Resumo objetivo:
Um ato pelo Dia Internacional da Mulher em São Paulo protestou contra o feminicídio e a violência de gênero, marcado por chuva forte. Os manifestantes cobraram a criminalização da misoginia, o fim da escala de trabalho 6x1 e políticas públicas efetivas, criticando cortes orçamentários na proteção às mulheres. O protesto ocorreu em um contexto de recorde de feminicídios no Brasil, com 1.568 vítimas em 2025.
Principais tópicos abordados:
1. Protesto e reivindicações: A manifestação na Avenida Paulista exigiu o combate ao feminicídio, a criminalização da misoginia, o fim da escala 6x1 e igualdade salarial.
2. Dados da violência: Apresentação de estatísticas sobre o aumento de feminicídios no Brasil, com destaque para São Paulo.
3. Casos emblemáticos e relatos: Menção a histórias de vítimas e depoimentos sobre a impunidade e o medo enfrentado por mulheres.
4. Críticas às políticas públicas: Denúncia de cortes orçamentários em secretarias de proteção às mulheres e à tolerância institucional com discursos misóginos.
5. Influência da cultura "redpill": Alertas sobre o crescimento de conteúdos misóginos nas redes sociais e seu impacto na radicalização da violência.
Uma chuva forte acompanhou o ato do Dia Internacional da Mulher contra o feminicÃdio na avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (8). A criminalização da misoginia e o fim da escala 6x1 também eram reinvindicações da marcha organizada por movimentos sociais e partidos de esquerda.
A concentração começou às 14h, em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). A manifestação seguiu pela avenida Paulista e a rua da Consolação.
Antes de molharem, cartazes exibiam pedidos por mulheres vivas, fim do discurso "redpill", liberdade, salários igualitários e reafirmavam que criança não é mãe.
Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas no ato. Um grupo montou um pequeno cemitério com bonecas e outro reuniu sapatos femininos sobre um pano vermelho, representando as várias vÃtimas.
O Brasil registrou recorde de feminicÃdio: em 2025, foram 1.568 vÃtimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime, em 2015, 13.448 mulheres foram assassinadas no paÃs. O estado de São Paulo reúne o maior número de assassinatos de mulheres por razões de gênero âforam 270 em todo o ano passado. Só em janeiro, 27 mulheres foram mortas no estado paulista.
Um dos casos mais marcantes é o de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro presa ao carro dirigido por Douglas Alves da Silva, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um mês internada.
Monica Maria, 43, pedia justiça por sua filha, Tatiana, que foi estuprada e morta aos 17 anos, em agosto de 2024, no Jardim Pantanal, na zona sul paulistana. O caso continua sem conclusão após quase dois anos ânão foram chamadas testemunhas nem emitido pedido de prisão preventiva, tampouco convocados suspeitos para depoimentos, relata a mãe.
"Até hoje, ninguém fez nada. Esse descaso é porque somos mulheres, somos negras ou porque moramos numa periferia?", diz Maria. "DestruÃram a minha vida. Saà da minha casa de madrugada para trabalhar e quando voltei, encontrei minha filha dentro de um saco cinza."
Maria e outras manifestantes relatam medo apenas pelo fato de serem mulheres. "à muito triste imaginar que o teu sexo, o teu corpo, acaba sendo tão vulnerável que você tem que lutar por si e pelas outras", diz a psicóloga Cristiane Martins, 39. "Não é o estado que vai te salvar, não é o homem, é você mesma", completa.
O discurso dos movimentos no ato criticava sobretudo cortes do governo de TarcÃsio de Freitas (Republicanos) em áreas ligadas à proteção das mulheres. Em 2025, a Secretaria de PolÃticas para a Mulher de SP chegou ao terceiro ano sem recursos para projetos de combate à violência e igualdade de gênero.
"As reinvindicações de hoje são um chamado de responsabilidade de agentes públicos para que adotem ações efetivas de enfrentamento à escalada de violência contra as mulheres", diz Alice Ferreira, advogada e cofundadora do levante Mulheres Vivas.
"O corte de orçamento nas polÃticas de proteção tem impacto direto nessa realidade, assim como a tolerância institucional com práticas e discursos misóginos", completa.
Para Ferreira, o recorde de feminicÃdios "é resultado de um processo que vem se agravando nos últimos anos". "Assistimos a uma guinada conservadora que tenta recolocar a mulher em um lugar de submissão, questionando sua autonomia e seu direito de decisão", diz.
Ao mesmo tempo, a sociedade vê o aumento de conteúdos misóginos nas redes sociais, ligados sobretudo à chamada cultura "redpill". "O Brasil sempre foi um paÃs machista e violento, mas hoje vemos esse machismo se radicalizando em formas cada vez mais explÃcitas de misoginia", diz Ferreira.
Carregando um cartaz contra o discurso "redpill", a técnica em nutrição Ivanete Araújo, 49, participou do protesto com o marido e os filhos. Sua filha de 14 anos, Estela, foi vÃtima de bullying na escola, conta. "Saber que existe apologia de ódio contra as mulheres dói ainda mais quando acontece com alguém da sua casa, quando um grupo de meninos da escola que seguem 'redpills' se juntam e falam que odeiam uma menina sem motivo."
A garota, no entanto, diz que mesmo assim sai em defesa de outras colegas contra as brincadeiras machistas dos amigos. Para Ivanete, é fundamental educar os filhos desde cedo sobre respeito às mulheres. "Falo na escola da minha filha que essa educação precisa vir de casa, os pais precisam monitorar o que os filhos estão acessando. A principal influência tem que ser de casa, do pai."
Para a psicóloga Cristiane Martins, os homens devem fazer parte dessa luta. "Eles causam tudo isso e precisam fazer parte da solução. O discurso redpill tem que acabar", diz.
Os movimentos sociais pedem pela criminalização da misoginia e pela aprovação do PL 896/2023, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), que prevê incluir o crime de ódio à mulher entre as condutas punidas pela Lei do Racismo. O projeto voltou a tramitar após ser barrado e será votado na próxima quarta (11) na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado.
"Essa é hoje uma das pautas mais urgentes para a proteção das mulheres no Brasil. Acreditamos que a aprovação pode representar um marco importante na defesa das mulheres, assim como foi a criminalização do racismo no passado recente. A defesa da vida das mulheres também passa pela coibição de discursos discriminatórios e de práticas que naturalizam a violência."
Ferreira acredita que este 8 de Março ganhou mais relevância, movimentado sobretudo pelas notÃcias recentes de violência contra a mulher. "Infelizmente pelos motivos errados. GostarÃamos de estar nas ruas debatendo avanços nos direitos das mulheres e não reivindicando algo tão básico e urgente quanto o direito de viver."
A gerente de projetos Jane Lima, 48, reforçava em cartaz que os homens que cometem esses crimes não são monstros ou psicopatas. "A gente tá falando de homens normais. Inclusive, os bons que nada fazem também validam esse comportamento", diz.
Parentes e parceiros são os principais agressores â8 em cada 10 feminicÃdios foram cometidos pelo ex ou atual parceiro, segundo Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança.
Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, BrasÃlia, São LuÃs, Fortaleza, Maceió, Belém são outras capitais que também organizaram atos neste domingo (8).