Resumo objetivo:
Ferramentas de IA, como o ChatGPT, podem oferecer orientações rápidas sobre investimentos, mas apresentam limitações significativas. Em testes, a ferramenta cometeu inconsistências, como recomendar criptomoedas para um perfil conservador e projetar retornos otimistas acima do histórico real. Especialistas alertam que as respostas da IA não substituem uma análise personalizada, pois repetem padrões genéricos sem adequação completa ao contexto do mercado.
Principais tópicos abordados:
1. Limitações da IA em consultoria financeira: repetição de padrões, falta de contextualização e inconsistências nas recomendações.
2. Análise de testes práticos: exemplos de respostas da IA sobre acumulação de patrimônio para aposentadoria e diversificação de carteira, com críticas às projeções e sugestões inadequadas.
3. Comparação com assessoria especializada: a IA não substitui a análise individualizada de um consultor humano, especialmente em avaliações de risco e adequação ao perfil do investidor.
Ferramentas de inteligência artificial podem funcionar como uma forma rápida de obter orientações iniciais sobre investimentos, mas tendem a repetir padrões sem considerar totalmente o contexto do mercado, segundo Michael Viriato.
O colunista da Folha e assessor da Casa do Investidor analisou o teste da reportagem, no qual foi pedido para o ChatGPT dar respostas como um consultor de investimentos com mais de 15 anos de experiência. Ele diz que, apesar de corretas em alguns momentos, as dicas não substituem a análise individualizada que um consultor faria.
A IA escorregou na consistência quanto ao perfil de exposição ao risco e recomendou que uma pessoa de perfil conservador investisse em criptomoedas, por exemplo.
Foi enviado um prompt pedindo para que a IA respondesse como um consultor de investimentos com mais de 15 anos de experiência. A ferramenta deveria orientar um investidor brasileiro sobre estratégias de investimento e finanças pessoais, deixando claras as limitações das recomendações.
Foram feitos dois testes separados: um em um chat no modo "pensar" e outro no "buscar na web". As respostas do modo "pensar" ficaram mais completas e foram escolhidas para serem analisadas pelo especialista.
A reportagem também testou a consistência das respostas para checar o risco da plataforma dar conselhos inconsistentes. Em um dos casos, o ChatGPT recomendou que uma pessoa de perfil conservador investisse em criptomoedas, um ativo sabidamente de risco. Quando se trabalha com IA, é recomendado testar mais de uma resposta.
Veja detalhes do teste:
1) à possÃvel acumular R$ 2 milhões para a aposentadoria?
Um investidor de 30 anos, com perfil de risco moderado, baixa exposição a ações e capacidade de investir R$ 1.000 por mês. Seria possÃvel acumular R$ 2 milhões para a aposentadoria?
O ChatGPT afirmou que qualquer projeção depende de uma estimativa de retorno e uma carteira moderada no Brasil poderia render historicamente entre 6% e 8% ao ano acima da inflação no longo prazo.
A conclusão foi de que a meta de R$ 2 milhões seria possÃvel, mas dependeria da disciplina de investir todos os meses, da rentabilidade da carteira e do aumento gradual de novos aportes ao longo da carreira. Como exemplo, sugeriu a seguinte carteira:
Ao avaliar a meta apresentada, o sistema sugeriu mirar um patrimônio maior, próximo de R$ 3 milhões. A justificativa seria a inflação ao longo das décadas, o aumento da expectativa de vida e possÃveis gastos médicos na velhice.
Avaliação do especialista: Considerou alta a projeção da IA de retornos entre 6% e 8% ao ano acima da inflação. Ele diz que, historicamente, poucos ativos conseguiram sustentar esse nÃvel de juro real por perÃodos tão longos. O especialista recomenda trabalhar com taxa entre 4% e 5% ao ano acima da inflação.
Ele apontou inconsistências na carteira sugerida para um perfil com baixa exposição a ações. A IA indicou 30% em renda variável, percentual considerado alto no contexto brasileiro.
Embora tenha concordado com a inclusão de tÃtulos do Tesouro IPCA+ como forma de proteger o poder de compra, o especialista disse ter sentido falta de menção a ativos de crédito privado isentos do Imposto de Renda, que podem acrescentar cerca de 1,5% a 2% de retorno real à carteira.
2) Como diversificar R$ 50 mil hoje investidos em um fundo DI?
A IA sugeriu uma diversificação entre diferentes classes de ativos. A proposta foi manter parte dos recursos em renda fixa pós-fixada âcerca de R$ 15 mil no próprio fundo DI ou em aplicações atreladas ao CDIâ e destinar outros R$ 15 mil a tÃtulos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA+, para proteger o poder de compra no longo prazo.
A IA também recomendou incluir renda variável na carteira, com cerca de R$ 10 mil em ações por meio de um ETF que replica o Ibovespa, como o BOVA11, e R$ 7.000 em investimentos internacionais por meio de um ETF que acompanha o S&P 500, como o IVVB11. Por fim, sugeriu aplicar cerca de R$ 3.000 em fundos imobiliários, que podem gerar renda periódica.
Avaliação do especialista: Diz que respostas assim xigem cautela, já que a IA apresenta uma solução padrão sem considerar os objetivos do investidor. Um consultor começaria perguntando qual é a finalidade da diversificação. Para um objetivo de curto prazo, por exemplo, não haveria necessariamente motivo para sair de um fundo DI.
Ele contesta a ideia de que diversificar sempre aumenta o retorno. "Diversificar não é aumentar retorno. Diversificar é aumentar risco", afirma. Para o especialista, um investidor concentrado em fundo DI hoje já pode obter uma rentabilidade elevada, e migrar para ativos mais arriscados pode não fazer sentido, dependendo do objetivo.
Mais uma vez, a IA não considera o perfil do investidor brasileiro médio, que costuma ser mais conservador e de baixa tolerância a oscilações. Aa exposição sugerida à renda variável (cerca de R$ 17 mil somando ações brasileiras e internacionais) pode ser considerada alta.
Ele aponta um problema prático na recomendação de aplicar apenas R$ 3.000 em fundos imobiliários. Com um valor tão baixo, os rendimentos mensais tendem a ser pequenos, o que pode dificultar o reinvestimento frequente e reduzir o efeito dos juros compostos ao longo do tempo.
3) Como migrar da poupança para investimentos mais rentáveis?
A pergunta foi como começar a investir melhor após manter R$ 30 mil na poupança por três anos. O ChatGPT afirmou que manter esse valor na caderneta não precisa ser considerado um erro, já que a poupança é comum entre quem está começando, mas tende a render menos do que outras aplicações de baixo risco no longo prazo.
O primeiro passo sugerido foi entender o objetivo do dinheiro. Se for uma reserva de emergência, a recomendação foi priorizar aplicações seguras e com liquidez diária, como o Tesouro Selic.
Para quem deseja começar a diversificar, a IA sugeriu cerca de 40% em aplicações de liquidez diária, 40% em tÃtulos atrelados à inflação e 20% em renda variável.
Outra ideia foi fazer a transição para outros investimentos de forma gradual até ganhar confiança. Ela adicionou ainda que a poupança costuma render entre 2% e 4% acima da inflação, podendo ser menor em certos casos.
Avaliação do especialista: Para Viriato, deixar R$ 30 mil parados na poupança é, sim, um equÃvoco, já que existem alternativas mais rentáveis com risco semelhante. O especialista avalia que a resposta pode ter sido influenciada por uma tradução literal do conceito de "saving" usado nos EUA, que não corresponde exatamente à poupança brasileira.
Ele também considerou elevada a recomendação de destinar 20% para a Bolsa, especialmente para alguém que até então mantinha todo o dinheiro na caderneta.
A ferramenta também errou ao apontar que a poupança rende entre 2% e 4% acima da inflação. Segundo o especialista, o rendimento real no Brasil costuma ficar mais próximo de 0% a 2%.
4) Tenho 50 anos e R$ 100 mil guardados. Vale investir em PGBL ou VGBL?
O ChatGPT afirmou que esses produtos podem ser úteis para a aposentadoria, mas que a escolha depende principalmente da situação tributária do investidor.
A IA explicou que o PGBL é mais indicado para quem faz a declaração completa do IR e contribui com o INSS, já que permite deduzir até 12% da renda tributável. Já o VGBL tende a ser mais adequado para quem utiliza a declaração simplificada, pois o imposto incide apenas sobre os rendimentos.
A IA também disse que taxas de administração elevadas podem reduzir a rentabilidade ao longo do tempo e sugeriu não concentrar todo o patrimônio em previdência privada.
Avaliação do especialista: Viriato afirmou que a explicação da IA sobre as diferenças entre PGBL e VGBL está tecnicamente correta, mas disse que enquanto todos precisam de um plano para a aposentadoria, nem todo mundo precisa de um plano de previdência.
A previdência privada costuma fazer mais sentido quando há benefÃcio fiscal ou quando o investidor busca vantagens sucessórias. Fora dessas situações, outros investimentos podem ser mais eficientes.
Para Viriato, olhar para a taxa de administração para escolher o plano pode ser um erro, já que um fundo ativo com taxa maior pode entregar desempenho superior a um fundo passivo mais barato.
Colaborou Pedro Teixeira