, ou seja, não há justificativa alguma que legitimasse essa ação de “ataque preventivo”, que por si só também não é visto como legítimo pelo Direito Internacional.
O que os Estados Unidos ganham com isso?
Não dá para saber exatamente o que os Estados Unidos estão ganhando. Do ponto de vista de Israel, seria uma tentativa de expandir suas ambições coloniais para a formação da Grande Israel, que além da Palestina inclui territórios do Líbano e da Síria. Uma hipótese seria pressionar sectarismos no Irã e transformá-lo numa Síria, que hoje está toda dividida também. Talvez explorar as demandas curdas, por exemplo, e isso geraria uma instabilidade interna no Irã. Mas são apenas hipóteses sem possibilidade de confirmação imediata.
A pergunta que ainda não foi respondida é: o interesse de atacar veio de Israel, houve pressão israelense ao governo Trump para fazer esse movimento? Se sim, por quê? E por que Trump aceitou? A racionalidade por trás dos ataques ainda não está revelada. Mas, os efeitos já estão materializados: mais de 1000 iranianos mortos pelas bombas israelenses e americanas, diversos ataques do Irã às bases americanas no Golfo, invasão de Israel no sul do Líbano, bloqueio das fronteiras de Gaza e checkpoints na Cisjordânia…
Em resumo, desestabilização ainda maior de uma região já em crise generalizada. Uma crise, inclusive, que parece lucrativa para alguns atores. Fica cada vez mais claro que a ordem que Israel e Estados Unidos buscam no Oriente Médio é uma ordem baseada no caos.
Internamente, como fica a questão da linha sucessória da liderança suprema no país? E, em termos de pressão para uma mudança de regime?
Desde a Revolução de 1979, o projeto de construção de Estado e de regime é focado na grande estratégia de sobreviver às diversas tentativas de mudança de regime. O próprio Trump afirmou diversas vezes que o regime iraniano é uma ameaça aos Estados Unidos e que, portanto, deveria ser derrubado.
Então tem duas grandes justificativas por parte dos americanos ao atacar o Irã: que o país persa é uma ameaça existencial aos Estados Unidos e que é necessário acabar com o regime e seu suposto programa nuclear. A figura do Khamenei centraliza essa ameaça e seu assassinato seria mais simbólico.
O Estado iraniano é forte o suficiente para seguir sem o Khamenei. Claro que as lideranças, inclusive religiosas, carregam um peso importante de união nacional e tudo mais, mas não são as únicas a manter a coesão das elites política e militar, que estão, pelo menos por enquanto, bem articuladas em função da defesa iraniana diante desses ataques externos.
Há sim uma pressão dos Estados Unidos para mudar o regime, mas isso só será possível, acredito, com ocupação territorial, como foi no Iraque e Afeganistão. Até o momento os ataques todos foram aéreos, isso não é garantia de mudança de regime.
Como você avalia a estratégia iraniana de atacar as bases e as instalações de petróleo nos países do Golfo?
O Irã não esperou 12 dias, como em junho de 2025, para envolver os ativos estratégicos dos EUA na região: as monarquias árabes do Golfo. Poucas horas depois dos ataques de EUA e Israel, o Irã logo começou a bombardear bases militares americanas no Bahrein, nos EAU, no Kuwait e no Catar. Esses países têm ótimas relações com EUA, mas estão vendo que não podem contar com a proteção dele.
Em setembro de 2025, Israel atacou o Catar. O Trump meio que forçou o Netanyahu a pedir desculpas, mas esse movimento acendeu mais um alerta para essas monarquias do Golfo. Todas as guerras foram iniciadas por Israel ou Estados Unidos. Isso faz com que as monarquias do Golfo, que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo, comecem a perceber que na verdade a grande ameaça para a estabilidade regional é Israel, não Irã, como elas percebiam desde a Revolução de 79 e o início da Guerra Irã-Iraque (1980-1988).
Claro que não são todas as monarquias que pensam assim, muito menos que expressam isso publicamente. É uma hipótese que alguns analistas que acompanham a política externa dos países do Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo (CCG) vêm levantando diante das posições mais cautelosas delas. Mas há exceções, principalmente os Emirados árabes, que estão muito mais com Israel. De qualquer maneira, as monarquias do Golfo foram colocadas meio que no centro das batalhas.
Qual o impacto dessa estratégia?
Mesmo que os ataques sejam direcionados às bases americanas nesses países, os sistemas de defesa acabam fazendo com que resquícios dos mísseis atinjam áreas civis. Mais do que isso, o Irã está tentando atingir a economia delas. O fechamento de aeroportos foi reflexo disso. Os aeroportos de Dubai e Doha são um dos mais agitados do mundo, são ponto de conexão entre o Ocidente e o Oriente.
Somado a isso, o Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo todo, vem tentando a atingir a economia regional e, portanto, global.
Os resultados mais materiais ainda precisam ser mapeados, mas já é uma ação que busca evidenciar os custos de ser aliado dos Estados Unidos numa região em que Israel, principal aliado dos americanos, será sempre coberto e ajudado, e as monarquias do Golfo estão sentindo esses custos já.
China e Rússia se manifestaram diplomaticamente contra a ofensiva, você vê alguma possibilidade de envolvimento desses países?
Até agora, Rússia e China não fizeram movimentos de apoio material ao Irã. Não é interesse delas se envolverem diretamente na guerra. No máximo pode haver envio de armamentos, mas não creio que haverá uma posição de apoio mais bruto. Até porque Rússia e China também são parceiros comerciais e estratégicos importantes das monarquias do Golfo.