Resumo objetivo:
Mojtaba Khamenei foi escolhido para suceder seu pai como Líder Supremo do Irã, demonstrando a rápida capacidade de adaptação do regime após um ataque que matou a cúpula política. No entanto, essa sucessão escamoteia a crescente militarização do poder, com a Guarda Revolucionária assumindo o centro real da política, reduzindo o papel dos clérigos. O processo foi acelerado por crises internas, pressões externas e sanções, cristalizando uma transição para uma república islâmica de caráter militarizado.
Principais tópicos abordados:
1. A sucessão rápida de Mojtaba Khamenei como Líder Supremo.
2. A crescente militarização do poder no Irã, com a Guarda Revolucionária como centro real.
3. O contexto de crises que levou a essa transição (ataques externos, protestos internos, morte de figuras-chave).
4. A marginalização dos clérigos e do presidente moderado Pezeshkian no novo arranjo de poder.
A escolha de Mojtaba Khamenei, 56, para suceder ao pai como lÃder supremo do Irã serve aos desejos mais imediatos do que sobrou da teocracia islâmica instalada no poder desde 1979.
Sob ataque dos Estados Unidos e Israel desde sábado (28), quando Ali Khamenei foi morto ao lado de talvez 40 integrantes da cúpula militar e polÃtica do paÃs, o regime demonstrou rápida capacidade de adaptação à crise.
Recorreu à Constituição e empoderou, de forma expressa, a troika que deveria comandar a sucessão. Viu escolhido o novo lÃder sem delongas, enquanto sustentava uma retaliação a alvos em todo o Oriente Médio que provou dispensar cadeia de comando vertical.
Este sucesso aparente escamoteia o risco existencial a que a teocracia segue exposta, mas também o fato de que ela só usa turbante agora na fachada. O real poder no paÃs é fardado, e a escolha do recluso Mojtaba indica novo centro de gravidade na polÃtica iraniana.
Por evidente, isso pode mudar caso o regime sobreviva e o novo lÃder deixe a sombra da Guarda Revolucionária à qual é associado. Neste momento, o que se vê é a cristalização da transição para uma República Islâmica de forte caráter militarizado, nesse sentido não muito diferente do vizinho Paquistão.
Este é um processo que não começou nesta guerra, é claro, e os fardados sempre tiveram grande poder no Irã. Mas ele foi adquirido de forma progressiva, com a infiltração da Guarda nas principais estruturas institucionais e econômcias do paÃs.
Quando Donald Trump deixou em 2018 o acordo nuclear firmado pelos EUA três anos antes com Teerã, o torniquete das sanções voltou a apertar, elevando a insatisfação social com o regime. No ano seguinte, o americano já insinuava 2026 ao matar o principal general do paÃs num ataque com drones em Bagdá.
A questão dos costumes explodiu, com os atos de 2022 e 2023 devido à morte sob custódia de uma jovem que usou o véu islâmico de forma que não agradou à polÃcia religiosa. O ataque terrorista do aliado Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 abriu o caminho até a guerra atual.
A barbaridade perpetrada pelo grupo palestino deu a Binyamin Netanyahu, que desde antes de seus primeiro governo nos anos 1990 priorizava o embate com o Irã, a oportunidade de um acerto de contas regional contra a linha de defesa primária do regime.
Reduziu Gaza a ruÃnas, degradou capacidades do Hezbollah e ainda viu a Turquia ajudar jihadistas a derrubar a ditadura de Bashar al-Assad na SÃria, limitando o fluxo logÃstico de Teerã na região.
No meio do caminho, Khamenei sofreu um baque central: viu seu herdeiro presumido, o presidente radical Ebrahim Raisi, morrer em 2024 numa nebulosa queda de helicóptero. A sucessão do lÃder envelhecido e sofrendo as consequências de um câncer foi embaralhada.
Netanyahu deu mais um empurrão no processo em 2025, quando atacou os iranianos, numa guerra de 12 dias encerrada com um estrondo de bombas americanas.
Cresceu então o poder de figuras polÃticas ligadas ao estamento militar, como o chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, e do presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf. Nenhum dos dois é clérigo. Mojtaba, por sua vez, seguiu operando à s sombras.
Na virada do ano, mais um golpe com os megaprotestos que, a exemplo do que aconteceu no Brasil em 2013, começaram por causa da economia, mas viraram sistêmicos. O regime fez o que sabe, repressão dura, mas a desconexão da casta religiosa da população se fez evidente.
A polÃtica persa é historicamente intrincada e impermeável a simplificações, mas o arranjo que se seguiu parece ter submetido o mais moderado presidente Masoud Pezeshkian a um papel lateral, tanto que foi Larijani que assumiu o leme retórico do governo sem Khamenei.
A desautorização pelos do pedido de desculpas do presidente aos vizinhos, por ambÃguo que fosse, apenas fez crescer essa percepção.
Agora, com Mojtaba à frente, decorativo ou não, a teocracia pode por ora dizer que vive enquanto novos atores dão as cartas. O quanto aguentará o assalto pelos ares é variável tão importante quanto sua capacidade de manter o desgaste regional de Trump, uma aposta na inconstância do americano.